Faltavam poucos dias para o show do Herbie Hancock e
ninguém queria ir. Claro, um monte de gente quis ir, mas ninguém que eu
conheça, o que eu acho um absurdo. Trata-se do autor de Head Hunters, um dos álbuns de jazz mais vendidos de todos os
tempos, que começa com uma linha simples e repetitiva de sintetizador, criando
o ambiente para que os outros músicos timidamente encontrem seus lugares e
depois transformem a simplicidade inicial em swing e virtuosismo tais que fica
difícil reconhecer como uma coisa levou à outra.
Já o show do Black Sabbath, todo mundo topou, é
lógico. Quem não quis ver o Ozzy, legendário cantor da formação original e
igualmente legendário mordedor de cabeça de morcego? É até irônico que eu
compare o sujeito que compôs Head Hunters
com o sujeito que é um head eater, mas é a única semelhança entre
eles. E não sou contrário ao rock pesado; ao contrário, eu fui em ambos os
shows.
Perto dos meus treze anos, o rock se apresentou
sedutor sob a melodia limpa e honesta do Dire Straits, banda americana com
forte influência no rock dos anos 50, o rockabilly, e nos guitarristas de
música country, como Chet Atkins. Foi meu primeiro LP – um dos únicos, na
verdade –, pois eu via mais graça em montar intermináveis compilações em fitas
cassete com o que os outros compravam, ou diretamente do radio. As boas
influências foram somando Beatles, Stones, Animals e outros, enquanto as más
influências foram trazendo Iron Maiden, Motorhead e o inescapável Black Sabbath.
Uma coisa que o rock pesado faz como nenhuma outra vertente
de rock n’ roll é ser indefectivelmente monotemático em termos de emoção. Passa
agressividade com perfeição, mas não consegue ir além – nem quer. Os Beatles
têm sua agressividade registrada em Helter
Skelter, mas também são românticos em If
I Fell, resignados em For No One,
dramáticos em Eleanor Rigby. Já no
caso do Iron Maiden, a “donzela” está sempre com uma TPM das bravas. Mesmo
quando os versos são alegres, seu canto é enfezado.
Ora, foi amor à primeira vista (ou ódio à primeira
vista?). Eu, que não entendia nada do que sentia naqueles primeiros anos de
adolescência, podia ficar confortavelmente bravo com tudo, e havia trilha
sonora que não acabava mais para embalar minha oleosa testa franzida. Metaleiro
está bravo até quando dança, o que – diga-se – é uma contradição essencial com
o ato de dançar, mas eles não podem prestar atenção nisso: se ficarem
distraídos dançando, podem acabar perdendo os dentes. Logo meus amigos se
resumiram somente a outros metaleiros, pois não tínhamos nem paciência, nem
disposição para explicar aos outros que eles deveriam ver o mundo sob nossa obtusa
perspectiva.
Havia entre nós uma forte sensação de identidade, o
que era suficiente para que o resto fosse rechaçado. E sejamos sinceros, a
indústria fonográfica facilitava nossa postura recalcada: de 1990 para cá, os
grandes sucessos nacionais em termos de estilo foram o axé baiano, o pagodinho
paulista e o funk carioca; a Marisa Monte e a Ivete Sangalo foram alçadas aos
postos de divas, pelamordedeus!... O
samba, coitado, não podia ajudar também, pois infelizmente era – e ainda é – visto
como a antítese máxima do rock, a mais peçonhenta forma musical que um roqueiro
xiita pode imaginar. Homens sorridentes que gingam enquanto cantam são a nêmesis
de suas convicções.
Então me apresentaram as primeiras bandas de rock
progressivo, como o Rush e o Pink Floyd. “Eu respeito, mas não é a minha”,
afirmei convicto das minhas escolhas inconscientes após ouvir somente os
primeiros acordes de seus álbuns. Eles não gritavam putos da vida o tempo todo
e isso os excluía taxativamente da minha discoteca. Só que essa verdade foi
sendo mais e mais dissolvida por seus acordes dissonantes e ritmos quebrados
que, diferentemente do rock pesado, passavam um tipo incerto de emoção que me
agradava sem que eu entendesse ou me identificasse.
Eis a internet. Eu não tinha mais o peso da escolha
financeira sobre as escolhas musicais. Antes eu comprava o que já suspeitava que
gostaria porque era o que o dinheiro permitia; agora eu podia ter a discografia
do mundo todo do dia para a noite, e pagando somente a mensalidade do plano de
internet, que não mudava com meus exageros. Em poucos meses, já tinha todo o rock
que minha memória foi capaz de garimpar, mas a sanha de downloads não se
continha. Num momento inspirado, certamente influenciado pelo rock progressivo,
digitei quatro letras no buscador: um “j”, um “a” e dois “z”. Apareceu uma
lista enorme de gente de quem eu nunca tinha ouvido falar, então organizei pelos
mais recorrentes, para que eu primeiro conhecesse as músicas mais solicitadas
pelos computadores mundo a fora. Miles Davis, John Coltrane, Oscar Peterson.
Não tinha nada a ver com o que eu passara quase vinte
anos ouvindo e endossando, exclusivamente. Muitas vezes não tinha nem
refrão! E, afinal, no meio de todas
aquelas variações de gente como Thelonious Monk, que emoção era passada? Eu não
identificava a agressividade, minha companheira de tanto tempo, mas também não
via outra coisa. Fosse raiva, tesão, romantismo, medo, eu não via o que fosse,
mas segui ouvindo mesmo assim, guiado por uma confusa intuição. Então eu saquei:
era o oposto da minha primeira impressão. O jazz passava tudo, todas as emoções
ao mesmo tempo sem uma tônica que as guiasse. Venceria a melancolia se eu
estivesse melancólico, mas ganharia a animação se para esse lado eu me
voltasse. Há, inclusive, um diálogo na obra “100 Balas” que ilustra essa característica:
“mas eu não entendo o jazz”, diz um; “não tem problema”, retruca o outro, “o
jazz te entende”.
Depois de tantos anos destilando tudo que eu sentia como
agressividade, eu era defrontado com uma música que permitia que eu sentisse
tudo que eu nunca permiti, e ao mesmo tempo. Até hoje eu não consigo evitar
assistir aos shows de jazz com um sorriso de orelha a orelha. Deve ser alívio.
E essa satisfação me traz ao ponto de partida. Ao show
do Herbie Hancock que ninguém quis ir. O rock me rodeou de gente, mas o jazz
tem dificuldade em fazer a mesma coisa. Talvez as pessoas não queiram
reconhecer que suas emoções as visitem em ondas caóticas e muita vezes contraditórias,
e não ordenadamente. Talvez isso só aconteça comigo e o jazz seja um estilo
fadado ao underground. Os amigos do rock continuam do meu lado. Estamos ficando
grisalhos e nossas reuniões, antes regadas somente à cerveja, hoje também
permitem suco, pirulito e desenho animado para a filharada. Ouço jazz porque
aprendi que não preciso dominar minhas emoções; ouço rock porque às vezes
esqueço.