Não era
a primeira vez que aquilo me acontecia. Ficar olhando para a tela em branco do
Word esperando que brotasse em
mim uma crônica bacana, enquanto – sabia eu – a primeira tecla
que eu pressionasse iria somente macular sua brancura, roubando a fama
que talvez lhe trouxesse um escritor mais consciente das aflições do mundo.
Nesse
ponto eu me encontrava quando o som propositalmente incômodo da campainha me
devolveu ao meu pequeno apartamento, para alívio da tela, ainda incólume de
meus tropeços. Era um senhor de aproximadamente cinquenta anos, cuja barba
grisalha cultivada há bons dias reafirmava o descuido de todo o resto, mal
escondido que estivesse por dentro daquele roupão que já deveria ter sido
vermelho. Eu estava mal-humorado por ter sido retirado da minha ineficiente
contemplação; ele também não parecia estar feliz, mas isso já não era da minha
alçada. Ou era?
- Onde
está minha galinha?
O hall estava silencioso e o meu vizinho
(supondo que o fosse) tinha se expressado com clareza. Ainda assim perguntei:
- O
quê?!
- Minha
galinha. Onde está minha galinha?
- Sua
galinha? Não seu cachorrinho ou gatinho. Sua galinha?! Num desses apartamentos
de menos de sessenta metros. Galinha?
- Minha
galinha – salientou.
- Quem
é você?
- Sou o
dono da galinha.
- Mas,
além disso, é também o morador do setenta e três, aqui ao lado, ou o quê?
- Sou
seu vizinho. E sou também o dono da galinha.
- Está
bem. Desculpe, mas não vi galinha alguma. Nem sei se o condomínio permite, é
bom lembrar, mas não vi sua galinha. Boa sorte com a sua procura.
Então
fechei a porta e fiquei olhando pelo “olho mágico” da porta, aquele
interessante dispositivo que serve sempre para bisbilhotar, e só às vezes para
realçar a segurança. Meu vizinho olhava atentamente para cada metro quadrado do
pequeno hall, e
voltou ao seu apartamento.
Fiz o
mesmo, e já de longe a tela em branco do computador me enfrentava como uma
amante luxuriosa e exigente encararia um menino virgem e inseguro. Resolvi abrir
uma cerveja e liguei a televisão para desanuviar a mente. Assisti a um filme ruim e, mesmo após quatro latas de cerveja redentoramente gelada,
nada me vinha à cabeça. Para ser sincero, tive algumas ideias, mas todas eram
depressivas ou melancólicas. Não que eu estivesse cansado de escrever minhas
tristezas. Ao contrário, escrevê-las é um ótimo alívio. A campainha tocou de novo. O mesmo senhor,
visivelmente de banho tomado, mas com a mesma roupa. O olhar incisivo e
desconfiado havia sido trocado por traços de comiseração e fragilidade.
- Já
achou minha galinha? – lamentava-se.
- Como
é o nome do senhor? – perguntei resignado.
- É Jaime.
- Seu
Jaime, meu nome é Maurício. Posso dizer que nunca vi uma galinha nesse
condomínio. Nunca. O senhor tem certeza de que não a deixou num sítio, ou
granja, ou canja?...
O olhar
inquisitivo voltava.
- Olha,
não é de hoje que eu sei da sua inveja pela minha galinha!
- Mas,
seu Jaime, como é que “não é de hoje”?! Eu conheci o senhor hoje; quase agora!
E estou ocupadíssimo
Fechei
a porta com decisão e barulho. Voltei a me sentar no computador. O medo da morte, a credulidade ingênua,
o egoísmo disfarçado. Eu não conseguia pensar em nada que não fosse pesado,
soturno e definitivo. Uma parte minha adoraria se tornar o porta-voz das
verdades duras e inconfessáveis, mas a outra morria de vergonha dessa
arrogância adolescente. Eu não sabia contar piada direito; como poderia me
enveredar nessas complexidades sem me perder por completo em minha própria
falta de clareza?
Comecei
a ouvir um barulho de porta sendo destrancada, e deveria ser o seu Jaime me
preparando sua terceira visita. Não decidi nada; comecei a agir de improviso.
Abri minha porta rapidamente e vi seu Jaime fechando sua porta. Antes que
pudesse me dirigir suas galináceas cobranças, ataquei-o eu.
- O
senhor pegou minha galinha – acusei-o sem saber onde essa ideia surgiu.
Ele me
olhou atônito, mirou os seus chinelos e então voltou-se para mim, com um
impressionante tom de dignidade.
- Sim,
mas só porque você pegou a minha galinha primeiro.
Adotei
então o mesmo tom.
- Consideramo-nos
quites?
Ele
refletiu como um magistrado romano e enfim concordou, mas falando devagar para
não se atrapalhar com a ênclise.
- Consideramo-nos.
Mas não chegue mais perto das minhas galinhas.
- Nem o
senhor das minhas – adverti com a mesma severidade.
Ele me
ofereceu um austero aperto de mãos para selar o acordo de cavalheiros e foi-se
de vez. Alguma lição poderia ser tirada desse episódio, e talvez sua própria
incongruência tivesse valor suficiente para ser contado numa crônica. Eu não
saberia dizer. As dores urgentes de um mundo tomado pela anestesia disfarçada
de entretenimento de massa aguarda minhas afiadas advertências.