quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Fumaça de Pedra



Ela tratava a todos com atenção e um sorriso luminoso nos lábios; parecia também ser solícita e boa ouvinte. Logo nos primeiros amén ficou evidente a relação entre seu leve estado de espírito e a religião que lhe suportava e alimentava. Meu incômodo foi imediato. Estávamos numa festa de aniversário de alguém (não me lembro de quem), mas me recordo dela porque acidentalmente engatamos conversa e eu sempre desconfio da alegria de quem nega a tristeza. Pode parecer dicotômico demais, mas não acho que se conhece o ying sem o yang.

Eu estava pesquisando num dicionário online um substituto para o verbo “fazer”, que serve para tudo sem explicar nada, quando o assunto me veio à mente. Então consultei a palavra “ateu”, mas o resultado não satisfez. A definição é a de alguém que não acredita em deus – com letra maiúscula. Não era isso. Minha memória logo me acudiu com a palavra “agnóstico”, e enfim eu cheguei à doutrina filosófica que declara as questões metafísicas como inacessíveis ao espírito humano, por não serem passíveis de análise pela razão. Aí respirei aliviado; meu descrédito já havia sido batizado.

Alguns religiosos têm uma paciência sem-par para a discussão metafísica – os testemunhas de jeová são bons exemplos, e parecia ser também o caso daquela menina (a que eu abandonei para poder falar do dicionário). Conversamos muito e abordamos o tema da crença por vários enfoques. Recordo-me agora que ela confrontou minha falta de fé principalmente em três aspectos, que didaticamente podemos chamar de natureza, transcendência e fraternidade.

Sobre a natureza, defendeu que eu, gostando tanto do mar, falando apaixonado sobre o mergulho autônomo e a vida marinha, como negaria a perfeição do engenheiro silencioso por trás de tudo? “Ponto de vista”, respondi sem humildade. O mergulho é uma das experiências mais bonitas que se pode ter, mas é também um ambiente muitíssimo violento, onde a dinâmica presa-predador se embrenha em cada grão de areia, cada corrente ou recife. Será que a presa se comove com a perfeição das múltiplas arcadas dentárias de um tubarão que vem em sua direção? Com a velocidade do ataque de uma barracuda? “Sistema bem imperfeito”, diriam se pudessem.

Quanto à transcendência, perguntou-me sobre o sentimento de solidão que traria o reconhecimento de que o mundo é feito só pelo que se vê e toca; sobre as coisas serem somente coisas. Não seria desolador? Seria, mas não me via parte desse grupo avoado e apegado ao mundo físico. A introspecção da meditação, ou mesmo a contemplação de uma obra de arte que mereça esse nome; são experiências muito maiores do que se presume – e acolhem quem se dispuser à experiência, independentemente de fé. Enfim, a transcendência é essencial. Os olhos se fecham serenamente e os pensamentos, que antes atravessavam a mente como carros numa autoestrada, não são somente descartados, mas dissolvidos. Com o tempo, reconhece-se afinal o significado da paz – uma nova tranquilidade que descansa o corpo de fatigas que ele próprio desconhecia. E o mero vislumbre de obras como “A Ascensão”, de Salvador Dalí – de inspiração religiosa, diga-se – comprova a impossibilidade de resumi-la um quadro e moldura. Ela transcende, e isso, podemos todos.

Por fim, a fraternidade. O que seria da humanidade, ela dizia, sem os atos de bondade inspirados pelos textos sagrados? Sem a doação com que os crentes abençoaram e abençoam o mundo há séculos? Temi ser desrespeitoso, mas respondi que estaríamos melhor, e fui sincero. A ajuda ao próximo é indiferente a qualquer doutrina religiosa; é o cerne da vida em sociedade desde a que ela tem esse nome: é o altruísmo. Sempre fomos capazes das maiores atrocidades, mas também sempre tivemos uma mão oferecida ao próximo em momento de necessidade. Acredito que o ímpeto de ajudar o semelhante viria com o incentivo religioso ou sem ele. O que não sei é se as desgraças patrocinadas pela religião teriam arrumado outro veículo – o fanatismo parece ser fruto seu.

A discussão foi minguando e tomando outros rumos. Sempre me sinto intimamente envergonhado pela prepotência que ganho nessas conversas. Acabo acreditando que tenho todas as respostas e me inflo; e se depois corro para atenuar essa sensação, nem assim deixo de reconhecê-la. A festa acabou, a amizade ad hoc também. Não a vi mais por anos, até que, voltando para casa do trabalho num começo de noite, apertado num vagão de metrô, reconheci seu rosto que em nada havia mudado, no meio dos paulistanos. Demorei duas paradas para recordar seu nome e poder cumprimentá-la; como descemos no mesmo ponto, a conversa pôde seguir mais um pouco.

Era outra pessoa. Nossa conversa na festa não havia sido o ponto de partida, mas tinha dado mais combustível a algumas inquietações que já germinavam nela. Então, a sensação de dúvida de fé foi ainda mais alimentada com a convivência de um novo namorado (que já era ex-namorado àquela altura). Disse-me que foi se distanciando de suas crenças, voltando-se mais para o trabalho e outras atividades, tornando-se também mais questionadora e racional. Estaria tudo bem se eu não estivesse lendo nas entrelinhas. Ela falava com demasiado sarcasmo sobre quem era antes – a moça sorridente e ingênua. Sua falta de fé originou falta de perspectiva, de propósito. “A morte que nos aguarda não justifica velório desde já!”, pensei assustado com a transformação que via.

Então lhe falei sobre uma entrevista que havia lido, onde a entrevistada, que era religiosa, falava que a fé sempre teria seu lugar no mundo porque, enquanto o papel da ciência se restringia a evitar a morte, a religião ensinava a morrer em paz. Ela estranhou que eu estivesse defendendo o que ela chamou de alienação, novamente em tom mordaz. Perguntei-lhe então o que lhe dava prazer naqueles dias, pois a religião, antigamente, parecia ter papel certo em suas alegrias. Disse-me que gostava de cinema, de beber com amigos, essas coisas. Eu também gostava daquilo tudo, mas sua resposta foi descolorida, burocrática.

A moça da entrevista estava certa: nós, que não temos fé, provavelmente enfrentaremos a morte com mais medo e impotência, pois nada há que amenize o fim abrupto, que não se abre na forma de transição para qualquer outra forma de existir. Mas, se não sabemos morrer direito, é melhor que aprendamos a viver bem o quanto antes.

Nossa caminhada juntos terminava; seguiríamos o restante do caminho para casa por caminhos diversos.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Juliana Está Certa



-         Ainda não! Senta aí e bebe mais um pouco também.
-       Mas já são uma e meia! O bloco já saiu e a gente vai ter que pegar ele no meio do caminho!...
-         Paciência. Não dá pra encarar sóbrio mais uma tarde como a de ontem. Senta!
                        Eu entendia o lado do Otavio. Havíamos chegado há menos de dois dias em Salvador, pleno carnaval de 99, e eu tentando acabar com a cerveja do hotel vagabundo que pudemos pagar à época. Entender eu entendia, mas aquela era a melhor das hipóteses. Concordei com aquela viagem, mesmo gostando tanto de axé quanto de uma consulta ao proctologista, porque as notícias da portentosa libidinagem soteropolitana ecoavam pelo Brasil afora, e tímido como sempre fui, procurava toda a facilitação que pudesse encontrar.
Foram meses de planejamento onde organizamos estada, alimentação, abadás e transporte. Tudo feito minuciosamente para que desse tudo errado do mesmo jeito. Funciona assim: debaixo de um sol abrasador, uma turba suada e deselegante, por horas sem fim, grita e pula ao som muito alto e mais ordinário ainda de um comboio de caminhões piorados em trios-elétricos. (Ao lado de gente do quilate de Torquemada e Menguele, deveriam estar Dodô e Osmar. Que desserviço prestaram!...)
Seria incoerente, contudo, afirmar agora que não entendo o motivo de ter embarcado numa viagem daquelas. A resposta é mulher; em 99, a resposta sempre era mulher: a causa e a solução de todos os problemas daquele começo de vida adulta. Na minha imaginação, o que na realidade se revelou como uma turba suarenta era para ser uma autêntica festa romana onde ninguém seria de ninguém e eu iria comer todo mundo, mas não comi foi ninguém. Em catorze dias de festa, beijei o suficiente para o ano todo, mas ao contrário de trazer conforto, aquela lambeção toda só me deixou atiçado e impaciente. As mulheres iam mesmo para dançar e não havia quem as afastasse do bloco, fosse pelo que fosse; a indignação masculina era geral e inconsolável. Era dança sugestiva para todo lado em que se olhava e ninguém que fizesse jus àquela oferta toda.
Bom, lá estávamos nós três: Otávio, ávido por pulação, gritação e beijação; eu, bebendo e torcendo para que a cerveja não só tornasse mais palatáveis as mulheres indigestas, mas consertasse a experiência carnavalesca como um todo; e Vinicius, ainda indeciso entre gostar ou não da festa, mas bebendo comigo com igual entusiasmo por via das dúvidas. Já adianto que funcionou. Devo ter percorrido o dobro do percurso Barra-Ondina, porque o fiz inteiramente em zigue-zague, mas bem-humorado e permanentemente acompanhado por toda sorte de mocinhas: bonitas e feias, magras ou cheinhas, brancas ou pretinhas. Se servir como atenuante, acho que foi a experiência mais democrática que já vivi. Importante ressaltar que não havia flerte, galanteio ou qualquer coisa que o valha; quando muito, um sorrisinho como quem pede licença e acabou-se. Muitas vezes, inclusive, o beijo de boas vindas era também o beijo de adeus, pois a moça sumia. Fosse puxada por outro folião, por vontade própria, ou por ser empurrada pelo tumulto para longe e para sempre.
O ritual diário consistia em sairmos diariamente do nosso hotel em Amaralina, comermos o ótimo acarajé das imediações – um oásis de prazer naqueles dias –, e tomarmos o ônibus em direção à festa. A principal música horrorosa daquele ano era “Juliana”, aquela com o refrão insistente que dizia “a Juliana não quer sambar / Samba, Juliana / Samba, Juliana / Samba, Juliana, samba”. Pois a Juliana estava certíssima; deixassem a moça em paz com seu justo protesto. Chegando ao ponto em que o pessoal dos trios começava seu trajeto, eram mais de dez horas procissão pagã com axé nos ouvidos.
Mas seria somente isso o carnaval de Salvador, uma das maiores e mais famosas festas do planeta? Resumir-se-ia a um enorme encontro com música de quinta categoria em altíssimo volume, coroado pela propaganda amargamente enganosa de sexo fácil? Sim, seria. O povo é simpático e a terra é linda, mas isso se pode conferir durante todo o ano; não são méritos do carnaval. Acho que a lição que ficou foi a de não se desdobrar tanto atrás de um rabo de saia. Pouco tempo depois, veio a moda do forró entre os universitários e houve amigos que chegaram a fazer aulas de dança para se entrosarem no ritmo que chegava e já se impunha peremptório. A idéia de ficar naquele rala-coxa também foi inicialmente sedutora, mas, não. Já aprendi com a Juliana.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Ascensão e Queda do Encanador



O quintal era separado da calçada por um muro baixo pintado de branco com a tinta já descascada em muitos pontos. O pequeno gramado estava bastante judiado pelo sol inclemente de janeiro, que, naquele começo de tarde, mostrava todo seu poder. A falta de cuidados dava vez ao crescimento de inúmeras plantinhas que lutavam por sua porção de luz, e uma delas eu desfolhava num cruel passatempo onde expiava todas as injustiças do mundo. O mar se fazia ouvir como um sussurro ao fundo, cortado então por gemidos desafinados, gritos aliviados e interjeições de toda sorte, todos vindos do interior da casa da qual eu havia sido enxotado.
Poucos dias antes dessa expulsão, eu e os outros meninos da Rua Venezuela, em Peruíbe, no litoral sul de São Paulo, estávamos explorando uma das construções que se iniciavam ali perto. Junto ao surf em prancha de isopor e aos longos passeios de bicicleta onde éramos verdadeiros Hell's Angels, explorar as construções que pipocavam no bairro era uma das brincadeiras favoritas. Era a segunda metade dos anos oitenta e os terrenos baldios rapidamente davam lugar a novas casas de veraneio, proporcionando expedições por seus corredores de tijolo à mostra e montes de areia e brita.
Em regra já ficaríamos satisfeitos em pular nos montes de areia e montar algumas malocas com os tijolos e placas de madeira, mas seria diferente dessa vez. Algum pedreiro desleixado havia largado em seu local de trabalho uma revistinha com fotonovela pornográfica de quinta categoria. Folheamos tudo rapidamente. Depois, mais uma vez, mas pausado. Era absolutamente mais instigante do que o livrinho “De Onde Viemos?”, até então a única referência do tema, que ainda consultávamos somente para olhar aqueles desenhos do corpo feminino. Ali na fotonovela, uma desinibida dona de casa e um diligente encanador que atendia a domicílio, longe das figuras meigas e gorduchas do papai e da mamãe do “De Onde Viemos?”, trocavam olhares cujas intenções eu não reconheci bem à época, e depois iam bem além disso.
Por mais obstáculos que a compreensão total daquela fotonovela apresentasse, foram todas desvendadas ao seu tempo, seja com a ajuda de outros vizinhos já adolescentes, seja com a aquisição de outras revistas do gênero, cuja análise conjunta permitiu mais traduções do “pornografês” para o inocente português infantil. Foi assim até a chegada dos videocassetes, itens de luxo que aos poucos se espalhavam pelas casas de classe média. Como viria a acontecer com os DVDs e a internet, a pornografia não deixaria de se introduzir (com o perdão do trocadilho) nessa nova forma de mídia. De fotonovelas em branco e preto com modelos cansadas de guerra para filmes coloridos e recheados de pornstars era um salto colossal, e olha que ainda nem se falava em alta definição.
Mas fui barrado e agora esperava sozinho no quintal. O pai do dono do aparelho em VHS havia pedido ao seu filho de catorze anos que não permitisse que crianças vissem o filme; “só quem tiver doze anos ou mais” havia advertido, e eu tinha onze. Portanto uma mera parede me separava do que poderia ser a experiência sexual mais representativa daquela década. Volta e meia eu batia na porta e apelava para a solidariedade dos demais, mas era ignorado, resmungava um pouco e voltava resignado para a tortura botânica. Eu não contava com a ajuda dele, mas meu irmão mais velho estava lá dentro e, num episódio de rara fraternidade, enfim convenceu o menino dono do videocassete a me deixar entrar. Afinal, qual seria a gravidade do castigo de um pai que libera filme de sacanagem para um bando de pré-adolescentes?
Somavam cinco meninos da turma, todos espalhados pela sala e com almofadas no colo. Estranho aquilo. Lá fora estava um calor infernal e eu não entendi a necessidade da almofada, que repeti somente para não destoar dos demais. Alguém pega o controle remoto e inicia o filme. Difícil manter as aparências de naturalidade. Após um breve galanteio do encanador do filme, que soou grosseiro até para mim, a moça o beijava freneticamente, igualzinho à fotonovela (o que equivale a dizer que o beijo não era na boca), mas sua cabeça ia e vinha com um vigor que eu jamais supus existir na realidade estática da revista; a inércia de suas imagens eram então substituídas por um entusiasmo que beirava a imprudência. Assim foi até o final: o ritmo frenético, as posições dignas do Cirque du Soleil, tudo era mais dinâmico e complexo do que na revista. “De Onde Viemos?”, então, aposentava-se de vez; jamais voltaria a ser folheado. Como guia, não chegava perto de nos preparar para tudo aquilo.
Já se passaram quase trinta anos e lembrando agora, centenas de milhares de filmes depois, ainda não tenho opinião formada sobre esse primeiro episódio ter sido, ou não, um desserviço para a minha educação. Mas foi bom que a minha experiência como protagonista tenha ocorrido somente anos depois dos filmes; esse tempo mostrou que as moças da vida real não são tão pragmáticas quando o assunto é sexo. Não fosse assim, hoje eu poderia ser um encanador de esperanças frustradas, ainda aguardando ser chamado por uma dona de casa fogosa que não ligaria jamais.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Foto em Negativo



A criança estava quieta e divagava; seus olhos, perdidos num ponto qualquer, não olhavam para frente, mas para dentro. A mãe cuidava de afazeres da casa, notava a situação sem estranheza e com um sorriso discreto, já ciente de que seu filho era dado à introspecções. Foi quando o menino perguntou: “mãe, é isso que é pensar?”.
Ao menos em relação às introspecções, receio não ter mudado muito. Não havendo o que – ou quem – me ocupe as ideias, entro invariavelmente num estado de stand by. Não me restringi, contudo, no pensar sobre o pensar, e logo mirei obstinado na felicidade, que só é procurada por quem não a tem. Mas as situações eram de fato semelhantes: antes, eu não atinava que já pensava enquanto desvendava o que viria a ser “o pensar”; tempos depois, matutava sobre o “ser feliz” enquanto construía nebulosos paradigmas que, na verdade, me roubavam a lucidez necessária para refletir direito.
Antes de procurar a felicidade, já que não se investiga o que não se conhece, busquei sua definição e conclui que talvez fosse uma vida sem percalços. Naqueles tempos mais simples, pareceu-me que bastaria que não existissem provas escolares para que tudo ficasse bem. Mais tarde, ainda pensando não tê-la encontrado, eu descobriria crédulo que, muito mais do que passar sem a ansiedade dos estudos atropelados em véspera de prova, a felicidade era estar apaixonado e ser correspondido – e acho que foi o mais perto que eu cheguei de uma definição satisfatória. Mas bastaram alguns episódios espinhosos para que eu visse o amor como um bem fugaz demais para guardar em si toda a significância do que seria a felicidade – que poderia até permanecer um mistério, mas haveria de ser mais estável do que o amor.
Foi a música, enfim, que confunde amor e felicidade todo o tempo em menções torrenciais de esperança e contentamento, que trouxe a palavra final. E foi justamente na direção contrária, numa mensagem desoladora, que eu encontrei a felicidade definida por sua ausência, pelo negativo da sua foto, pelo vazio lacerante e inconfessável de sua falta. Na canção “Passarim”, lamenta Tom Jobim:
Passarim quis pousar, não deu, voou
Porque o tiro partiu mas não pegou
Passarinho me conta, então, me diz
Por que que eu também não fui feliz
É a última frase a que mais importa: “Por que que eu também não fui feliz?”, com ênfase no “também”, sussura que quem sofre vê a felicidade dos outros e isso só faz amargar ainda mais seu “não amar”. “Por que é que eu também não fui feliz?”, sem um “ainda” que o salve, mostra a resignação de quem já se sabe incompleto, mas não aceita; ainda pergunta retórico sobre as razões de sua desventura. Só a felicidade para causar tanta dor quando vai embora, ou, como nessa canção, quando sequer chega.