quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Faca Sem Ponta



Li já faz um tempo que o rock é o gênero musical mais visual que existe. Deve estar certo. Vejamos o Elvis: intérprete fantástico; ouça-se Heartbreak Hotel ou Burning Love para constatar o óbvio. Ainda assim devemos nos perguntar se gostaríamos tanto da música se não estivesse atrelada àquele tipão topetudo. Antes ou depois dele, ainda não vi um homem rebolar sem abrir mão da dignidade.
Essa relação tão estreita entre música e estilo, acredito, nasceu com o rock e não se conhece um representante seu que tenha aberto mão dessa simbiose, década após década. Beatles, Led Zeppelin, Iron Maiden, Van Halen, e por aí segue a lista interminável de cifras e brilhantina, acordes e maquiagem, arpejos e calças apertadas. Mil vezes mais fácil querer imitar o Elvis, com sua calça jeans e camiseta branca, do que o Ozzy Osbourne, com sua permanente repicada e presença cativa em clínicas de reabilitação, mas o estilo, como qualquer outro, precisa se renovar, e não se pode acertar sempre.
Lá pelos meus treze anos, o máximo em independência era assistir os grandes shows internacionais em estádios abarrotados. Fazia parte do pacote chegar no local às sete da manhã para engrossar a fila de desocupados que já estava formada, passar o dia comendo sanduíche de atum que a mamãe preparou com carinho (segredo inconfessável para qualquer roqueiro) e tomando suco de laranja pasteurizado de caixa longa vida. Começado o show, ninguém mais se aguentava em pé de tanto cansaço, mas valia a pena, apesar de ninguém identificar o porquê.
Era 1993. No tobogã do estádio do Pacaembu ocorreria o show duplo de Little Richard e Chuck Berry, lendas do rock dos anos 50, conhecido como rockabilly, imprescindível no currículo de qualquer roqueiro em formação, mesmo que eu só conhecesse “Tutti Frutti” e “Johnny B. Good”. Como já foi ressaltado, quando ignoramos a música, apelamos para o estilo, e lá fui eu todo arrumado como uma versão chicana e anã do Elvis – divertido e lamentável ao mesmo tempo.
Depois de umas onze horas de espera auto imposta, começaria o show. O primeiro foi o Little Richard. Para quem não sabe, é dono de uma voz rasgada e inconfundível, além de tocar piano de um jeito que somente gente do cacife de Jerry Lee Lewis pôde se aventurar. Breve histórico: artista negro e homossexual que fez sucesso mundial a partir do sul dos Estados Unidos, em meados de 1955. A caipirada preconceituosa da época já era cruel com negros e homossexuais; imagine então se o sujeito fosse ambos!... Uma figura corajosa, para dizer o mínimo. Apesar dessa biografia, foi recebido por aqui sob o coral de “Bicha! Bicha! Bicha!”. (Não é legal? Pagamos ingresso, esperamos numa fila quilométrica debaixo de sol, ficamos todos apertados como a calça do Elvis, e tudo isso para insultar o sujeito e admiramos...)
Acabado o primeiro show, teria início um breve intervalo para que os técnicos de som trocassem os equipamentos para a última apresentação (do Chuck Berry). Eu estava bem na ponta do tobogã e já tinha feito amizade com outros dois bobões que eu conheci ali mesmo. Alguém teve a ideia de comprar cerveja, o que não seria problema algum, mesmo a idade geral sendo de catorze anos. No íntimo, qualquer um de nós mataria por uma coca-cola gelada, mas seríamos menos roqueiros se não matássemos a sede com uma dose de polêmica. Reuni o dinheiro dos outros e então vi que demoraria uma vida para que eu pedisse licença para todo mundo que me separava do moço que gritava com um isopor sujo por cima do ombro. Tão prudente quanto esperto, decidi pular do tobogã, pois alcançaria outro vendedor com mais facilidade lá embaixo.
Se o pessoal me ajudasse, formaríamos uma corrente humana e eu só soltaria a mão do penúltimo elo quando estivesse a uma altura que não me quebrasse as pernas. Por improvável que soe, assim foi feito e não me machuquei. Tudo daria muito certo se eu não tivesse caído praticamente no colo de um policial militar pouco solidário com as idiotices da minha adolescência. Assim, fui vendo o moço do isopor sumir do horizonte enquanto era levado pelo cangote para o que parecia ser uma delegacia improvisada no próprio estádio. Sem que ninguém falasse comigo, fui arremessado pelo PM em um cela também improvisada, onde fiquei na companhia de outros dois cabeludos que beiravam a inconsciência de tanto que haviam bebido. Eu estava dividido entre a preocupação de perder o show dentro daquela celinha fedida e o orgulho por estar vivendo uma das minhas primeiras histórias que efetivamente mereceria ser contada.
A preocupação venceu e decidi que ficaria no meio da cela sem me escorar ou apoiar em nada. Com isso, pretendia mostrar que estava sóbrio e também manter a distância possível da imundície que me rodeava, onde muita coisa parecia já ter sido prematuramente expulsa do sistema digestivo de alguém. Deu certo. Alguém que hoje eu identifico como provável escrivão, figura muito educada e muitíssimo entediada com o plantão que lhe foi imposto, chamou-me até sua mesa e perguntou-me o que eu havia feito. Honesto, respondi que estava com sede, queria comprar refrigerante e fiz a bobagem que pular lá de cima do tobogã para ganhar tempo. “O que mais?”, perguntou ele. “Nada mais”, respondi. Fui liberado.
Com muito custo, já que o percurso da ida era inviável para a volta, voltei ao meu posto a tempo de ver a maior parte do show do Chuck Berry, onde – pensei – seria admirado pelos outros adolescentes em razão da minha aventura de roqueiro fodidão. Na verdade, levei uma bronca por não ter trazido a cerveja, devolvi o dinheiro de todo mundo e passei longe do centro das atenções. Priorizar a cerveja também era regra de roqueiro, e das mais importantes, aprendi.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O Fardo ao Lado


É fácil pressupor que estávamos todos do mesmo barco, batizado de espanto dissimulado. Então o Aníbal era viado. Pensando bem, até que fazia sentido: se antes eu já o havia visto com mulher, eu também nunca o vi num relacionamento, ainda que curto (e sempre brinquei que homem mesmo não é quem come mulher, mas quem chora por elas, o que o excluía). É verdade que ele não tinha nenhum trejeito, nem modos afeminados, mas também não há uma cartilha obrigando os gays a soltar a franga, só para facilitar as aporrinhações alheias.
Assim que ele afirmou sem eufemismos (que seriam desejáveis) “eu sou gay”, nós cinco (ele incluído), pegamos nossas pesadas canecas de cerveja e as levamos às bocas que não puderam expressar  nada mais perspicaz, e ficamos nos olhando por cima da extremidade dos copos esperando quem iria optar por falar ao invés de transformar a cerveja em pretexto encurtado por angustiadas talagadas. O Rafael foi o primeiro a abandonar o copo vazio e lançar “quero minha vez de novo. Pode ser?”. É claro que podia, afinal todos ganharíamos mais tempo para digerir a maneira como o Aníbal estava lá na nossa frente, franzino e discreto como sempre, mas diferente como nunca.
- Eu sei que a gente combinou que cada um confessaria uma parada sexual e escolhi falar da noite em que eu gastei quinhentos paus para comer duas mulheres juntas, apoteose das fantasias masculinas, porque fiz quarenta anos sem conseguir isso de graça. Mas tem pior. Pessoal, eu broxei na minha noite de núpcias, com a Renata ainda vestindo uma boa parte do vestido de noiva, e comecei a chorar!... Do nada, é sério!... Eu não sei o porquê até hoje, mas comecei a chorar copiosamente e não parei até dormir cansado e abraçado no colo da noiva, que naquela noite perdeu o marido e ganhou uma criança de colo. É raro, graças a Deus, mas isso ainda acontece. Um sentimento esquisito me atropela e acaba com tudo.
Novo silêncio. Não devia ser nada fácil para o Rafael dizer aquilo. Com um pai e irmãos como os dele, era-lhe impossível ver a virilidade como uma parte sua tão involuntária quanto a cor dos cabelos; antes, era um baluarte a ser ostentado, uma virtude que, trêmula nos demais, seria imperturbável nele. O Aníbal dirigiu-lhe um sorriso e foi correspondido: “uma confissão difícil por outra”, pensei. É fato que eu achei um pouco desconexo comparar uma intimidade com um constrangimento, mas não era hora para ser detalhista. Todos os copos já haviam baixado, e talvez as guardas também o estivessem.
“Também exijo retificação!”, disparou bem-humorado o Olavo, olhando os demais como quem tem uma quadra de ases – seja lá o que isso signifique, porque eu não jogo pôquer.
- Teve uma vez que eu estava no carro, já bêbado, indo embora de um churrasco com a minha mulher, a Bruna, e demos carona para duas amigas dela, a Renata e a Paula. Como a Bruna e a Renata estavam engatadas numa conversa e eu devia estar chato, decidiram me mandar para o banco de trás com a Paula. O que elas não sabiam é que eu já estava pegando a Paula. No caminho, o papo das duas acabou, A Renata dormiu, e eu vi que o espelho retrovisor da minha mulher estava num ângulo que não via a gente lá atrás. Pessoal, eu fiquei mandando brasa e minha mulher nem notou!... – concluiu ele, feliz com sua mentira cafajeste.
- Cala a boca, Olavo!... – ouviu num quase uníssono de bocas impacientes por serem vizinhas de ouvidos mal tratados.
Se ele realmente não tinha entendido que a tônica da conversa havia mudado, ou se não conseguia evitar essas mentiras que não seriam salvas ainda que verdades, eu nunca vou saber. Depois de ter seus protestos aceitos para não seguirem ressoando, eu já sabia que minha vez chegaria, e não queria perdê-la em um comentário vazio. Eu sentia que o Aníbal havia nos colocado em um novo patamar de amizade, e eu me sentia na obrigação de igualá-lo. Já que eu me perdia nessa reflexão enquanto montava uma carinha com caroços de azeitona, o Manuel começou a falar sem introduções:
- Eu tenho uma amante há mais de um ano e meio. Mesmo quando está tudo bem em casa, eu nunca tive uma vida sexual legal com a Fabíola. É legal quando rola e tal, mas só uma vez por mês, na média. Falei com ela um monte de vezes, ora com jeito, ora bravo, mas a mudança, quando há, é pontual e tudo volta a ser como antes. Acho que é preguiça dela, não sei. Mas cansei que mendigar e não me sinto nem um pouco culpado.
Sobraram mãos compreensivas em seus ombros. Ainda não nasceu um homem incapaz de se solidarizar com um problema que afeta absolutamente todos os casados, embora nem todos deem a mesma vazão à energia que sobra. Fiquei surpreso pelo Aníbal, cujo semblante era idêntico ao nosso: pura cumplicidade. Sempre presumi que entre os gays (os homens, pelo menos) o sexo fosse uma questão mais simples. Sem os entraves femininos, imaginava que o tesão fosse menos burocrático. Mas o que eu sei disso, afinal? Estávamos unidos em nossa honestidade.
- Eu não sei, gente. – reconheci enfim, para fora e para dentro. – Vocês todos estão mostrando para o Aníbal que a gente está junto, e eu quero fazer o mesmo. Mas eu não tenho a clareza de vocês todos, com exceção do Olavo. Mesmo quando a gente era moleque, na maioria das vezes em que eu pegava mulher, seguia em frente unicamente porque a oportunidade surgia. Não tinha o menor tesão por boa parte daquelas meninas, nada em que me apegar, mas seguia em frente do mesmo jeito. Agora já abandonei esse piloto automático carente, mas hoje vejo o sexo como uma espécie de selo de qualidade: se o sexo está bem, a relação também deve estar. Aí, quando surge qualquer faísca de mal-estar, eu só penso em sacanagem, o que não ajuda nem a discussão, nem a trepada. Ainda estou esperando chegar o dia em que o sexo vai ser só sexo...
Também ganhei umas mãos nos ombros e uns tapinhas nas costas. O Olavo me olhou nos olhos e disse “eu sei como é... também me sinto fútil às vezes”. Não entendeu nada de novo, é claro, mas quanto à minha situação estávamos empatados. Um viado recém-saído do armário, um chorão, um adúltero resignado, uma anta e um ponto de e interrogação ambulante. Bonito grupo, aquele. Foi o Aníbal quem concluiu dizendo “nós precisamos muito uns dos outros”, enquanto alternava seu olhar para cada um de nós para se certificar de que era plenamente compreendido, e todos assentiram com a cabeça em movimento lentos, mas certos. “À amizade”, alguém deveria ter dito em sugestão de brinde enquanto ergueríamos as canecas reabastecidas de cerveja e companheirismo, mas teria sido redundante.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Häagen- Dazs



Quando assisto algum filme ou mesmo observo alguém falando sobre a solidão em tons melancólicos, torturado com dificuldades de socialização ou então ainda marcado por antigas rejeições, confesso que não sei do que está falando. A solidão é – ou era, ao menos – um oásis de tranquilidade, paz sempre bem-vinda, aceitação de si mesmo, e por aí vai. Só coisa boa. Minha tese de boteco me diz que desenhei para mim mesmo uma vida da qual não dou conta e, por isso, minha energia se esvai muito antes do final dos meus compromissos e obrigações diários, que passam a me atropelar, deixando um rastro de improviso e desleixo.
“Põe o desenho da Barbie?”, grita autoritária a sobrinha; “você não se esqueceu de comprar a massa corrida, né?”, questiona já profética a namorada; “qué papá!”, ensaia e balbucia o filho entre abundantes golfadas de saliva; “meu, estou com um baita problema... preciso falar com alguém...”, implora o amigo do peito, já pela terceira vez com o mesmo problema e sem nunca ter posto em prática um conselho meu sequer. Tudo ao mesmo tempo, tudo emergencial. Nesse contexto, é interessante apontar, inclusive, que algumas pessoas, por motivos que me fogem, apressam-se em dizer e dar exemplos sobre como suas vidas são imensuravelmente mais difíceis que a minha. “Ah! isso não é nada!...”, disparam eles, “você não sabe o que eu estou passando”. Não que eu tivesse ciência, mas se estamos competindo para ver quem está mais lascado, espero que eu perca.
Eram oito e meia da noite, eu já havia colocado meu baboso filho em sua jaulinha disfarçada de berço e a melhor das hipóteses seria ele acordar só umas dez horas mais tarde. Dirigi-me até a geladeira numa caminhada ansiosa pela antecipação do que estava por vir e se me concentrasse, até ouviria passagens de “Pompa e Circunstância”. A cerveja geladinha, eu sabia, estava com suas irmãs, mas não foi então a dona dos meus suspiros. Se me perguntassem até um tempo atrás qual seria minha fuga para relaxar dos desgastes do dia, a resposta seria a hoje negligenciada cerveja, mas isso foi antes de me trazerem às mãos o que estava escondido no congelador atrás de uma apagada vasilha com feijão. Ele atende por Häagen- Dazs, especificamente no sabor “dulce de leche”, e basta saber que ele está no freezer me esperando para que o dia todo se ilumine e todos os problemas sejam relativizados.
Não sei como um simples sorvetinho guarda em si tanta satisfação, só sei que guarda e pronto. Pelo preço dele, aliás, eu diria que é seu dever. Mas, convenhamos, no meu caso é até fácil. A maioria dos meus problemas são meros incômodos, mosquitinhos a serem eliminados com um peteleco. Feliz de mim que só se aporrinha com algazarra de criança, lembretes de namorada e tagarelice de amigo. Desconfio até que passaria pior sem tudo isso.
Pois eu já o tinha em mãos e levava comigo para me fazer companhia enquanto eu assistiria algum filme que ninguém mais quis ver quando, assim que eu me fiz confortável no sofá, ouvi passos em minha direção. Surge a namorada e a sobrinha, já rindo da minha furtividade e com colheres em riste como foices, baionetas, bazucas. Acabava ali meu cuidadoso planejamento e a prometida paz budista. Como a tranquilidade foi trocada por um lindo sorriso de criança com sorvete até no nariz, não me importei muito, dividindo o maná numa competição de gemidos de contentamento. É verdade que o fato de ter outros doces escondidos pela casa também ajudou – e sempre ajudará –, mas gosto de acreditar que aquilo fui eu amadurecendo.