“Que diabo foi aquilo?” é o que eu repito por dentro sem parar; tanto que
já devia estar enjoado, só que não estou, principalmente porque repeti-la não me
adianta de nada e eu gosto de perder tempo. Afinal, que porra foi aquilo?
Não sou um sujeito de lamber feridas, e francamente acho de uma vaidade
ridícula (provável pleonasmo) olhar orgulhoso para a própria dor como se ela
fosse capaz de tornar maduros e experientes, em alguns minutos, anos de vida
catatônica. Então não estou perguntando “que diabos foi aquilo?” de forma
redundante; quero mesmo saber o que foi que aconteceu. No mínimo, para poder
cantar a bola no futuro e economizar dores de cabeça de onde não se aprenderá
nada (se for para aprender, dores de cabeça são bem-vindas – não estou aqui
para uma vida feliz; a mim basta uma vida que não entedie).
É verdade que eu não conhecia você muito bem, e também é verdade que eu
sou craque em criar expectativas improváveis (mas são gostosas – duvido que eu aprenda
a evitá-las). Não conhecer muito bem, por outro lado, é diferente de não
conhecer nada, e muita coisa não precisa ser dita. Eu reconheceria a vaga melancolia
do seu olhar a quilômetros de distância e isso era imensamente sedutor para
mim. Esse tipo estranho de beleza tornava você mais complicada, intrigante, e
deus sabe que eu me entedio com gente legal.
No fundo esperava que você me visse da mesma forma. Talvez até tenha
visto, não sei. Mas você não foi seduzida; ou foi, mas alguma coisa foi mais
forte e levou você embora. Daí meu “que diabo foi aquilo?”.
Minhas expectativas vão pedir por um novo objeto, o que não deve tardar a
acontecer, mas eu vou achar isso uma bela porcaria assim que reconhecer a
repetição desse padrão: vou lembrar de você e a moça que não tem nada a ver com
isso talvez acabe machucada (espero que não, sadismo é resposta de amargurado.
É que eu não sou bom em cuidar da dor dos outros enquanto me dói a minha).
Sei que estou mentindo; enrolando, no mínimo. No fundo mesmo, não me
interessa saber “que diabo foi aquilo”. Não tenho nenhuma necessidade de
colocar “pingos nos ‘is’” ou coisa que o valha; toda tentativa de entender uma
partida é falsa. Estou me lixando para as razões que levaram você embora;
perguntas desse tipo tentam esconder que eu me envergonho de querer você de
volta, e isso eu não pediria ou esperaria. Mais do que minhas expectativas em
relação a você, eu sou obcecado por uma relação menos verbal, menos dialogada;
em boa parte, quero ser entendido no silêncio manso, e lutar por alguém só é
bonito em filme ruim. Nós, rascunhos de príncipes, não queremos salvar ninguém;
queremos uma princesa bonita por dentro e por fora, deliciosa aos nossos olhos,
com quem possamos gozar e chorar por um longo tempo. Só não foi dessa vez. Quanto
ao “que diabos foi aquilo”, eu peço desculpas ao capeta por dizer seu nome em
vão. Alguma lição deve ter ficado e mais tarde eu descubro; retroativamente,
todos somos perspicazes. Guarde seus motivos pra você e tenha uma vida interessante.
Daqui do meu lado, vou tentar a mesma coisa.