Já de olhos fechados eu terminava minhas orações (uma
ave maria e outra para o anjo da guarda) e esperava o sono
quietinho. Fizesse calor ou frio, fossem grossos cobertores ou um fino lençol,
eu me cobriria até o pescoço com o que houvesse, certificando-me de não deixar
fresta sequer, fechando as cobertas num apertado colarinho. Só assim ficaria a
salvo da soturna e furtiva criatura que, por razão que nunca atinei, tinha
escolhido as redondezas da minha cama como residência fixa, permanecendo assim
invisível aos meus olhos mas nunca à minha intuição, que lhe desenhava um fino
braço culminando numa mão esquelética de dedos finos e lânguidos, com unhas
afiadas e ameaçadoras. Era arrepiante imaginá-la à espreita; dava tanto medo
que eu só conseguia apertar os olhos e ficar ali imóvel. Dependendo do dia,
repetia minhas rezas com redobrado fervor para desencorajar o bote repentino.
Não me lembro agora o título da crônica, mas, numa
dessas coletâneas do Fernando Veríssimo, ele chamou a infância de “caldeirão de
prazeres”, comentando sobre as brincadeiras e leveza inerentes à idade,
comparando-a com os percalços da vida adulta e livrando-a de todo traço
negativo. Está certo se você pensar no prazer que conseguia extrair de um
simples pirulito melado cheio de
corante, na indiferença com que notava seu sorvete derretendo e escorrendo
por mãos e roupas numa lambança sem nenhum aborrecimento, na
imaginação que assimilava sem reservas a existência de figuras improváveis como
o Papai Noel ou o Coelho da Páscoa. Mas penso também nas reiteradas cáries, nas
frequentes pelejas com os irmãos, e na imaginação – esta que transita sem
dificuldades entre amiga e inimiga –, e chego à conclusão que se não tomamos
cuidado, a vida lembrada é sempre mais brilhante do que a vida vivida.
Os medos da infância, é verdade, são atenuados pelo
fato de terem prazo de validade (espera-se, o final da infância), de forma que
vão embora pacificamente sem termos que confrontá-los e, com alguma sorte,
vencê-los em longos processos de autoconhecimento, como pedirão os medos
adultos. No caso do meu monstro, a ameaça de seus ataques se dissipava com a
chegada da manhã, e bastava minhas cobertas ficarem bem presas ao pescoço para
que minha segurança fosse suficientemente garantida até a chegada da cavalaria
na forma de raios de sol. Estranho temer um monstro incapaz de puxar um simples
lençol ou de não concluir que pode começar seu ataque pela cabeça descoberta da
vítima, mas assim é a natureza insondável dos monstros imaginados. Apesar de
nada disso ter me passado pela cabeça na época, quando seria infinitamente mais
útil, foi numa conversa com meu pai que meus temores foram desfeitos. Estávamos
passeando de carro, não me lembro para onde íamos.
-
Pai?...
-
Quê?
-
Tô demorando muito pra dormir... e é porque acho
que tem um monstro embaixo da minha cama. Eu fico pensando que ele vai me puxar
com o braço dele lá pra baixo, ou então que vai me cortar com as unhonas dele
para levar só meus pedacinhos – disse num desabafo tímido e envergonhado,
imagino que em razão de parte minha já reconhecer a improbabilidade de
confirmação da existência do monstro.
-
Mas como é isso, filho? – respondeu-me com
interesse limitado, pois dirigia.
-
É isso, ué! Na hora de dormir eu fico pensando
nisso e dá medo. Aí eu demoro pra dormir.
-
Filho, não tem monstro nenhum morando debaixo da
sua cama!...
-
Eu acho que tem.
-
Mas como é que esse monstro se ajeitou ali, já
que a sua cama é um móvel maciço, sem espaço livre embaixo, e além disso fica
no andar de cima da nossa casa, um sobrado. Então, filho, embaixo da sua cama
está é a nossa sala, e monstro nenhum iria caber nos vãos dos tijolos da laje.
-
É mesmo, né? – disse espantado com a singeleza
da conclusão. Não caberia seque suas unhonas.
Sem transições envolvendo maturidade ou outra virtude,
acabou-se o medo naquele instante. Seria muito mais simples se os monstros que seguiram esse
primeiro tivessem feito a fineza de sumir com a mesma facilidade, ou se meu pai seguisse tendo outras
sacadas daquele quilate. Mas, ora, a palavra “se” já é um dissimulado e
perigoso monstro; o “como seria”, o “e se...”. Àquele de unhas
compridas que só ameaçou sem nunca machucar, seguiram outros como a rejeição e a ansiedade; monstros mais abstratos conquanto muitíssimo mais
reais. Enquanto o da cama e da infância causava medo, os de agora são o medo em
si, o que bagunça qualquer estratégia de sobrepuja-los. Ah, o monstro da minha
cama... gostaria que, por um momento, ele fosse real para que eu pudesse
agradecê-lo. Ele foi, durante um tempo breve, o maior dos meus problemas, e
basta isso para dar saudade.