sexta-feira, 6 de março de 2015

Medo em Aquarela

Já de olhos fechados eu terminava minhas orações (uma ave maria e outra para o anjo da guarda) e esperava o sono quietinho. Fizesse calor ou frio, fossem grossos cobertores ou um fino lençol, eu me cobriria até o pescoço com o que houvesse, certificando-me de não deixar fresta sequer, fechando as cobertas num apertado colarinho. Só assim ficaria a salvo da soturna e furtiva criatura que, por razão que nunca atinei, tinha escolhido as redondezas da minha cama como residência fixa, permanecendo assim invisível aos meus olhos mas nunca à minha intuição, que lhe desenhava um fino braço culminando numa mão esquelética de dedos finos e lânguidos, com unhas afiadas e ameaçadoras. Era arrepiante imaginá-la à espreita; dava tanto medo que eu só conseguia apertar os olhos e ficar ali imóvel. Dependendo do dia, repetia minhas rezas com redobrado fervor para desencorajar o bote repentino.
Não me lembro agora o título da crônica, mas, numa dessas coletâneas do Fernando Veríssimo, ele chamou a infância de “caldeirão de prazeres”, comentando sobre as brincadeiras e leveza inerentes à idade, comparando-a com os percalços da vida adulta e livrando-a de todo traço negativo. Está certo se você pensar no prazer que conseguia extrair de um simples pirulito melado cheio de corante, na indiferença com que notava seu sorvete derretendo e escorrendo por mãos e roupas numa lambança sem nenhum aborrecimento, na imaginação que assimilava sem reservas a existência de figuras improváveis como o Papai Noel ou o Coelho da Páscoa. Mas penso também nas reiteradas cáries, nas frequentes pelejas com os irmãos, e na imaginação – esta que transita sem dificuldades entre amiga e inimiga –, e chego à conclusão que se não tomamos cuidado, a vida lembrada é sempre mais brilhante do que a vida vivida.
Os medos da infância, é verdade, são atenuados pelo fato de terem prazo de validade (espera-se, o final da infância), de forma que vão embora pacificamente sem termos que confrontá-los e, com alguma sorte, vencê-los em longos processos de autoconhecimento, como pedirão os medos adultos. No caso do meu monstro, a ameaça de seus ataques se dissipava com a chegada da manhã, e bastava minhas cobertas ficarem bem presas ao pescoço para que minha segurança fosse suficientemente garantida até a chegada da cavalaria na forma de raios de sol. Estranho temer um monstro incapaz de puxar um simples lençol ou de não concluir que pode começar seu ataque pela cabeça descoberta da vítima, mas assim é a natureza insondável dos monstros imaginados. Apesar de nada disso ter me passado pela cabeça na época, quando seria infinitamente mais útil, foi numa conversa com meu pai que meus temores foram desfeitos. Estávamos passeando de carro, não me lembro para onde íamos.
-         Pai?...
-         Quê?
-         Tô demorando muito pra dormir... e é porque acho que tem um monstro embaixo da minha cama. Eu fico pensando que ele vai me puxar com o braço dele lá pra baixo, ou então que vai me cortar com as unhonas dele para levar só meus pedacinhos – disse num desabafo tímido e envergonhado, imagino que em razão de parte minha já reconhecer a improbabilidade de confirmação da existência do monstro.
-         Mas como é isso, filho? – respondeu-me com interesse limitado, pois dirigia.
-         É isso, ué! Na hora de dormir eu fico pensando nisso e dá medo. Aí eu demoro pra dormir.
-         Filho, não tem monstro nenhum morando debaixo da sua cama!...
-         Eu acho que tem.
-         Mas como é que esse monstro se ajeitou ali, já que a sua cama é um móvel maciço, sem espaço livre embaixo, e além disso fica no andar de cima da nossa casa, um sobrado. Então, filho, embaixo da sua cama está é a nossa sala, e monstro nenhum iria caber nos vãos dos tijolos da laje.
-         É mesmo, né? – disse espantado com a singeleza da conclusão. Não caberia seque suas unhonas.

Sem transições envolvendo maturidade ou outra virtude, acabou-se o medo naquele instante. Seria muito mais simples se os monstros que seguiram esse primeiro tivessem feito a fineza de sumir com a mesma facilidade, ou se meu pai seguisse tendo outras sacadas daquele quilate. Mas, ora, a palavra “se” já é um dissimulado e perigoso monstro; o “como seria”, o “e se...”. Àquele de unhas compridas que só ameaçou sem nunca machucar, seguiram outros como a rejeição e a ansiedade; monstros mais abstratos conquanto muitíssimo mais reais. Enquanto o da cama e da infância causava medo, os de agora são o medo em si, o que bagunça qualquer estratégia de sobrepuja-los. Ah, o monstro da minha cama... gostaria que, por um momento, ele fosse real para que eu pudesse agradecê-lo. Ele foi, durante um tempo breve, o maior dos meus problemas, e basta isso para dar saudade.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Da Varanda, À Chuva - ou Camanducaia



Não importa a ninguém, mas sempre cai uma primeira gota, antes de suas irmãs de tempestade a fazerem indivisível. E também o primeiro torrão de terra a recebe-la; torrão que não se apraz ou se amedronta; apenas retorna ao barro de manhã e da noite. Ao seu lado, infinitos irmãos e ele se unem numa massa viva que pode enganar que a assiste quanto a essa união não ser inescapável, mas nascida da torrente.
Essa terra segue moldada por si mesma em montanhas infindáveis, e as nuvens que a cobrem e agora choram são mais que visitantes ou parceiras; são outro aspecto seu. Aqui não há qualquer previsão ou anseio; nenhuma dor ou gozo. Nada quer ser; nada pretende; tudo é – coisa tão certa de si; tão indiferente às possibilidades que talvez a estimulassem ou sufocassem.
A terra e a água são água e terra; as nuvens, seus prólogos e epílogos.
Intranquilo de mim, que sou tudo, menos o homem que sou, preso em pretender por todo o tempo. Ao menos até que, feito o torrão, a chuva também me reivindique e, assim, a terra em que eu me una me redima dos temores que eu nunca precisei ter.