“Não se faz mais como
antigamente” é uma frase essencialmente saudosista; justo por isso, perigosa.
Nem importa o que se alega estar em falta ou mesmo esgotado; importa que transforma
o passado num baú de virtudes, relegando ao presente um papel asséptico e
descartável. Não é bom pensar assim porque, independentemente do aconchego que
possa trazer uma memória qualquer, o exagero do olhar sobre o que passou pode
roubar o presente, que, na verdade, é tudo que temos – e passa tão rápido, mal
nasce e o passado lhe engole ávido. Pensemos na música e na atividade de venda, tão diferentes que servirão justamente para mostrar como é disseminada
essa predileção pelo vidro retrovisor, em detrimento do grande vidro por onde
se mostram todas as estradas.
Se o assunto é música e
passado, então reclamaremos da música de hoje, ainda que só para viabilizar o
exercício (e não parece tarefa árdua). Há o hiphop,
tão mais pobre que o bebop; há o pop, arremedo do rock. Mas é justo dizer que nossas Anitta e Ivete Sangalo nos
roubam momentos sublimes que só tiveram nossos pais ou avós, com suas Clara
Nunes e Elizeth Cardoso?
E o que as vendas teriam a ver
com o inverossímil embate entre Claudia Leitte e Elis Regina? Quando eu era
moleque, esperava ansioso pelo final da aula nas sextas-feiras para, munido de
um pouco do dinheiro do meu pai, correr para o metrô Vila Mariana e saltar na
estação República, voando para a Rua 24 de Maio, onde ainda resiste a
emblemática “Galeria do Rock”. Ela é formada de uns quatro andares repletos de
lojinhas pequenas e mal cuidadas, que, até meados de 2000, vendiam CDs de todo
tipo de rock pesado, desde o bom e não tão velho heavy metal, até vertentes mais modernas como o thrash e o hardcore.
Minha corrida à Galeria não
deve ser interpretada como a busca pelo CD novo de alguma banda favorita
porque, apesar de isso também acontecer, na maioria das vezes eu ia sem rumo
certo; ia para que os cabeludos metaleiros feitos em vendedores me catequizassem
com o que aprenderam enquanto seus cabelos cresciam sem brilho e cheios de nós.
Eram horas à base de música revigorantemente barulhenta enquanto uma enxurrada
de nomes de músicos, músicas, álbuns e gravadoras me entravam na cabeça junto com Coca-Cola – aquilo era minha ideia de cultura. Eu entrava na loja e perguntava,
por exemplo, “o que é que tem aí que se pareça com Iron Maiden?”. Então o
sujeito se iluminava e voltava com pilhas de alternativas maravilhosamente
ásperas e agressivas, qualidades máximas para um adolescente que ensaiava se
enfeiar com uma baita cabeleira.
Essa era, e ainda é, a essência de um bom
vendedor. Conhece o produto que vende e, indo além, ele próprio passa a imagem
de um consumidor do que prega, levando a uma proximidade e confiança muito
maiores do que vendas na internet podem trazer, por exemplo. Termino, então, à
semelhança do que disse quanto à música, perguntando se o bom vendedor,
comprometido e apaixonado, também seria um profissional obsoleto, em desuso.
A música se torna insossa e a
venda se torna impessoal. O passado da música, assim, se cobre ainda mais de
glamour, e o vendedor-amigo se reveste de uma saudade fraternal. Temas tão
diversos sofreram mudanças tão semelhantes que me levam a pensar se nós,
ouvintes e compradores, somos os mesmos. Se, enquanto o mundo se transformava
em nossa volta, nossos anseios permaneceram os mesmos, e agora sonhamos com o
que já não há porque não acompanhamos a voracidade das mudanças todas.
Com honestidade, teria que
falar sobre a influência das mídias, da qualidade da educação, dentre outros
temas que, convenientemente, nos absolvem, mas fico com aquele que aponta para a nossa
participação: a preguiça. Se compro na internet e priorizo só o preço do
produto do qual sei pouco, ou se vou ao show do músico que me lavou os ouvidos
e o cérebro de tanto que tocou nas rádios, então é porque eu não me dei ao
trabalho de ir até alguma “Galeria do Rock” para que me desvendassem músicas
que não me alcançarão jamais pelo rádio, mas que esperam ansiosas por
acolhimento; é porque eu não busco na música mais do que um par de refrãos que
se assemelham a jingles de margarina, feitos para agradar com a sinceridade de
um sorriso de revista.
A arte e o talento são tão da
nossa natureza quanto as barbaridades que recheiam os livros de história. Mais
do que ainda vivos, são inevitáveis. Sempre haverá quem se dedique à música de
alma rasgada, ou à defesa do que vende por acreditar. Mas não estão mais na nossa sala. Levantemo-nos nós.