sexta-feira, 18 de novembro de 2016

In Natura

Olhe, menino, para a lua que à noite em tudo põe seu brilho pálido, e a cortesia das estrelas que lhe são madrinhas

Veja o lago que agora é prata e, agradecido à lua, dança com a brisa

Ouça as folhas já cansadas do verde e que, a caminho do amarelo, farfalham num acorde junto à água e então caem saudosas da terra que lhes é começo e fim

Entenda o plácido do lago e o inquieto da cascata, cujo silêncio perene e fúria contida em nada discordam

Enquanto não dorme, menino, acorde para o cheiro da relva, o gosto da água, a textura do vento - tudo que lhe foge em distração

Mas não agora, que todo conselho tem seu tempo

Agora você siga espiando o sono da moça com olhos de âmbar. A moça que, em seu coração, é lua e estrelas, água e brisa, grama e prado. A moça que traduz, silente, o que esse quadro de varanda esconde


Para Sheila Ferreira

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Mensagem ao Tempo

Amor, diga ao Tempo que me perdoe
Diga-lhe, Amor, que parei de maldizê-lo para quem me ouvisse e agora sou todo elogios
Diga a ele que a vagareza de seus ponteiros, se já me trouxe destemperos, também trouxe alguma lucidez, e que já sei rir mesmo quando me dói
Diga ao Tempo, Amor, que alguma lição sempre tem ficado, e que já vejo a perfeição como uma busca descontente, tal qual ele alertara
Diga-lhe dos dias difíceis que estorvavam a mim e a ele, mas que já se vão ao longe… e vendaval passado é brisa
Diga também, amor, para não me guardar rancor por tanta queixa, pois o que me irritava então - seu arrastado transcorrer -, é o que mais lhe rogo agora; é de onde brota toda a simpatia que lhe tenho
Amor, não se esqueça de dizer ao Tempo nada do que eu agora lhe confio, se justamente sua chegada, amor tão bem-vindo, foi o ponto de mudança
Diga ao Tempo que você veio para que ele agora siga como bem gosta, que é movendo-se preguiçoso, sem afoiteza ou atropelos
Diga a ele que ouvi por aí que o Tempo voa quando se ama, mas confio que ele não há de me fazer tamanha maldade
Diga a ele também que entendo a demora para a chegada da moça com olhos de âmbar em minha vida, pois confio que o tempo estava também a prepará-la para tolerar minhas mazelas
Diga-lhe, enfim, que se dependesse de mim, por egoísta que soe, eu faria o Tempo imóvel - nem devagar avançaria -, desde que o pudesse fazer durante um beijo da moça com olhos de âmbar, pois suspeito que ela seja sonho, e eu não estou pronto para acordar.


Para Sheila Ferreira

(Exercício sobre "Mensagem a Rubem Braga", de Vinicius de Moraes)

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Prece de Alcova

Prometo que a vontade crua que de mim brota por você nunca terá freios

Prometo tomar seus beijos como eu quiser, sem gentileza que os amenize

Prometo devorar seu corpo impiedosamente, como se meu fosse para qualquer fim

Prometo que minhas mãos lerão seu corpo em tudo que ele disser, sem palavras que as guiem

Prometo que o olhar terno que me denuncia o amor, à primeira doce provocação, há de se fazer ávido e faminto por cada traço seu

Prometo calar qualquer razão porquanto nossa pele se procurar afoita, desafiando as noites a não se renderem ao dia

Prometo que unhas e dentes darão testemunhos eufóricos, e nossa fadiga será a única trégua de um amor sem mordaças


Para Sheila Ferreira

segunda-feira, 21 de março de 2016

Dia da Poesia

“Hoje é dia da poesia...” - atentou o amigo
“Escreve alguma coisa” (vou ver se consigo)

Se, pro samba, um bocado de tristeza
Pra poesia, outro tanto de amor
Ou de paixão, desde que cresça
Sem medo de rimar com dor

E amor tem tanto!
Pelo amigo ou filho; no filme ou livro
Talvez lhe faça abrigo...
...Talvez soe castigo

Mas a poesia tem preferência
Pelo amor que se enamora
O moço que canta à varanda
A moça que dança sem hora

Pela moça sonha o moço
Que depois conta no papel
Pra ser lida ou cantada, de novo e de novo
Como reza feita ao céu