Ele voltou ao aplicativo perto da meia noite;
não que estivesse sem sono, mas o reflexo de pegar o smartphone geralmente era
mais forte, automático demais até para que outras urgências se manifestassem.
Nada no Whatsapp; nada de interessante no Facebook. Então, após um velocíssimo correr
de ícones pela tela, começou a verificar os recentemente adicionados aplicativos
de paquera. Tinha feito perfil em todos os que constavam no Google Play, mesmo
aqueles em que só havia reclamações dos usuários.
Estava realmente ansioso para começar uma
conversa por ali. Pensava que sua timidez – até então, obstáculo máximo na sua
vida afetiva – não seria mais problema, afinal ele responderia por texto, tendo
mais tempo para lapidar seu humor refinado e deixar florescerem comentários perspicazes.
Não era mais como nos primeiros anos de internet, onde se paquerava pelos chats
da UOL para encontrar gente tímida, feia e/ou esquisita (o que não impediu ninguém de
beber goles amargos e repetir a dose). Mas isso era passado. A internet já
dominou todo o planeta e a solidão segue como a mais negligenciada epidemia
mundial. Mesmo pessoas não problemáticas já tentam a sorte nos aplicativos.
Foram perto de duas semanas até que o
aplicativo Tinder o informasse de que ele tinha uma “combinação”, ou seja, uma
moça, do outro lado, também havia resumido seu gostar à apreciação instântanea de fotos tendenciosas, permitindo que ele começasse a
primeira tentativa de sedução de sua vida. Ele jamais diria “oi, tudo bem?”, “o
que vc está fazendo?” ou riria com o curioso “kkkkkk”. Não, ele estava aqui
para seduzir – e seduzir principalmente a si próprio. Mostraria para si mesmo
(seu mais sério oponente) que poderia conquistar uma mulher, ou mais de uma.
Apesar de aflito pela vontade de começar,
esperou até a noite para mandar sua primeira mensagem, pois não queria passar
uma imagem de afobação. Imaginava a moça do outro lado consultando repetida e
inutilmente o celular em busca de um sinal seu, e essa fantasia o enchia de uma
sensação dúbia: gostava do poder de decisão, envergonhava-se desse prazer, e
também tinha medo de ser esnobado pela moça como castigado por sua arrogância.
Mesmo assim aguentou firme até o horário que tinha em mente (dez da noite) e
mandou a primeira mensagem.
“Isso
não deveria ser uma conversa teclada. Você deveria estar andando distraidamente
pela praia, com olhos perdidos entre o mar e a areia. Eu torceria para que você
me notasse alguns passos antes da nossa aproximação, para que as minha palavras
não soassem desprevenidas. Então eu diria que a noite pedia uma caminhada a
dois, e que nossas reflexões poderiam esperar por uma noite menos bonita. Eu
faria esse convite, e bastaria um sorriso seu para o meu não ir mais embora. O
que você responderia?”
Mas a resposta foi “kkkkk como vc tecla
bem.....”, e isso o colocou numa encruzilhada. Ele gostou mesmo das fotos que a
moça havia colocado em sua apresentação pessoal. Por mais que esse texto já
estivesse pronto antecipadamente, ele tinha intenção de encontrar aquela
mulher. Mas a resposta dela, com pouco mais de quatro palavras improvisadas e
desatentas, o desanimaram. Tentou seguir e viu que a moça bonita não
corresponderia a parte de seus anseios – os literários.
Mas ela seria animada e disposta. Conversaram
bastante, e ele viu frustrada cada tentativa sua de encontrar uma afinidade em
comum. Ainda queria sexo, mas sabia o estado de espírito em que o sexo casual o
deixava. Toda a falta de conexão desabaria sobre ele como uma pilha de tijolos,
enquanto a mocinha mal informada sobre essa dissimulada decepção tentaria em
vão se aconchegar nos ombros mais arredios que uma cama de casal já viu. No dia
seguinte, nenhum dos dois seguiu conversa, e seu rápido encontro acabou como
começou. Quase insensivelmente.
A segunda combinação não tardou a acontecer. E
novamente o texto da praia como paisagem foi integralmente repetido. Um diálogo
se iniciou.
-
Que jeito bonito de começar uma conversa! Mas confesse: já estava pronto, não
estava?
-
Não, eu escrevi de improviso. Suas fotos foram minha inspiração.
-
Sei... então me diga mais alguma coisa tão bonita quanto o texto. Aí eu
acredito.
Ele foi até a cozinha beber água enquanto
pensava. Havia demorado um bocado para chegar naquele texto introdutório; não
seria fácil repetir rápido algo com a mesma qualidade... Mas não foi preciso.
Quando voltou, a moça não estava mais lá. Deixou uma mensagem dizendo que
estava com sono, e que eles poderiam conversar depois. Ao menos agora ele tinha
tempo. Pensou um bocado e deixou uma continuação antes de também se deitar.
“Você
está certa, era um texto pronto; desculpe-me pela mentira, que pretendeu nada
além de lhe impressionar. Mas do meu lado também tem uma verdade: o texto
preexistia, mas eu esperei que ele pudesse ser verdade para usá-lo. Como um
poema escrito na solidão, mas que depois ganha um rosto. Nele eu não digo nada
que realmente não gostasse que acontecesse. É um cenário mais romântico, com
pessoas de verdade. Gosto mais dele do que desta tela de LED. Sigo nos imaginando
nele. Aceite este convite.”
No dia seguinte, ele acordou tarde, e ela já
havia respondido. Dizia que, mesmo sendo um texto pronto, ele acabou por fazer
o que ela havia pedido: uma segunda mensagem atenciosa e gentil. Ela queria
confirmar que aquele não era um texto copiado; não estava interessa na sua
velocidade de escrita. Ele se sentiu apreciado e as conversas passaram a ocupar
todo o tempo que podiam. Ele nunca mais perdeu aquele certo tom lírico ao falar
com ela, que seguia a musa perfeita para suas incursões. Estavam se divertindo muito
nessa relação cujo comprometimento era muito semelhante a um namoro, mesmo que
o contato físico sequer fosse cogitado.
Perto do dia dos namorados, ele assistiu a uma
das comédias românticas que já havia visto antes, mas que sempre o deixava
melancólico por reconhecer-se sem ninguém com quem viver aquele tipo de
aventura, como as do casal do filme. Agora, pela primeira vez, era revigorado
pela sensação de compartilhar o sentimento que o filme açucarado passava. Olhou
para dentro e reconheceu: “estou me apaixonando!”.
Suas mensagens ganharam, progressivamente, mais
intensidade e vida, mas a reciprocidade não deve jamais ser presumida (embora
todos o façamos). Ele se declarou timidamente por meio de metáforas e
analogias, mas a moça entendeu e perguntou sobre seus sentimentos de forma
inequívoca, então ele foi claro. Ela ficou em silêncio pelo resto do dia. Ele
não dormiu bem.
Quando acordou, mais tarde do que ela, como era
costume, havia uma mensagem.
“Eu
achei que falássemos a mesma língua aqui. Era uma brincadeira gostosa, mas uma
brincadeira ainda assim. Após mais de um mês em que nenhum de nós propôs um
encontro real, eu supus que você, como eu, só queria um pouco de distração
virtual. Eu sou casada; claro que não é um ótimo casamento, mas estou longe de
querer encerrá-lo. Desculpe-me por não ter sido clara. Acho que é melhor não
conversarmos mais.”
Ele leu, releu e por apagou todas as mensagens
e rastros da moça em seu celular. Trabalhou de forma avoada por todo o dia e
voltou para casa se sentindo ainda meio catatônico. Ao final do mesmo dia, já
não estava tão abalado. Havia uma boa dose de verdade no que a moça dissera em
sua despedida. Eles não se conheciam; cada lacuna sobre ela havia sido preenchida
com expectativas otimistas, que poderiam (ou não) estar distantes da realidade.
Ele amava um conjunto de pouca realidade e muita fantasia criado por ele mesmo.
E, se muito daquilo era ele mesmo, não havia do que ter saudade. Essa engenhosa
conclusão o acalentou e a noite não foi difícil.
Ele está trabalhando num texto introdutório
novo.