terça-feira, 29 de outubro de 2013

Maomé e a Montanha



“Não se faz mais como antigamente” é uma frase essencialmente saudosista; justo por isso, perigosa. Nem importa o que se alega estar em falta ou mesmo esgotado; importa que transforma o passado num baú de virtudes, relegando ao presente um papel asséptico e descartável. Não é bom pensar assim porque, independentemente do aconchego que possa trazer uma memória qualquer, o exagero do olhar sobre o que passou pode roubar o presente, que, na verdade, é tudo que temos – e passa tão rápido, mal nasce e o passado lhe engole ávido. Pensemos na música e na atividade de venda, tão diferentes que servirão justamente para mostrar como é disseminada essa predileção pelo vidro retrovisor, em detrimento do grande vidro por onde se mostram todas as estradas.
Se o assunto é música e passado, então reclamaremos da música de hoje, ainda que só para viabilizar o exercício (e não parece tarefa árdua). Há o hiphop, tão mais pobre que o bebop; há o pop, arremedo do rock. Mas é justo dizer que nossas Anitta e Ivete Sangalo nos roubam momentos sublimes que só tiveram nossos pais ou avós, com suas Clara Nunes e Elizeth Cardoso?
E o que as vendas teriam a ver com o inverossímil embate entre Claudia Leitte e Elis Regina? Quando eu era moleque, esperava ansioso pelo final da aula nas sextas-feiras para, munido de um pouco do dinheiro do meu pai, correr para o metrô Vila Mariana e saltar na estação República, voando para a Rua 24 de Maio, onde ainda resiste a emblemática “Galeria do Rock”. Ela é formada de uns quatro andares repletos de lojinhas pequenas e mal cuidadas, que, até meados de 2000, vendiam CDs de todo tipo de rock pesado, desde o bom e não tão velho heavy metal, até vertentes mais modernas como o thrash e o hardcore.
Minha corrida à Galeria não deve ser interpretada como a busca pelo CD novo de alguma banda favorita porque, apesar de isso também acontecer, na maioria das vezes eu ia sem rumo certo; ia para que os cabeludos metaleiros feitos em vendedores me catequizassem com o que aprenderam enquanto seus cabelos cresciam sem brilho e cheios de nós. Eram horas à base de música revigorantemente barulhenta enquanto uma enxurrada de nomes de músicos, músicas, álbuns e gravadoras me entravam na cabeça junto com Coca-Cola – aquilo era minha ideia de cultura. Eu entrava na loja e perguntava, por exemplo, “o que é que tem aí que se pareça com Iron Maiden?”. Então o sujeito se iluminava e voltava com pilhas de alternativas maravilhosamente ásperas e agressivas, qualidades máximas para um adolescente que ensaiava se enfeiar com uma baita cabeleira.
Essa era, e ainda é, a essência de um bom vendedor. Conhece o produto que vende e, indo além, ele próprio passa a imagem de um consumidor do que prega, levando a uma proximidade e confiança muito maiores do que vendas na internet podem trazer, por exemplo. Termino, então, à semelhança do que disse quanto à música, perguntando se o bom vendedor, comprometido e apaixonado, também seria um profissional obsoleto, em desuso.
A música se torna insossa e a venda se torna impessoal. O passado da música, assim, se cobre ainda mais de glamour, e o vendedor-amigo se reveste de uma saudade fraternal. Temas tão diversos sofreram mudanças tão semelhantes que me levam a pensar se nós, ouvintes e compradores, somos os mesmos. Se, enquanto o mundo se transformava em nossa volta, nossos anseios permaneceram os mesmos, e agora sonhamos com o que já não há porque não acompanhamos a voracidade das mudanças todas.
Com honestidade, teria que falar sobre a influência das mídias, da qualidade da educação, dentre outros temas que, convenientemente, nos absolvem, mas fico com aquele que aponta para a nossa participação: a preguiça. Se compro na internet e priorizo só o preço do produto do qual sei pouco, ou se vou ao show do músico que me lavou os ouvidos e o cérebro de tanto que tocou nas rádios, então é porque eu não me dei ao trabalho de ir até alguma “Galeria do Rock” para que me desvendassem músicas que não me alcançarão jamais pelo rádio, mas que esperam ansiosas por acolhimento; é porque eu não busco na música mais do que um par de refrãos que se assemelham a jingles de margarina, feitos para agradar com a sinceridade de um sorriso de revista.
A arte e o talento são tão da nossa natureza quanto as barbaridades que recheiam os livros de história. Mais do que ainda vivos, são inevitáveis. Sempre haverá quem se dedique à música de alma rasgada, ou à defesa do que vende por acreditar. Mas não estão mais na nossa sala. Levantemo-nos nós.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Entre a Cova e o Patuá



Não podia evitar as crendices e minha falta de grana não me dava acesso a um psicólogo que talvez colocasse alguma luz na minha ignorância. Aliás, ignorância talvez não fosse o termo certo, pois não me escapava que talvez estivesse fazendo papel de bobo com minhas superstições; tanto que procurava esconder e controlar esses demônios particulares. Passar embaixo de escada, cruzar caminho de gato preto, espalhar copos de sal grosso e ramos de arruda pela casa, não tomar leite com manga, não descer da cama com o pé esquerdo. Havia bem mais do que dez mandamentos.
Por falar em Bíblia, eu a consultava com frequência, bem como o Torá, o Corão, o Evangelho Segundo o Espiritismo, e até o Livro de São Cipriano, extraindo deles as mais improváveis e contraditórias conclusões. Meu dia era enfardado com descabida liturgia simplesmente porque sempre havia sido assim, e minha intuição me dizia que era a única coisa entre mim e a danação. Sendo o próprio torneiro dos meus grilhões, assistia-os lacerarem minha pele ao mesmo tempo que me traziam uma incongruente forma de conforto. Uma verdade era incontestável: minha vida não se tornava mais simples com tanta regra.
Tempos atrás, deixei de escolher qualquer uma das muitas razões que tinha para dispensar um convite de amigos para uma reunião na casa de um deles. Lá estariam alguns sujeitos cujo humor parasita me tinha como alvo frequente, destacando e enfatizando minhas manias para diversão da maioria. Ainda assim eu fui ao encontro com o firme propósito de não oferecer oportunidades ao comediantes.
A noite transcorria excepcionalmente bem, com poucos e contornáveis episódios, quando um infeliz fez uma piadinha de humor negro envolvendo vida e morte de um dos presentes. Meus olhos procuraram instintivamente madeira qualquer em que eu pudesse bater três vezes para assim salvar a vida daquele desavisado. Esses mesmos olhos, contudo, contiveram-se ao notar que minha inquietação havia chamado a atenção do mais voraz dos predadores, um sujeito baixinho e careca que via em mim o veículo de desabafo para suportar o fato de a natureza tê-lo feito tão mal acabado.
Seu olhar procurava em mim indícios de fraqueza e fez com que eu freasse meus instintos supersticiosos. De mãos quase imóveis, resumidas a levar-me cerveja e amendoins à boca, mantive meu silêncio, mesmo colocando a vida de um amigo em risco. Mais tarde eu fui para casa caminhando e refletindo entre duas fortes sensações: a negligência em não ter batido na madeira e o disparate vergonhoso que era crer genuinamente na relação de causa e efeito entre não bater na madeira e concretizar uma desgraça. Por falar nisso, o nome desse amigo é João – não que faça diferença.
Vivi os dias seguintes com desconforto e tentava amenizar esse desalento repassando algumas conversas com minha mãe, figura infinitamente mais segura e centrada do que eu, invejavelmente cética. Sequer tem religião, símbolo máximo da superstição disfarçada em virtude. Sempre que podia, frisava a liberdade que as superstições me roubavam, e que Deus, caso existisse, não quereria entulhar a vida de seus filhos com tanta burocracia.
Pouco tempo depois, soube que João estava muito feliz com a recém-descoberta gravidez de sua esposa, algo que ambos vinham tentando há tempos. Não só ele não perdera a vida como forjara uma nova. Senti-me revigorado. Naquela mesma semana, fui promovido em meu emprego e soube também que Artur, o autor da piadinha e criador de toda a confusão, havia se divorciado, desvencilhando-se enfim de um casamento desgastado com uma mulher que nada fazia senão brigar e reclamar. Disseram-me que ele estava bem e reconhecia que o amor daquela união era uma memória distante, faltando apenas um estopim para que as mudanças – para melhor – se iniciassem.
Pergunto-me se está correta minha mãe, aquela incrédula. Não haveria afinal cordões invisíveis fazendo-nos dançar conforme um ritmo que ninguém ainda entendeu? Talvez ela esteja certa. Mas se assim for, negar o azar fará também negar a sorte, entregando tudo a uma gratuidade de infinita indiferença. Se não há cordões, então eles não flagelam, mas também não confortam. Seria forçado a reconhecer que o equilíbrio das coisas não é tão frágil que dependa de soquinhos em madeira ou folhinhas de arruda. Não somos marionetes; somos nossos únicos donos.
O inquietação que essa independência trouxe me fez bater na madeira da cadeira onde estava por puro instinto. Mas já não houve alívio.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Salas de Espera



Havia terminado de obrigar minha filha mais velha a almoçar numa negociação assemelhada aos tratados internacionais, com a diferença de que ela abre mão de alíquotas favoráveis em nome de um chocolatinho. Então, cutucando um dos bolsos da calça, senti um volume e o puxei já com o rosto feito numa careta, pois bastou o contato com o papel para que eu me lembrasse de ter colocado aquela conta no bolso justamente para que não esquecesse de pagá-la.
Fui resignado enfrentar a fila do banco, ao menos acompanhado de uma revista para minimizar o tédio, a qual, com um pouco mais de auto-crítica, traria como tírulo “Razoável”, e não “Superinteressante”. Aquela edição era bestamente iconoclasta, tentando me convencer de que posso combater ressaca com sanduíche de bacon, quando o senhor que estava na minha frente ma chamou a atenção. “Pode passar, estou esperando uma pessoa”, ele disse, solícito. Eu agradeci, passei, paguei os malditos juros e voltei para a minha vidinha.
Não se passaram muitos dias, havia combinado com a minha mãe de almoçar em sua casa no domingo, quando ela também receberia alguns familiares e amigos, e decidi ir de metrô para que minha filha, que caminha no permanente limiar de uma greve de fome, conhecesse o “trem que anda embaixo da terra” – ideia que ela adorou desde a descrição, na noite anterior. O importante é que havia uma fila para a compra dos bilhetes e, depois que me somei a ela, quando já me aproximava do guichê, vi que lá também estava o senhor da fila do banco, que, não me reconhecendo, disse-me novamente, e com o mesmo sorriso amistoso: “pode passar, estou esperando uma pessoa”.
Coincidências existem, é claro, mas nem assim pude evitar a montagem de alguns roteiros melancólicos com aquele velhinho. Ora ele era solidão, esperando das filas o calor que conversas amenas dificilmente trazem; ora ele era devaneio, esperando por uma pessoa que criara, ou até mesmo esperando por si mesmo; ora ele era a má esperança, ansiosa por um futuro improvável enquanto lhe escapam oportunidades mais palpáveis. O velhinho havia ser tornado, enfim, uma coleção de males que eu provavelmente temo, seria justo arriscar.
Minha filha adorou o metrô e chegamos na casa da minha mãe, onde ela se sente instantaneamente feliz, pois os bifes dão lugar a salsichas; frutas, aos sorvetes. Correu pela casa até encontrar com os dois primos, tornando-se então autossuficientes os três, ao menos até que alguém volte com um galo ou joelho ralado. Depois de cumprimentar o pessoal que estava no jardim, fui até a sala dos fundos para descansar um pouco, onde os mais quietos assistiam à televisão, lugar em que meus cumprimentos foram recebidos com monossílabas desatentas. Estava passando um daqueles programas de auditório que bastaria isolado para justificar a eutanásia, mas os olhares estavam pregados na tela com toda a atenção. Ninguém sorria, comentava ou reclamava; rostos de uma placidez patológica. Levantei de lá assim que notei essa letargia, como se fosse contagiosa.
Então fui conversar com os mais animados, que, já reunidos na grande mesa armada no jardim, conversavam sobre o exagero dos gastos da vindoura Copa do Mundo, que, saliente-se, receberá de mim a mesma atenção que dispenso ao campeonato estadual de botcha – caso exista. De novo a impressão passada pelos espectadores da televisão, pois uma parte razoável dos convivas não disputava a atenção dos outros para também se indignar com os clichês sobre corrupção e má administração pública. Ficavam olhando as telinhas de seus smartphones com aquela mesma estranha mansidão, lembrando o Jack Nicholson no final de “O Estranho no Ninho” – ou a esposa do David Beckham, em qualquer situação.
O velhinho, eterno último da fila, pode ser fruto da minha imaginação. É mesmo possível que, por duas vezes, a pessoa esperada tenha chegado depois da minha saída cheia de confabulações ociosas, e que ele agora esteja muito bem ao seu lado. Pode ser também que ele tenha uma vida rasa, procurando preenchê-la com o que lhe permitem seus meios. Mas vivo ele estava, e seus tropeços, se o forem, se davam com gente. Sempre com gente.