quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Juliana Está Certa



-         Ainda não! Senta aí e bebe mais um pouco também.
-       Mas já são uma e meia! O bloco já saiu e a gente vai ter que pegar ele no meio do caminho!...
-         Paciência. Não dá pra encarar sóbrio mais uma tarde como a de ontem. Senta!
                        Eu entendia o lado do Otavio. Havíamos chegado há menos de dois dias em Salvador, pleno carnaval de 99, e eu tentando acabar com a cerveja do hotel vagabundo que pudemos pagar à época. Entender eu entendia, mas aquela era a melhor das hipóteses. Concordei com aquela viagem, mesmo gostando tanto de axé quanto de uma consulta ao proctologista, porque as notícias da portentosa libidinagem soteropolitana ecoavam pelo Brasil afora, e tímido como sempre fui, procurava toda a facilitação que pudesse encontrar.
Foram meses de planejamento onde organizamos estada, alimentação, abadás e transporte. Tudo feito minuciosamente para que desse tudo errado do mesmo jeito. Funciona assim: debaixo de um sol abrasador, uma turba suada e deselegante, por horas sem fim, grita e pula ao som muito alto e mais ordinário ainda de um comboio de caminhões piorados em trios-elétricos. (Ao lado de gente do quilate de Torquemada e Menguele, deveriam estar Dodô e Osmar. Que desserviço prestaram!...)
Seria incoerente, contudo, afirmar agora que não entendo o motivo de ter embarcado numa viagem daquelas. A resposta é mulher; em 99, a resposta sempre era mulher: a causa e a solução de todos os problemas daquele começo de vida adulta. Na minha imaginação, o que na realidade se revelou como uma turba suarenta era para ser uma autêntica festa romana onde ninguém seria de ninguém e eu iria comer todo mundo, mas não comi foi ninguém. Em catorze dias de festa, beijei o suficiente para o ano todo, mas ao contrário de trazer conforto, aquela lambeção toda só me deixou atiçado e impaciente. As mulheres iam mesmo para dançar e não havia quem as afastasse do bloco, fosse pelo que fosse; a indignação masculina era geral e inconsolável. Era dança sugestiva para todo lado em que se olhava e ninguém que fizesse jus àquela oferta toda.
Bom, lá estávamos nós três: Otávio, ávido por pulação, gritação e beijação; eu, bebendo e torcendo para que a cerveja não só tornasse mais palatáveis as mulheres indigestas, mas consertasse a experiência carnavalesca como um todo; e Vinicius, ainda indeciso entre gostar ou não da festa, mas bebendo comigo com igual entusiasmo por via das dúvidas. Já adianto que funcionou. Devo ter percorrido o dobro do percurso Barra-Ondina, porque o fiz inteiramente em zigue-zague, mas bem-humorado e permanentemente acompanhado por toda sorte de mocinhas: bonitas e feias, magras ou cheinhas, brancas ou pretinhas. Se servir como atenuante, acho que foi a experiência mais democrática que já vivi. Importante ressaltar que não havia flerte, galanteio ou qualquer coisa que o valha; quando muito, um sorrisinho como quem pede licença e acabou-se. Muitas vezes, inclusive, o beijo de boas vindas era também o beijo de adeus, pois a moça sumia. Fosse puxada por outro folião, por vontade própria, ou por ser empurrada pelo tumulto para longe e para sempre.
O ritual diário consistia em sairmos diariamente do nosso hotel em Amaralina, comermos o ótimo acarajé das imediações – um oásis de prazer naqueles dias –, e tomarmos o ônibus em direção à festa. A principal música horrorosa daquele ano era “Juliana”, aquela com o refrão insistente que dizia “a Juliana não quer sambar / Samba, Juliana / Samba, Juliana / Samba, Juliana, samba”. Pois a Juliana estava certíssima; deixassem a moça em paz com seu justo protesto. Chegando ao ponto em que o pessoal dos trios começava seu trajeto, eram mais de dez horas procissão pagã com axé nos ouvidos.
Mas seria somente isso o carnaval de Salvador, uma das maiores e mais famosas festas do planeta? Resumir-se-ia a um enorme encontro com música de quinta categoria em altíssimo volume, coroado pela propaganda amargamente enganosa de sexo fácil? Sim, seria. O povo é simpático e a terra é linda, mas isso se pode conferir durante todo o ano; não são méritos do carnaval. Acho que a lição que ficou foi a de não se desdobrar tanto atrás de um rabo de saia. Pouco tempo depois, veio a moda do forró entre os universitários e houve amigos que chegaram a fazer aulas de dança para se entrosarem no ritmo que chegava e já se impunha peremptório. A idéia de ficar naquele rala-coxa também foi inicialmente sedutora, mas, não. Já aprendi com a Juliana.

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