quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Foto em Negativo



A criança estava quieta e divagava; seus olhos, perdidos num ponto qualquer, não olhavam para frente, mas para dentro. A mãe cuidava de afazeres da casa, notava a situação sem estranheza e com um sorriso discreto, já ciente de que seu filho era dado à introspecções. Foi quando o menino perguntou: “mãe, é isso que é pensar?”.
Ao menos em relação às introspecções, receio não ter mudado muito. Não havendo o que – ou quem – me ocupe as ideias, entro invariavelmente num estado de stand by. Não me restringi, contudo, no pensar sobre o pensar, e logo mirei obstinado na felicidade, que só é procurada por quem não a tem. Mas as situações eram de fato semelhantes: antes, eu não atinava que já pensava enquanto desvendava o que viria a ser “o pensar”; tempos depois, matutava sobre o “ser feliz” enquanto construía nebulosos paradigmas que, na verdade, me roubavam a lucidez necessária para refletir direito.
Antes de procurar a felicidade, já que não se investiga o que não se conhece, busquei sua definição e conclui que talvez fosse uma vida sem percalços. Naqueles tempos mais simples, pareceu-me que bastaria que não existissem provas escolares para que tudo ficasse bem. Mais tarde, ainda pensando não tê-la encontrado, eu descobriria crédulo que, muito mais do que passar sem a ansiedade dos estudos atropelados em véspera de prova, a felicidade era estar apaixonado e ser correspondido – e acho que foi o mais perto que eu cheguei de uma definição satisfatória. Mas bastaram alguns episódios espinhosos para que eu visse o amor como um bem fugaz demais para guardar em si toda a significância do que seria a felicidade – que poderia até permanecer um mistério, mas haveria de ser mais estável do que o amor.
Foi a música, enfim, que confunde amor e felicidade todo o tempo em menções torrenciais de esperança e contentamento, que trouxe a palavra final. E foi justamente na direção contrária, numa mensagem desoladora, que eu encontrei a felicidade definida por sua ausência, pelo negativo da sua foto, pelo vazio lacerante e inconfessável de sua falta. Na canção “Passarim”, lamenta Tom Jobim:
Passarim quis pousar, não deu, voou
Porque o tiro partiu mas não pegou
Passarinho me conta, então, me diz
Por que que eu também não fui feliz
É a última frase a que mais importa: “Por que que eu também não fui feliz?”, com ênfase no “também”, sussura que quem sofre vê a felicidade dos outros e isso só faz amargar ainda mais seu “não amar”. “Por que é que eu também não fui feliz?”, sem um “ainda” que o salve, mostra a resignação de quem já se sabe incompleto, mas não aceita; ainda pergunta retórico sobre as razões de sua desventura. Só a felicidade para causar tanta dor quando vai embora, ou, como nessa canção, quando sequer chega.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Holofotes



Me define
Numa tinta de elogios
E me olha
Como nenhum espelho faz

Me imita
Em minhas vergonhas
E me compra
Pelo meu sorriso triste

Me valoriza
Pelo que eu não disse
E me distingue
Mesmo sem critério

Só não me ignora
Que, sem atenção, eu não sou
Nem me esquece
Ou eu mesmo não me lembro