Meu amor por ti te precede, e não sei de que, então, se alimentava. Por
disparate que soe, meus pensamentos se ocuparam de ti desde sempre, e cada porção
tua que eu desconhecia era por mim cumprida com as mais ingênuas ficções,
completando uma personagem cuja doçura quase sujeitava meu amar.
Essa fantasia – que eras tu, infinitamente – me ocuparia e preencheria
durante o quanto fosse, até que tua figura a fizesse obsoleta, e assim dela eu
pudesse me despedir com uma reverência e agradecimento sinceros.
Mas agora que tua presença me enche os dias, um dito precisa ser
colocado para que tu saibas. Sim, que não basta sentir; há que se repetir à
exaustão. Posto que se faça verdadeiro no silêncio, por razão que ninguém atina
obriga gritos e mais gritos de doce redundância. Então, por aqui se dirá e dirá
sobre ti; muito e sempre.
Nosso poeta de tristeza velada já alertava sobre não se poder esperar
eternidade de uma chama, e em atenção a ele não repito o que sei profundamente.
Em vez disso, digo que todo homem, por essencial ou caro que
seja seu legado, por certo tem sua importância dissolvida pelo passar dos anos até que, apagado,
quando muito dele sobre uma foto perdida em um álbum sem nome. Somos todos descartáveis aos olhos duros do
tempo. E, se é assim, quero dividir cada dia da minha irrelevância contigo, que
assim não me doerá tanta promessa de esquecimento. Ao contrário; quanto mais omitido pelo mundo que não me dará falta sequer, mais grato da minha fantasia de antes se ter feito em ti.
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