quinta-feira, 24 de abril de 2014

Dialética disléxica



-         Então você não vai montar um perfil no Facebook? No Orkut você tinha até álbuns de foto temáticos.
-         O Orkut era novidade, oras. Além disso, naquela época eu tinha mais tempo livre e podia me dar ao luxo de ficar fuçando as novidades, mesmo que não visse algum propósito. No mais, larguei logo.
-         Mas é tão legal!... Está todo mundo lá.
-         Estar todo mundo lá é defeito! Sendo sincero, cheguei a fazer o cadastro inicial no Facebook, quando você preenche aquele formulário online onde põe sua conta de e-mail. Assim que o Facebook reconheceu meu e-mail, mandou – sem o meu consentimento! – uma mensagem da minha chegada para todos os meus contatos. Aliás, o que é pior, não só para eles: o programinha enxerido cruzou dados de escolas e faculdade frequentados, dentre outros, e mandou a mesma mensagem inclusive para quem ele achava que pudesse me conhecer, mesmo não fazendo parte dos meus contatos. Estou falando: sortilégios tecnológicos!
-         Mas o que é que tem? Não é uma rede social? Supõe-se que você esteja lá para manter contato com as pessoas que conhece. O Facebook só te poupou esforço.
-         Só que eu não quero manter contato com todo mundo que eu conheço, só com quem eu gosto. Gastei um tempão de planejamento sutil e diplomático justamente para perder contato com muitas daquelas pessoas e aí vem o Facebook querendo unir a gente feito Bill Clinton naquele episódio com o Yasser Arafat e o Yitzhak Rabin...
-         Então é isso? Você vai se tornar uma dessas pessoas que esnoba a tecnologia em nome de uma nostalgia de araque?
-         Não vou por esse caminho tacanha, mas te adianto que geralmente não é nostalgia, é só preguiça mesmo. Nostalgia remeteria a Beatles ou namorada magra, não a máquina de escrever ou outra bobagem qualquer; tem coisa que não deixa saudade. Essa linha de raciocínio me lembra o Millor Fernandes (que algum Deus o tenha!...), que defendia o indefensável com muito mais elegância e velhice do que eu. Meu problema não é com a tecnologia, mas com a publicidade.
-         Você fala dos anúncios, né? Realmente, a gente baixa um monte de programas que pensa ser gratuito quando eles são, na verdade, publicidade dissimulada. Você abre o programa e fica pipocando na tela um monte de anúncios.
-         Está certo, isso também chateia, mas estou falando de outro assunto. Uma coisa que une o Facebook, o Big Brother e adesivinhos de carro.
-         Adesivinhos?
-         Você sabe, esses adesivinhos de família feliz que o pessoal coloca na parte de trás do carro. Quando o semáforo fechar, eu fico sabendo que o dono do Fiat da frente tem uma esposa sorridente, dois filhos sorridentes e três gatos sorridentes.
-         Ah, sei! Eu acho esses adesivos uma gracinha.
-         Se não achasse eu estranharia. E, olha, tem gente que mesmo não se enquadrando no “formatão da família feliz”, ainda assim põe os adesivinhos. Fica lá a mulher, dois filhos e dois cachorros: não há quem não fique pensando se ela é divorciada ou mãe solteira. Noutro dia, um Corsa preto trazia o adesivo de uma mulher sozinha acompanhada de cinco adesivos de gato. Fazia tempo que não ficava com tanto dó de alguém; quase saí do meu carro para bater no vidro da moça para oferecer um abraço, de tão comovido.
-         E o que isso tem a ver com o Facebook e o Big Brother?
-         Tudo. É tudo forma de exposição. E não adianta perguntar o porquê de as pessoas gostarem de se expor porque elas não sabem; já me certifiquei disso. Veja: antes, os artistas se expunham porque seu trabalho tinha de ser divulgado e isso é fácil de entender. Mais tarde, um espertalhão notou que algumas pessoas gostavam mais de ver o artista do que seus trabalhos e passaram a ganhar dinheiro também com a vida pessoal do artista: era o nascimento de publicações desprezíveis como Contigo ou Caras.
-         Essa é a sua conclusão genial?
-         Não, mal educada. E continua ouvindo que vai te fazer bem. Como eu dizia: como alguns artistas não se dispunham a expor sua vida pessoal, o pessoal dessas “Contigos” notou que havíamos nos tornado tapados demais para consumir arte, e que para fuçar na vida alheia, já que nem todo artista se prestava a esse papelão, serviria qualquer pateta sem talento. Assim passamos a acompanhar entusiasmados a vida de gente intrigante como Adriane Galisteu ou Roberto Justus.
-         Acabou?
-         Não. Quieta. Um pouco depois, notaram que, se até a Adriane Galisteu servia para o populacho acompanhar, então haveria de servir qualquer um – mas qualquer um mesmo –, e sairia muito mais em conta. Pronto! Taí o Big Brother. Gente que não conquistou nada sendo acompanhada por gente que não se importa com conquista alguma. É baratinho e todo mundo se diverte.
-         E onde entram os adesivinhos?
-         No mesmo lugar do Facebook. Não cabe todo mundo nas “Contigos” e “Big Brothers”; assim, sobrou-nos sermos criativos para oferecer nossa privacidade aos olhos de quem se interesse, mesmo que gratuitamente. Você pode saber com quem eu moro, para onde eu viajei, os restaurantes que eu mais gosto, as músicas que eu escuto...
-         Tá bom... E por que você acha isso tão errado?
-         Falei que acho errado? Acho idiota. É o mesmo que ir para um bar e, ao invés de conversar, ficar prestando atenção na mesa do lado. Fique em casa e leia um livro decente, oras...
-         Pois eu gosto de tudo isso e não sou nada idiota.
-         Não é não?
-         Agora você já está sendo grosso!...
-         Desculpe... mas posso concluir?
-         Fala!
-         O que mais me irrita nisso tudo é a felicidade transbordante de sorrisos e bem-estar onipresente. Todo mundo, em todos esses formatos, abre somente a privacidade que quer, mas ficamos com a impressão de ter visto o quadro todo, e não somente o pedacinho que permitiram. Ficamos num oceano de felicidade e fazemos a nossa parte quando também oferecemos só sorrisos para os olhares curiosos. Parece que ninguém se entristece, que não há solidão, rejeição, desespero...
-         Agora vai defender o desespero?
-         Quer saber? Vou!... Felicidade em tempo integral não é felicidade. Ninguém que pare para pensar no assunto pode concluir honestamente dizendo “sou uma pessoa feliz!”; podemos estar felizes em alguns momentos (com sorte, muitos), mas sermos felizes? Não dá, é tempo demais... A vida tem muitos sabores além do doce, sem os quais o próprio doce perde identidade. Pode me chamar de louco, mas eu quero o amargo, o azedo e o salgado também. Você realmente não concorda?... Oi?! Você está me ouvindo?!
-         Puxa, desculpe!... Eu estava vendo um e-mail aqui no meu IPhone e viajei. O que você estava dizendo?
-         Nada. Não estava dizendo nada.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Ninharias



Não sou o tipo de sujeito egoísta, que fica contando centavos em troco de restaurante ou perguntando o que cada pessoa bebeu. Não sou mesmo; acho que essas pequenas mesquinharias não justificam sequer o esforço de engendrá-las. Observe-se que, se a arte imita a vida, desde O Avarento de Molière, passando pelo Conto de Natal de Dickens, até O Mercador de Veneza de Shakespeare, não se encontra um único elogio ao poupar desmedido. E eu concordo com tudo isso. Só não concordo que isso se aplique ao caso das bolachinhas; nada mais!...
Naquele episódio, um biscoitinho não era um biscoitinho; era, antes, um gesto calculado de esperançosa diplomacia empresarial. Contextualizarei: sou contínuo, exatamente como a personagem de Lima Duarte no Bonitinha Mas Ordinária, com quem já começo a me assemelhar também em termos de penteado (ou de sua inviabilidade). O contínuo, ou ajudante geral, não tem sua atividade movida pela nobreza da vocação, mas tão somente pela necessidade pedestre de um ganha-pão. Eu já tentei mostrar para os meus colegas de trabalho que há mais em mim do que trocas de lâmpada e reposição de copos descartáveis, mas não adiantou. Seus olhares mal se desviaram de seus monitores de computador enquanto eu desperdicei todo meu requintado humor e esmerada erudição ao gosto da brisa criada pelo ventilador que eu mesmo consertei.
Se minhas palavras não os alcançaria, talvez gentileza de outra natureza o fizesse. Comprei então alguns pacotes de biscoitinhos – bem carinhos, admito – e os coloquei em uma bombonière em minha mesa. Quem passasse receberia um biscoitinho e, na melhor hipótese, passaria a ter uma opinião melhor esculpida sobre mim. Era o plano. Plano que o Severino da limpeza, com quem divido a sala, desde o início tentou pôr a perder. Um dos gerentes, já no primeiro dia da estratégia, entrou para pedir-me um serviço qualquer e, gordinho como é, de imediato enamorou-se dos meus paparicos. Antes que eu o convidasse para que se servisse, Severino lançou desgraçadamente “agora aqui vai sê assim: chegou aqui leva bulacha!” enquanto ria-se todo, muito divertido consigo mesmo. Eu me limitei a um tímido gesto com a mão para que o gerente se servisse e ele agradeceu sem pegar nenhum. Severino tem a sofisticação de um invertebrado e aos olhos da empresa somos iguais. É justo?
Pior foi no dia seguinte: a bombinière estava vazia. O glutão deve até ter inclinado a vasilha na boca pois sequer as migalhas podiam agora testemunhar que ali houvera biscoitinho. Um vazio total. Quando Severino chegou, questionei-o imediatamente, mas devolveu-me igualmente ligeiro. “Sei lá de porra de biscoito!...”, respondeu-me com sua costumeira civilidade. Ele é um grosseirão, mas um grosseirão de quase cento e dez quilos, então procurei relativizar. No mais, ele não era afeito aos doces; não devia estar envolvido no sumiço.
Comprei outros pacotes, dessa vez um pouco mais baratos. Durante o dia, algumas pessoas passaram pela sala e pegaram uma bolachinha. A notícia se espalharia, eu estava certo disso. Manhã seguinte, mesmo crime covarde, bárbaro. Dentro da bombonière, só minha revolta e desamparo. Comprei um novo pacote de biscoitos e colei um recadinho com durex no pote “uma gentileza do Benê para TODOS do escritório” e grifei o “todos”. Aviso dado, aviso ignorado. Já eram vários pacotes de bolacha e eu ainda não era o contínuo cuja recém-descoberta generosidade já fazia supor que ali moravam muitas outras e igualmente desejáveis virtudes. Eu era só o “tio da manutenção”, ou infinitamente pior, o “colega do Severino”.
Já alcançávamos um padrão: bombonière vazia. Decidi então guardar a bombonière em uma gaveta com chaves no final do expediente para somente liberá-la no dia seguinte. A essa altura, o infeliz troglodita ao meu lado já sabia das minhas inquietações e se divertia com elas. Eu, altivo, ignorava sua risadas altas e entrecortadas com fungadas e outros sons que eu torço para que tenham saído de sua boca. Eu estava entrando na sala, no dia seguinte, quando Severino, que dela saía, afirmou “olha que deu resultado, hein! Devolveram as bolacha tudinho!...”. Eu entrei e vi. Em cima da minha mesa um pacote de bolachas mais caro do que a soma de todos os sumidos. O ogro achava que aquilo era um pedido de desculpas, mas não eu. Ah, o ladrãozinho sujo, além de vilipendiar minhas iniciativas em relações públicas, agora procurava me humilhar com sua demonstração abjeta de poder. Joguei no lixo e pisei forte até que tudo se transformasse na farofa mais amarga que já se viu.
Mas não sou um detetive; não saberia nem por onde começar. Se saísse perguntando por aí, ririam de mim na certa e só faria dar publicidade ao que eu quero que se esqueça. Antes que um pote de biscoitos se transformasse em uma baleia branca que me levasse com ela feito um Gregory Peck calvo e pobretão, era melhor ser maduro e deixar de lado. Fui andar pelos corredores para desassombrar a mente. Na minha condição, basta fazer isso com um balde na mão ou segurando uma chave de fenda que qualquer pessoa pense que estou em plena atividade. Dá para fazer isso por horas num condomínio de escritórios com quatro torres de treze andares. Assim, cabisbaixo fui-me sem destino por infindáveis corredores de lâmpadas fluorescentes e carpetes soltos nas emendas, pelos quais, cedo ou tarde, eu ainda iria tomar um pito.
Chegando ao térreo, passei pelas portarias para cumprimentar os rapazes antes de voltar para o trabalho de verdade. Talvez como recompensa por ter escolhido o caminho da maturidade, talvez por coisa alguma, descobri sem procurar o fim dos meus bicoitos. Passando pela portaria do bloco três, o presidente da empresa passeava com seu filho único, um gorduchinho de onze anos aproximados que mastigava freneticamente enquanto migalhas iam caindo por seus dois queixos e prendendo-se em sua blusa de lã como uma pequena avalanche de gordura hidrogenada. Em uma das mãos um biscoito que não me era nada estranho; a outra mão vazia e quase fechada num punho, não fosse o dedo médio voltado para mim, desafiador e convenientemente ocultado das vistas do pai, ocupado em uma conversa de celular.
Encerrava-se a diplomacia dos biscoitinhos e saciava-se a sede de vingança sem que uma gota de sangue fugisse de veia qualquer. Quem não enxerga direito deve preferir comprar óculos a dirigir vinganças ao Deus que lhe negou visão livre de ortopedia. Quanto a mim, vou pegar cola para os carpetes.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Fatos e Impressões - ou Putz



“Tá tudo bem, tchau...” e a ligação acabou. Foi assim que eu soube que não estava tudo bem. Toda relação tem suas peculiaridades, e na minha há uma regra sutil em que, se na despedida não se manda um beijinho para selar a conversa com ternura, então é porque alguma amargura se espreitou e ainda encontra pouso confortável dentre nossas muitas inquietações. Essa angústia teria de ser decifrada mais tarde, pois já era hora de levarmos minha sobrinha para a festa de aniversário de um coleguinha de escola dela.

Toda relação amorosa é pródiga desses silêncios que se fazem evidentes como berros histéricos. Eu estava orgulhoso por ter descido pelo tobogã do buffet infantil sem deixar cair nada da minha cerveja quando um amigo pediu que o acompanhasse até a entrada do lugar para que conversássemos enquanto ele fumaria; os diálogos logo tenderam para mais um exemplo do ponto de vista que vou defender adiante.

- Agora minha mulher não diz mais “não” quando eu vou atrás dela.
- O quê?! Parabéns, rapaz! O grupo dos casados sem vida sexual esporádica (que é estatisticamente irrelevante) ganhou um membro! A que se deve o milagre?
- Você presumiu bastante coisa. Eu só disse que ela não nega mais.
- Então?...
- Então, que agora ela já entra no quarto à noite toda apressada, queixando-se do quanto está cansada, de como tudo é tão corrido e do quanto precisa dormir. Quando sai do banheiro de dentes escovados e já trocada, está com um pijama pesadão digno de governanta inglesa. Se antes as investidas eram negadas, agora eu nem tenho espaço para tentar...
- Putz... – respondi com o que sobrou da minha sagacidade, esvaziada frente a tanta maquiavelice.
- Putz. – ele devolveu. E uma quietude conformada nos envolveu.

Acredito que os silêncios dos casais descartam conversas tão aborrecidas quanto emergenciais, onde ambos poderiam ao menos tentar abrir suas fragilidades e assim iniciar algum entendimento. Tais conversas, ao contrário daqueles tóxicos hiatos, seriam feitas de palavras e olhos que se olham, e é aconselhável enxergar além da aparente redundância, pois um casal que se fita também se compadece e se acumplicia, fazendo das palavras também temperos, rodeios e eufemismos, oportuníssimos amaciadores de momentos espinhosos. Tudo perdido por silêncios que não se comovem com nada, gabando-se de sua compreensão imediata, conquanto impassível. Ah, mas são sinceros.

A sinceridade é, talvez, a mais superestimada dentre as virtudes, e triunfa mesmo nas mensagens não ditas – talvez principalmente entre elas –; comumente sua qualidade de honesta e espontânea camufla falta de tato, podendo chegar a crueldades de difícil alívio. Ou estou certo, ou nunca se viu quem, após magoar o outro com seu ponto de vista sem qualquer lapidação, afirma soberbo “falei mesmo, não sou falso” ou “ah, eu sou assim, sou sincero”. Pode ser, mas também é mal educado e sem consideração.

Lembram-se dos “putz”? A mencionada “quietude conformada” que os seguiu não durou o suficiente para que eu concluísse o que acabei de desabafar, e assim meu amigo continuou falando sem ter quem lhe ouvisse (reconheço com algum embaraço). Da forma como pude, fiz o primeiro assunto voltar e atualizei Marcos, meu negligenciado amigo, sobre o que me assombrava.

- Maurício, acho que os casais acabam virando rivais em algum grau, sabia? Algum malfeito meu é respondido com uma desatenção dela; uma indelicadeza dela é retrucada com uma grosseria minha... E a engrenagem vai ganhando certeza e velocidade. Nesse panorama é que as conversas esclarecedoras, ao invés de encontrar alguma permeabilidade, se chocam em muralhas de defensividade. Mágoas são esquecidas só na aparência; mais fazem é se acumularem até o ponto em que o toque mais inocente pode repercutir de forma imprevisivelmente perturbadora. Os silêncios de que você fala são exemplos disso.
- Conversar abertamente seria muito melhor, concorda?
- Olhando cada episódio isolado, sem dúvida. Só que o sujeito que levanta a bandeira da paz agora também é acusado de declarar guerra em primeiro lugar. Aí essa boa vontade toda, aos olhos da mulher, não vai passar de remorso mal moído...
- Se os silêncios são herméticos e frios, e as conversas já começam viciadas por antigas farpas, então está todo mundo lascado?!
- Está.
- Putz...
- Putz.
- E daqui vamos aonde? Nenhuma hipótese para pôr à prova? Testar em campo?
- Essa maldita preguiça que nos faz tratar cada vez pior a pessoa que amamos é um dado científico: amor e gentileza são inversamente proporcionais. Num mundo perfeito, ninguém mudaria seus tratos com a convivência. Homens e mulheres, perturbados com “sabe-se-lá-o-quê”, não descontariam o peso do mundo na única pessoa que poderia aliviá-los. Como no início dos relacionamentos, com a incerteza inquietante sobre a conquista recente – os mistérios que ainda não se dissiparam –, seríamos namorados para sempre. Aí a receita da felicidade ficaria simples: transaríamos até o universo se desfazer em entropia e receberíamos os cavaleiros do apocalipse com uma puta de uma risada.
- Bonito... Mas lá em casa não vai dar quórum, não.
- Nem na minha.
- Putz...
- Putz.
- Se bem que sugestão dada no futuro do pretérito não transmite muito otimismo mesmo.
- Releve, meu amigo. Lá em casa não está tudo bem já faz algum tempo; devo estar chato pacas...

Estava um pouco chato e professoral mesmo, mas ninguém é obrigado a acordar carismático e modesto todo dia. Mais do que isso, não posso me esquecer de procurá-lo depois para que ele desafogue as razões do seu derrotismo; amigo é para isso, afinal.

Um fio d’água na sarjeta levou a segunda bituca para o esgoto, e foi o sinal para que voltássemos para a festinha, que correu sem incidentes até o bolo de chocolate, brigadeiros e despedidas. O bom é que a molecada brincou à exaustão e minha sobrinha dormiu no carro enquanto eu voltava dirigindo com o carro em silêncio. A pequena iria passar a noite lá em casa.

Enfim chegamos. Enquanto eu ia estacionando o carro, pensava na maneira com que começaria a conversa conciliatória, mesmo que sequer soubesse o deslize de que seria acusado; tudo para que houvesse beijinho na próxima despedida telefônica. Não tive a oportunidade. No instante em que eu desliguei o carro, ela pousou suas mãos na minha coxa direita, debruçando-se sobre mim e me sussurrando nos ouvidos “estou te esperando no quarto sem toda essa roupa”.

Assim?! Sem conciliações rasas nem promessas inverossímeis cobertas de boa intenção?!


Talvez eu conheça meus problemas tão bem quanto sou capaz de ler as reações dos outros. Não parece muito, e, de fato, eu estaria mais preocupado se minha atenção não estivesse voltada em levar uma criança no colo com a agilidade e expertise de um garçom de rodízio.