-
Ainda
não! Senta aí e bebe mais um pouco também.
- Mas
já são uma e meia! O bloco já saiu e a gente vai ter que pegar ele no meio do
caminho!...
-
Paciência.
Não dá pra encarar sóbrio mais uma tarde como a de ontem. Senta!
Eu entendia o lado do
Otavio. Havíamos chegado há menos de dois dias em Salvador, pleno carnaval de
99, e eu tentando acabar com a cerveja do hotel vagabundo que pudemos pagar à
época. Entender eu entendia, mas aquela era a melhor das hipóteses. Concordei
com aquela viagem, mesmo gostando tanto de axé quanto de uma consulta ao
proctologista, porque as notícias da portentosa libidinagem soteropolitana
ecoavam pelo Brasil afora, e tímido como sempre fui, procurava toda a
facilitação que pudesse encontrar.
Foram meses de planejamento onde
organizamos estada, alimentação, abadás e transporte. Tudo feito minuciosamente
para que desse tudo errado do mesmo jeito. Funciona assim: debaixo de um sol
abrasador, uma turba suada e deselegante, por horas sem fim, grita e pula ao
som muito alto e mais ordinário ainda de um comboio de caminhões piorados em
trios-elétricos. (Ao lado de gente do quilate de Torquemada e Menguele,
deveriam estar Dodô e Osmar. Que desserviço prestaram!...)
Seria incoerente, contudo, afirmar agora
que não entendo o motivo de ter embarcado numa viagem daquelas. A resposta é
mulher; em 99, a resposta sempre era mulher: a causa e a solução de todos os
problemas daquele começo de vida adulta. Na minha imaginação, o que na
realidade se revelou como uma turba suarenta era para ser uma autêntica festa
romana onde ninguém seria de ninguém e eu iria comer todo mundo, mas não comi
foi ninguém. Em catorze dias de festa, beijei o suficiente para o ano todo, mas
ao contrário de trazer conforto, aquela lambeção toda só me deixou atiçado e
impaciente. As mulheres iam mesmo para dançar e não havia quem as afastasse do
bloco, fosse pelo que fosse; a indignação masculina era geral e inconsolável.
Era dança sugestiva para todo lado em que se olhava e ninguém que fizesse jus
àquela oferta toda.
Bom, lá estávamos nós três: Otávio,
ávido por pulação, gritação e beijação; eu, bebendo e torcendo para que a cerveja
não só tornasse mais palatáveis as mulheres indigestas, mas consertasse a
experiência carnavalesca como um todo; e Vinicius, ainda indeciso entre gostar
ou não da festa, mas bebendo comigo com igual entusiasmo por via das dúvidas.
Já adianto que funcionou. Devo ter percorrido o dobro do percurso Barra-Ondina,
porque o fiz inteiramente em zigue-zague, mas bem-humorado e permanentemente
acompanhado por toda sorte de mocinhas: bonitas e feias, magras ou cheinhas,
brancas ou pretinhas. Se servir como atenuante, acho que foi a experiência mais
democrática que já vivi. Importante ressaltar que não havia flerte, galanteio
ou qualquer coisa que o valha; quando muito, um sorrisinho como quem pede
licença e acabou-se. Muitas vezes, inclusive, o beijo de boas vindas era também
o beijo de adeus, pois a moça sumia. Fosse puxada por outro folião, por vontade
própria, ou por ser empurrada pelo tumulto para longe e para sempre.
O ritual diário consistia em sairmos
diariamente do nosso hotel em Amaralina, comermos o ótimo acarajé das
imediações – um oásis de prazer naqueles dias –, e tomarmos o ônibus em direção
à festa. A principal música horrorosa daquele ano era “Juliana”, aquela com o
refrão insistente que dizia “a Juliana não quer sambar / Samba, Juliana / Samba,
Juliana / Samba, Juliana, samba”. Pois a Juliana estava certíssima; deixassem a
moça em paz com seu justo protesto. Chegando ao ponto em que o pessoal dos
trios começava seu trajeto, eram mais de dez horas procissão pagã com axé nos
ouvidos.
Mas seria somente isso o carnaval de
Salvador, uma das maiores e mais famosas festas do planeta? Resumir-se-ia a um
enorme encontro com música de quinta categoria em altíssimo volume, coroado
pela propaganda amargamente enganosa de sexo fácil? Sim, seria. O povo é
simpático e a terra é linda, mas isso se pode conferir durante todo o ano; não
são méritos do carnaval. Acho que a lição que ficou foi a de não se desdobrar
tanto atrás de um rabo de saia. Pouco tempo depois, veio a moda do forró entre
os universitários e houve amigos que chegaram a fazer aulas de dança para se
entrosarem no ritmo que chegava e já se impunha peremptório. A idéia de ficar
naquele rala-coxa também foi inicialmente sedutora, mas, não. Já aprendi com a
Juliana.