Li já faz um tempo que o rock é o gênero musical mais
visual que existe. Deve estar certo. Vejamos o Elvis: intérprete fantástico; ouça-se
Heartbreak Hotel ou Burning Love para constatar o óbvio. Ainda
assim devemos nos perguntar se gostaríamos tanto da música se não estivesse
atrelada àquele tipão topetudo. Antes ou depois dele, ainda não vi um homem
rebolar sem abrir mão da dignidade.
Essa relação tão estreita entre música e estilo,
acredito, nasceu com o rock e não se conhece um representante seu que tenha
aberto mão dessa simbiose, década após década. Beatles, Led Zeppelin, Iron
Maiden, Van Halen, e por aí segue a lista interminável de cifras e brilhantina,
acordes e maquiagem, arpejos e calças apertadas. Mil vezes mais fácil querer
imitar o Elvis, com sua calça jeans e camiseta branca, do que o Ozzy Osbourne,
com sua permanente repicada e presença cativa em clínicas de reabilitação, mas
o estilo, como qualquer outro, precisa se renovar, e não se pode acertar sempre.
Lá pelos meus treze anos, o máximo em independência
era assistir os grandes shows internacionais em estádios abarrotados. Fazia
parte do pacote chegar no local às sete da manhã para engrossar a fila de
desocupados que já estava formada, passar o dia comendo sanduíche de atum que a
mamãe preparou com carinho (segredo inconfessável para qualquer roqueiro) e
tomando suco de laranja pasteurizado de caixa longa vida. Começado o show,
ninguém mais se aguentava em pé de tanto cansaço, mas valia a pena, apesar de
ninguém identificar o porquê.
Era 1993. No tobogã do estádio do Pacaembu ocorreria o
show duplo de Little Richard e Chuck Berry, lendas do rock dos anos 50,
conhecido como rockabilly, imprescindível no currículo de qualquer
roqueiro em formação, mesmo que eu só conhecesse “Tutti Frutti” e “Johnny B.
Good”. Como já foi ressaltado, quando ignoramos a música, apelamos para o
estilo, e lá fui eu todo arrumado como uma versão chicana e anã do Elvis
– divertido e lamentável ao mesmo tempo.
Depois de umas onze horas de espera auto imposta,
começaria o show. O primeiro foi o Little Richard. Para quem não sabe, é dono
de uma voz rasgada e inconfundível, além de tocar piano de um jeito que somente
gente do cacife de Jerry Lee Lewis pôde se aventurar. Breve histórico: artista
negro e homossexual que fez sucesso mundial a partir do sul dos Estados Unidos,
em meados de 1955. A caipirada preconceituosa da época já era cruel com negros
e homossexuais; imagine então se o sujeito fosse ambos!... Uma figura corajosa,
para dizer o mínimo. Apesar dessa biografia, foi recebido por aqui sob o coral
de “Bicha! Bicha! Bicha!”. (Não é legal? Pagamos ingresso, esperamos numa fila
quilométrica debaixo de sol, ficamos todos apertados como a calça do Elvis, e
tudo isso para insultar o sujeito e admiramos...)
Acabado o primeiro show, teria início um breve
intervalo para que os técnicos de som trocassem os equipamentos para a última
apresentação (do Chuck Berry). Eu estava bem na ponta do tobogã e já tinha
feito amizade com outros dois bobões que eu conheci ali mesmo. Alguém teve a ideia
de comprar cerveja, o que não seria problema algum, mesmo a idade geral sendo
de catorze anos. No íntimo, qualquer um de nós mataria por uma coca-cola
gelada, mas seríamos menos roqueiros se não matássemos a sede com uma dose de
polêmica. Reuni o dinheiro dos outros e então vi que demoraria uma vida para
que eu pedisse licença para todo mundo que me separava do moço que gritava com
um isopor sujo por cima do ombro. Tão prudente quanto esperto, decidi pular do
tobogã, pois alcançaria outro vendedor com mais facilidade lá embaixo.
Se o pessoal me ajudasse, formaríamos uma corrente
humana e eu só soltaria a mão do penúltimo elo quando estivesse a uma altura
que não me quebrasse as pernas. Por improvável que soe, assim foi feito e não
me machuquei. Tudo daria muito certo se eu não tivesse caído praticamente no
colo de um policial militar pouco solidário com as idiotices da minha
adolescência. Assim, fui vendo o moço do isopor sumir do horizonte enquanto era
levado pelo cangote para o que parecia ser uma delegacia improvisada no próprio
estádio. Sem que ninguém falasse comigo, fui arremessado pelo PM em um cela
também improvisada, onde fiquei na companhia de outros dois cabeludos que
beiravam a inconsciência de tanto que haviam bebido. Eu estava dividido entre a
preocupação de perder o show dentro daquela celinha fedida e o orgulho por
estar vivendo uma das minhas primeiras histórias que efetivamente mereceria ser
contada.
A preocupação venceu e decidi que ficaria no meio da
cela sem me escorar ou apoiar em nada. Com isso, pretendia mostrar que estava
sóbrio e também manter a distância possível da imundície que me rodeava, onde
muita coisa parecia já ter sido prematuramente expulsa do sistema digestivo de
alguém. Deu certo. Alguém que hoje eu identifico como provável escrivão, figura
muito educada e muitíssimo entediada com o plantão que lhe foi imposto,
chamou-me até sua mesa e perguntou-me o que eu havia feito. Honesto, respondi
que estava com sede, queria comprar refrigerante e fiz a bobagem que pular lá
de cima do tobogã para ganhar tempo. “O que mais?”, perguntou ele. “Nada mais”,
respondi. Fui liberado.
Com muito custo, já que o percurso da ida era inviável
para a volta, voltei ao meu posto a tempo de ver a maior parte do show do Chuck
Berry, onde – pensei – seria admirado pelos outros adolescentes em razão da
minha aventura de roqueiro fodidão. Na verdade, levei uma bronca por não ter
trazido a cerveja, devolvi o dinheiro de todo mundo e passei longe do centro
das atenções. Priorizar a cerveja também era regra de roqueiro, e das mais
importantes, aprendi.