segunda-feira, 14 de julho de 2014

Filtros e Acordes



Faltavam poucos dias para o show do Herbie Hancock e ninguém queria ir. Claro, um monte de gente quis ir, mas ninguém que eu conheça, o que eu acho um absurdo. Trata-se do autor de Head Hunters, um dos álbuns de jazz mais vendidos de todos os tempos, que começa com uma linha simples e repetitiva de sintetizador, criando o ambiente para que os outros músicos timidamente encontrem seus lugares e depois transformem a simplicidade inicial em swing e virtuosismo tais que fica difícil reconhecer como uma coisa levou à outra.

Já o show do Black Sabbath, todo mundo topou, é lógico. Quem não quis ver o Ozzy, legendário cantor da formação original e igualmente legendário mordedor de cabeça de morcego? É até irônico que eu compare o sujeito que compôs Head Hunters com o sujeito que é um head eater, mas é a única semelhança entre eles. E não sou contrário ao rock pesado; ao contrário, eu fui em ambos os shows.

Perto dos meus treze anos, o rock se apresentou sedutor sob a melodia limpa e honesta do Dire Straits, banda americana com forte influência no rock dos anos 50, o rockabilly, e nos guitarristas de música country, como Chet Atkins. Foi meu primeiro LP – um dos únicos, na verdade –, pois eu via mais graça em montar intermináveis compilações em fitas cassete com o que os outros compravam, ou diretamente do radio. As boas influências foram somando Beatles, Stones, Animals e outros, enquanto as más influências foram trazendo Iron Maiden, Motorhead e o inescapável Black Sabbath.

Uma coisa que o rock pesado faz como nenhuma outra vertente de rock n’ roll é ser indefectivelmente monotemático em termos de emoção. Passa agressividade com perfeição, mas não consegue ir além – nem quer. Os Beatles têm sua agressividade registrada em Helter Skelter, mas também são românticos em If I Fell, resignados em For No One, dramáticos em Eleanor Rigby. Já no caso do Iron Maiden, a “donzela” está sempre com uma TPM das bravas. Mesmo quando os versos são alegres, seu canto é enfezado.

Ora, foi amor à primeira vista (ou ódio à primeira vista?). Eu, que não entendia nada do que sentia naqueles primeiros anos de adolescência, podia ficar confortavelmente bravo com tudo, e havia trilha sonora que não acabava mais para embalar minha oleosa testa franzida. Metaleiro está bravo até quando dança, o que – diga-se – é uma contradição essencial com o ato de dançar, mas eles não podem prestar atenção nisso: se ficarem distraídos dançando, podem acabar perdendo os dentes. Logo meus amigos se resumiram somente a outros metaleiros, pois não tínhamos nem paciência, nem disposição para explicar aos outros que eles deveriam ver o mundo sob nossa obtusa perspectiva.

Havia entre nós uma forte sensação de identidade, o que era suficiente para que o resto fosse rechaçado. E sejamos sinceros, a indústria fonográfica facilitava nossa postura recalcada: de 1990 para cá, os grandes sucessos nacionais em termos de estilo foram o axé baiano, o pagodinho paulista e o funk carioca; a Marisa Monte e a Ivete Sangalo foram alçadas aos postos de divas, pelamordedeus!... O samba, coitado, não podia ajudar também, pois infelizmente era – e ainda é – visto como a antítese máxima do rock, a mais peçonhenta forma musical que um roqueiro xiita pode imaginar. Homens sorridentes que gingam enquanto cantam são a nêmesis de suas convicções.

Então me apresentaram as primeiras bandas de rock progressivo, como o Rush e o Pink Floyd. “Eu respeito, mas não é a minha”, afirmei convicto das minhas escolhas inconscientes após ouvir somente os primeiros acordes de seus álbuns. Eles não gritavam putos da vida o tempo todo e isso os excluía taxativamente da minha discoteca. Só que essa verdade foi sendo mais e mais dissolvida por seus acordes dissonantes e ritmos quebrados que, diferentemente do rock pesado, passavam um tipo incerto de emoção que me agradava sem que eu entendesse ou me identificasse.

Eis a internet. Eu não tinha mais o peso da escolha financeira sobre as escolhas musicais. Antes eu comprava o que já suspeitava que gostaria porque era o que o dinheiro permitia; agora eu podia ter a discografia do mundo todo do dia para a noite, e pagando somente a mensalidade do plano de internet, que não mudava com meus exageros. Em poucos meses, já tinha todo o rock que minha memória foi capaz de garimpar, mas a sanha de downloads não se continha. Num momento inspirado, certamente influenciado pelo rock progressivo, digitei quatro letras no buscador: um “j”, um “a” e dois “z”. Apareceu uma lista enorme de gente de quem eu nunca tinha ouvido falar, então organizei pelos mais recorrentes, para que eu primeiro conhecesse as músicas mais solicitadas pelos computadores mundo a fora. Miles Davis, John Coltrane, Oscar Peterson.

Não tinha nada a ver com o que eu passara quase vinte anos ouvindo e endossando, exclusivamente. Muitas vezes não tinha nem refrão!  E, afinal, no meio de todas aquelas variações de gente como Thelonious Monk, que emoção era passada? Eu não identificava a agressividade, minha companheira de tanto tempo, mas também não via outra coisa. Fosse raiva, tesão, romantismo, medo, eu não via o que fosse, mas segui ouvindo mesmo assim, guiado por uma confusa intuição. Então eu saquei: era o oposto da minha primeira impressão. O jazz passava tudo, todas as emoções ao mesmo tempo sem uma tônica que as guiasse. Venceria a melancolia se eu estivesse melancólico, mas ganharia a animação se para esse lado eu me voltasse. Há, inclusive, um diálogo na obra “100 Balas” que ilustra essa característica: “mas eu não entendo o jazz”, diz um; “não tem problema”, retruca o outro, “o jazz te entende”.

Depois de tantos anos destilando tudo que eu sentia como agressividade, eu era defrontado com uma música que permitia que eu sentisse tudo que eu nunca permiti, e ao mesmo tempo. Até hoje eu não consigo evitar assistir aos shows de jazz com um sorriso de orelha a orelha. Deve ser alívio.

E essa satisfação me traz ao ponto de partida. Ao show do Herbie Hancock que ninguém quis ir. O rock me rodeou de gente, mas o jazz tem dificuldade em fazer a mesma coisa. Talvez as pessoas não queiram reconhecer que suas emoções as visitem em ondas caóticas e muita vezes contraditórias, e não ordenadamente. Talvez isso só aconteça comigo e o jazz seja um estilo fadado ao underground. Os amigos do rock continuam do meu lado. Estamos ficando grisalhos e nossas reuniões, antes regadas somente à cerveja, hoje também permitem suco, pirulito e desenho animado para a filharada. Ouço jazz porque aprendi que não preciso dominar minhas emoções; ouço rock porque às vezes esqueço.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Eleanor Rigby



Salvo uma única exceção semanal – a missa na Igreja Presbiteriana comandada pelo não menos solitário padre McKenzie –, era raro vê-la pela rua em outros afazeres. Não era feia, nem particularmente bonita; não tinha um corpo escultural, tampouco malfeito a ponto de afugentar os homens; não era desengonçada, nem seus traços eram marcantes ou seu andar, sedutor. É bem verdade que eu não tinha idade nem vivência para julgar boa parte do que acabei de destacar, mas ao menos da forma como me lembro, tanto o menino de ontem quanto o homem de hoje concordam na descrição.

Minha atenção foi fisgada não por uma atitude sua, mas, ao contrário, talvez por seus silêncios. Alguns silêncios falam até demais e não costumam ter muito tato. Já vi casais que vão a restaurantes e se limitam a dividir a refeição calados, muitas vezes sem se tocarem e com olhos voltados para a comida que aparentam apreciar tanto quanto a companhia. Cansados demais até para brigar, casal que não se aguenta é mais triste do que o sujeito que bebe sozinho, com seu copo de cerveja reinando isolado no meio da mesa como verdadeiro baluarte de uma autossuficiência pouco convincente.

No caso de Eleanor (assim ouvi alguém chamá-la na Igreja), seus silêncios eram preenchidos por minha dedução, minha imaginação, e, por vezes, até meu ócio. Desenhei-lhe a mais afiada e enigmática das personalidades e justificava seu jeito retraído como tédio inevitável causado pelas conversas provincianas das quais já havia se cansado. Não tendo quem lhe fizesse par, ficava ela com seus brilhantes pensamentos. Era também como eu via as bandas de rock estrangeiras antes de conhecer um mínimo de inglês: a empolgação com a melodia me fazia acreditar que as palavras ali cantadas seriam de um lirismo incomparável. Depois vi que não eram e foi como se um novo papai noel fosse desmascarado. Reconhecer a condição humana é sempre frustrante.

No domingo, enquanto eu comia meu desjejum em meio à fanfarra que minha família fazia logo de manhã, podia ver, do lugar onde me sentava, as janelas da sala e da cozinha daquela moça, pois era minha vizinha. Pelo pouco que suas janelas contavam, ela também tomava café no mesmo horário, mas de um jeito disciplinado e sempre séria, sempre sozinha; nada guardava de semelhante com a lambança criada por meus irmãos, sempre inconformados com a peremptória missa que se aproximava. Tentei dividir com eles meu interesse pela vizinha, mas deram de ombros. Aquela história seria só minha; não porque fosse especial, mas porque ninguém mais a quis.

Já na Igreja, com seu sóbrio e costumeiro vestido cinzento, participava ativamente das liturgias e, vez por outra, era possível vê-la sorrir, mesmo se tratando de um sorriso minguado e fugaz. Ela devia ter um gosto sofisticadíssimo, pois nada daquela rotina parecia ser capaz de fazer jus às altas expectativas com que eu lhe vestia, e como eu ainda não reconhecia a verdade simples que era a sua solidão, ficava me perguntando sobre os interesses inacessíveis que poderiam ocupar sua mente.

O final da infância e o começo da adolescência, que já têm seus próprios percalços, aos poucos fizeram escassear o interesse que eu tinha pela vizinha, tornando-me mais e mais parecido com todo o resto do mundo, até que, enfim, não sobrou ninguém que investisse algum tempo pensando em Eleanor. E mesmo no meu caso, meu interesse não lhe rendeu sequer uma conversa, pois sempre me restringi às minhas confabulações e não cheguei nunca a abordá-la. Indiferente, portanto, aos meus comportamentos de antes ou depois, nunca cheguei a fazer-lhe bem ou mal. Ela, que não era bonita nem feia, não teve comigo nada de bom ou ruim.

Soube dela por último enquanto ouvia minha mãe conversando com outra vizinha, que contava de sua morte prematura durante uma missa, por causa ainda desconhecida, e que havia causado o maior rebuliço. Foi a primeira vez que muita gente lhe dedicou uma fala, e foram tão curtas quanto “tadinha” ou “é a vida”. Morria a moça que ninguém conhecia; que gostava de cinza, vivia sozinha e rezou muito pedindo pelo que ninguém vai saber.