sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Ascensão e Queda do Encanador



O quintal era separado da calçada por um muro baixo pintado de branco com a tinta já descascada em muitos pontos. O pequeno gramado estava bastante judiado pelo sol inclemente de janeiro, que, naquele começo de tarde, mostrava todo seu poder. A falta de cuidados dava vez ao crescimento de inúmeras plantinhas que lutavam por sua porção de luz, e uma delas eu desfolhava num cruel passatempo onde expiava todas as injustiças do mundo. O mar se fazia ouvir como um sussurro ao fundo, cortado então por gemidos desafinados, gritos aliviados e interjeições de toda sorte, todos vindos do interior da casa da qual eu havia sido enxotado.
Poucos dias antes dessa expulsão, eu e os outros meninos da Rua Venezuela, em Peruíbe, no litoral sul de São Paulo, estávamos explorando uma das construções que se iniciavam ali perto. Junto ao surf em prancha de isopor e aos longos passeios de bicicleta onde éramos verdadeiros Hell's Angels, explorar as construções que pipocavam no bairro era uma das brincadeiras favoritas. Era a segunda metade dos anos oitenta e os terrenos baldios rapidamente davam lugar a novas casas de veraneio, proporcionando expedições por seus corredores de tijolo à mostra e montes de areia e brita.
Em regra já ficaríamos satisfeitos em pular nos montes de areia e montar algumas malocas com os tijolos e placas de madeira, mas seria diferente dessa vez. Algum pedreiro desleixado havia largado em seu local de trabalho uma revistinha com fotonovela pornográfica de quinta categoria. Folheamos tudo rapidamente. Depois, mais uma vez, mas pausado. Era absolutamente mais instigante do que o livrinho “De Onde Viemos?”, até então a única referência do tema, que ainda consultávamos somente para olhar aqueles desenhos do corpo feminino. Ali na fotonovela, uma desinibida dona de casa e um diligente encanador que atendia a domicílio, longe das figuras meigas e gorduchas do papai e da mamãe do “De Onde Viemos?”, trocavam olhares cujas intenções eu não reconheci bem à época, e depois iam bem além disso.
Por mais obstáculos que a compreensão total daquela fotonovela apresentasse, foram todas desvendadas ao seu tempo, seja com a ajuda de outros vizinhos já adolescentes, seja com a aquisição de outras revistas do gênero, cuja análise conjunta permitiu mais traduções do “pornografês” para o inocente português infantil. Foi assim até a chegada dos videocassetes, itens de luxo que aos poucos se espalhavam pelas casas de classe média. Como viria a acontecer com os DVDs e a internet, a pornografia não deixaria de se introduzir (com o perdão do trocadilho) nessa nova forma de mídia. De fotonovelas em branco e preto com modelos cansadas de guerra para filmes coloridos e recheados de pornstars era um salto colossal, e olha que ainda nem se falava em alta definição.
Mas fui barrado e agora esperava sozinho no quintal. O pai do dono do aparelho em VHS havia pedido ao seu filho de catorze anos que não permitisse que crianças vissem o filme; “só quem tiver doze anos ou mais” havia advertido, e eu tinha onze. Portanto uma mera parede me separava do que poderia ser a experiência sexual mais representativa daquela década. Volta e meia eu batia na porta e apelava para a solidariedade dos demais, mas era ignorado, resmungava um pouco e voltava resignado para a tortura botânica. Eu não contava com a ajuda dele, mas meu irmão mais velho estava lá dentro e, num episódio de rara fraternidade, enfim convenceu o menino dono do videocassete a me deixar entrar. Afinal, qual seria a gravidade do castigo de um pai que libera filme de sacanagem para um bando de pré-adolescentes?
Somavam cinco meninos da turma, todos espalhados pela sala e com almofadas no colo. Estranho aquilo. Lá fora estava um calor infernal e eu não entendi a necessidade da almofada, que repeti somente para não destoar dos demais. Alguém pega o controle remoto e inicia o filme. Difícil manter as aparências de naturalidade. Após um breve galanteio do encanador do filme, que soou grosseiro até para mim, a moça o beijava freneticamente, igualzinho à fotonovela (o que equivale a dizer que o beijo não era na boca), mas sua cabeça ia e vinha com um vigor que eu jamais supus existir na realidade estática da revista; a inércia de suas imagens eram então substituídas por um entusiasmo que beirava a imprudência. Assim foi até o final: o ritmo frenético, as posições dignas do Cirque du Soleil, tudo era mais dinâmico e complexo do que na revista. “De Onde Viemos?”, então, aposentava-se de vez; jamais voltaria a ser folheado. Como guia, não chegava perto de nos preparar para tudo aquilo.
Já se passaram quase trinta anos e lembrando agora, centenas de milhares de filmes depois, ainda não tenho opinião formada sobre esse primeiro episódio ter sido, ou não, um desserviço para a minha educação. Mas foi bom que a minha experiência como protagonista tenha ocorrido somente anos depois dos filmes; esse tempo mostrou que as moças da vida real não são tão pragmáticas quando o assunto é sexo. Não fosse assim, hoje eu poderia ser um encanador de esperanças frustradas, ainda aguardando ser chamado por uma dona de casa fogosa que não ligaria jamais.

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