Amor, diga ao Tempo que me perdoe
Diga-lhe, Amor, que parei de maldizê-lo para quem me ouvisse e agora sou todo elogios
Diga a ele que a vagareza de seus ponteiros, se já me trouxe destemperos, também trouxe alguma lucidez, e que já sei rir mesmo quando me dói
Diga ao Tempo, Amor, que alguma lição sempre tem ficado, e que já vejo a perfeição como uma busca descontente, tal qual ele alertara
Diga-lhe dos dias difíceis que estorvavam a mim e a ele, mas que já se vão ao longe… e vendaval passado é brisa
Diga também, amor, para não me guardar rancor por tanta queixa, pois o que me irritava então - seu arrastado transcorrer -, é o que mais lhe rogo agora; é de onde brota toda a simpatia que lhe tenho
Amor, não se esqueça de dizer ao Tempo nada do que eu agora lhe confio, se justamente sua chegada, amor tão bem-vindo, foi o ponto de mudança
Diga ao Tempo que você veio para que ele agora siga como bem gosta, que é movendo-se preguiçoso, sem afoiteza ou atropelos
Diga a ele que ouvi por aí que o Tempo voa quando se ama, mas confio que ele não há de me fazer tamanha maldade
Diga a ele também que entendo a demora para a chegada da moça com olhos de âmbar em minha vida, pois confio que o tempo estava também a prepará-la para tolerar minhas mazelas
Diga-lhe, enfim, que se dependesse de mim, por egoísta que soe, eu faria o Tempo imóvel - nem devagar avançaria -, desde que o pudesse fazer durante um beijo da moça com olhos de âmbar, pois suspeito que ela seja sonho, e eu não estou pronto para acordar.
Para Sheila Ferreira
(Exercício sobre "Mensagem a Rubem Braga", de Vinicius de Moraes)