quarta-feira, 13 de junho de 2018

Mulher dos Meus Dias

A mulher dos meus dias se enerva entre os carros
E vê no espelho tão amigo um juiz de cada traço

A mulher dos meus dias teme um amor incerto
Ela desperta tão bonita enquanto eu só desperto

A mulher dos meus dias, disse o céu, é escorpião
Mas ela é flor, girassol que não cansa do verão

“A mulher dos meus sonhos”, suspirava o amigo
“A mulher dos meus sonhos”, insistia comigo
Mas mulher de sonho é só chama que engana
Não acorda meu dia com olhos de âmbar


Para Sheila Ferreira, por 2 anos incríveis

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Olhos Surdos

Ela havia pedido que ele lhe escrevesse algo; “qualquer coisa”, disse ela, enquanto entrava no banheiro da suíte para tomar banho. Ele havia baixado o livro que lia distraído para ouvi-la e o pedido lhe soou estranho. Anos atrás, ele escrevia para ela com frequência (sempre uns poeminhas pretensamente românticos), mas o tempo e o ânimo já iam longe e a palavra escrita, entre eles, resumia-se a pequenos lembretes de Whatsapp.

Quando ela acordou, ele já havia saído para o trabalho. Ao lado de um copo de cappuccino gelado – um hábito dela adiantado por ele – um pedaço de papel dobrado onde ela leu:

Me desculpa
Mas não me diz culpa
Que eu sinto muito – e não pouco
Quando você fala, eu ouço

O papel foi amassado e jogado num canto do quarto em que não seria procurado, onde lhe fez companhia um brinco esquecido e já empoeirado, jogado longe sem cerimônia numa época em que eles ainda se procuravam afoitos.

Ela queria ser reconquistada e não um convite à reflexão; ele queria ser ouvido, antes do que não haveria flerte. Por tão distantes, seus ânimos não se tocaram. Mais tarde, ele estranhou ela não ter comentado nada sobre o texto, mas calou; ela esperava que ele cobrasse algum retorno quanto ao poema, mas também calou. E esses silêncios alimentaram muitos outros.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Segredo Acre

O rádio estava ligado com volume tão baixo que deixava um sussurro pelo quarto, do tipo que ajuda a dormir mas incomoda pela manhã. Pijama pelo chão no caminho do banheiro, roupa escolhida na noite anterior, toddynho que cotidianamente vazava na hora de furar, uma frutinha e rua. Seu filho pequeno já estava na escolinha, o que era sempre fácil de presumir pelo silêncio (angelical ou sepulcral conforme o dia) que ocupava o apartamento de forma quase tátil. Escolhida em razão do preço e proximidade, aquela escola vendia a ideia de diversidade, promovendo a convivência com crianças portadoras de deficiência - seu filho tinha especial apego por um coleguinha com síndrome de Down cuja mãe era vizinha do prédio e revezava com ele a tarefa de leva-e-traz das crianças. “Ainda como essa mamãe”, ele divagava com o silêncio da manhã.

Deixava seu prédio com o bom humor habitual de quem vê no começo de cada dia uma espécie de pequeno réveillon, discreto renascimento, oportunidade de fazer tudo com mais paixão. Como todo mundo, claro que ficava só na promessa, mas era essa a sensação que enchia seus pulmões e o levaria até o metrô, onde uma revista comprada sempre na mesma banca por causa das formas da jornaleira teria sua atenção (“essas pernas parecem as curvas de uma Corvette”, ele dizia consigo). Enfim o frescor de seu início de dia seria temperado com um pouco de ironia na estação Consolação, onde o aglomerado de engravatados imediatamente o levaria a duas alegorias: homenzinhos de terno se afunilando para acessar a escada rolante como grãos coloridos de uma ampulheta que se esvazia e reafirma a inevitabilidade do tempo; e também a produção industrial de aspirantes a executivo sendo cuspidos pela saída do metrô como se existisse uma fábrica de gente bem adaptada à pujante vida corporativa.

Seu trabalho de contador o agradava (o que é curioso) e havia suficiente harmonia no escritório para que seu domingo não fosse a dolorosa véspera que é para muitos. Entre o doce equilíbrio matemático de balancetes sem fim, boas opções de almoço e colegas de trabalho divertidos, tudo o contentava. Às vezes seu chefe era falastrão, gostava de repetir a história do homem negro e pobre que se fez sozinho, mas nada que roubasse sua tranquilidade.

Depois de um dia de trabalho, sua rotina o levava até uma academia de ginástica “para relaxar a cuca”, como ele dizia, mas ia mesmo por vaidade, o que ninguém reconhece, mesmo não sendo problema algum. Sem dúvida era o horário mais lotado, mas ele não se incomodava em revezar a utilização de aparelhos com outros atletas de final de tarde. Naquele dia, um corpulento rapaz parecia ter o mesmo treino que ele pois seguiu-o obstinado por todos os aparelhos de sua rotina. Mesmo a necessidade de secar os apoios após a utilização do colega que suava em profusão não tirou o sossego do seu olhar.

Então passava na escola e caminhava com seu filho pequeno de volta ao igualmente pequeno apartamento. A memória recente de seu filho em fraldas e balbuciando sílabas perdidas e cheias de saliva o levava a uma sensação de genuína felicidade quando o comparava com aquele pequeno homenzinho que se formava dia a dia, cada vez mais explorador, crítico e falante. Era bom ver o sol descer por entre os prédios na companhia daquele guri, que talvez aprendesse a dançar ao som das músicas que ele ouviu sentado.

Bom pai, trabalhador medíocre, cumpridor anônimo de obrigações invisíveis. Tudo isso e também um hipócrita. Mas não como outros hipócritas, que têm medo de julgamentos outros e não bancam as decisões que tomam. Ele era um hipócrita dos melhores, pois pretendia-se o último.

             De tudo que ofereceria a seu filho, sua hipocrisia talvez fosse o presente mais amoroso. O menino jamais saberia que seu pai se incomodava com a mera presença do vizinho com Down, sequer desconfiaria do inconformismo paterno com um negro ocupando uma posição acima da sua no escritório de contabilidade, passaria longe de sua repulsa por gente obesa na academia.

              Tempos atrás, ele leu uma reportagem sobre a trágica vida dos pedófilos que se reconheciam doentes, nunca davam vazão ao seu desejos e assim levavam uma vida de eterna contensão. Ele leu, entendeu numa profundidade que quase ninguém ousa, e mudou. No instante seguinte, sem foto com legenda no Instagram, ele mudou. Seria alguém que reconhece seus vícios mas vai amordaçá-los, ainda que essa lucidez não baste para dissipá-los na própria alma. Sem melhor alternativa, ele ao menos silenciaria, silêncio hipócrita que pretende salvar os futuros silêncios de seu filho, para que eles possam ser só quietude.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Silêncios bons

De onde se ouviam dissabores, agora nem seus ecos. Melodias dissonantes que, se aspiravam ser belas, antes pretendiam-se descanso de si mesmas, alívio indômito de quem se sabe triste mas repisa cada sorriso breve procurando nele uma verdade qualquer.

A tempestade feita em verso queria ser sol de calmaria, honesta porque incerta, perdida em seus significados. E sua vontade de beleza (que seduz ainda mais quando não há) bastava-me: o brilho com pesar, reerguido, que não esconde cicatrizes.

Assim surgiu-me a moça com olhos de âmbar: nesse mar incerto entre embalar-me à brisa ou naufragar-me indiferente. Perdi-me neles e dessarte já não há porto ou águas; só o silêncio de quem tudo via com dureza e furtada essa busca no que aflige (ou sobre o que apiedar-se), calou o que me sussurrava cada letra, fazendo repousar a pena. Como cantar um amor que não dói?...

Sarou o que doía, doeu o que não sentia, e amou o que há muito queria amar, tudo a um só tempo cujos instantes me são infinitos, destinados que estão a serem fotografias das mais doces. Até receio tornar-me repetidor de um só cante e assim aborrecer a ventura de quem se disponha a saber destas linhas, mas já não sei de um caminhar longe do dela. Assim é que minha quietude confessa não haver o que redimir, nenhuma reflexão sobre ao que a dor talvez trouxesse luz. Basta de amor em teoria.

Essa história é feita de dias aos milhares, como moinho que gira em prece ao gosto do vento. Beijos de corpo inteiro, olhos cúmplices que asseguram não haver lugar ou tempo além de si, mãos que agarram para não mais livrar. Sobretudo, silêncios bons.


Moça com olhos de âmbar, não tenho interesse em outra vida.


Para Sheila Ferreira

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Por Mim E Só Assim

S’eu me impuser como dono ou afim
Num traço incerto da alma ao nanquim
– Fosse abandono o que hoje é festim  –
Ainda espero que gostes de mim

Se a lua à noite não brilhar de marfim
À traição das estrelas em certo motim
E o breu de assalto nos cobrir assim
Ainda espero que gostes de mim

No medo de um amor tão confim
Ou da falha do outro se cumprir em mim
 Só pela rima, rubro em carmesim 
Ainda espero que gostes de mim

Do afeto contido não nascer jardim
E só na lembrança se acuar o jasmim
Onde o desabafo cansado soar folhetim
– Ainda assim –
Espero que gostes de mim

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Primeiro ensaio

De um aparato tão pequeno
Seu sorriso reluzia
(A peça em que eu enceno
Do vazio à fantasia)

"Linda", eu lhe dizia
Palavra num poema
Que mal nasce, logo finda

"Linda", eu repetia
Cama feita em tempestade
Em meu peito, calmaria

Mas as palavras tão amigas
(Tanta cor em minha volta)
Agora sambam numa nota:
Linda
Linda
Linda

Para Sheila Ferreira

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

In Natura

Olhe, menino, para a lua que à noite em tudo põe seu brilho pálido, e a cortesia das estrelas que lhe são madrinhas

Veja o lago que agora é prata e, agradecido à lua, dança com a brisa

Ouça as folhas já cansadas do verde e que, a caminho do amarelo, farfalham num acorde junto à água e então caem saudosas da terra que lhes é começo e fim

Entenda o plácido do lago e o inquieto da cascata, cujo silêncio perene e fúria contida em nada discordam

Enquanto não dorme, menino, acorde para o cheiro da relva, o gosto da água, a textura do vento - tudo que lhe foge em distração

Mas não agora, que todo conselho tem seu tempo

Agora você siga espiando o sono da moça com olhos de âmbar. A moça que, em seu coração, é lua e estrelas, água e brisa, grama e prado. A moça que traduz, silente, o que esse quadro de varanda esconde


Para Sheila Ferreira