Quando assisto
algum filme ou mesmo observo alguém falando sobre a solidão em tons
melancólicos, torturado com dificuldades de socialização ou então ainda marcado
por antigas rejeições, confesso que não sei do que está falando. A solidão é –
ou era, ao menos – um oásis de tranquilidade, paz sempre bem-vinda, aceitação
de si mesmo, e por aí vai. Só coisa boa. Minha tese de boteco me diz que
desenhei para mim mesmo uma vida da qual não dou conta e, por isso, minha
energia se esvai muito antes do final dos meus compromissos e obrigações
diários, que passam a me atropelar, deixando um rastro de improviso e desleixo.
“Põe o desenho da Barbie?”, grita autoritária a sobrinha;
“você não se esqueceu de comprar a massa corrida, né?”, questiona já profética
a namorada; “qué papá!”, ensaia e balbucia o filho entre abundantes golfadas de
saliva; “meu, estou com um baita problema... preciso falar com alguém...”,
implora o amigo do peito, já pela terceira vez com o mesmo problema e sem nunca
ter posto em prática um conselho meu sequer. Tudo ao mesmo tempo, tudo
emergencial. Nesse contexto, é interessante apontar, inclusive, que algumas
pessoas, por motivos que me fogem, apressam-se em dizer e dar exemplos sobre
como suas vidas são imensuravelmente mais difíceis que a minha. “Ah! isso não é
nada!...”, disparam eles, “você não sabe o que eu estou passando”. Não que eu
tivesse ciência, mas se estamos competindo para ver quem está mais lascado,
espero que eu perca.
Eram oito e meia da noite,
eu já havia colocado meu baboso filho em sua jaulinha disfarçada de berço e a
melhor das hipóteses seria ele acordar só umas dez horas mais tarde. Dirigi-me
até a geladeira numa caminhada ansiosa pela antecipação do que estava por vir e
se me concentrasse, até ouviria passagens de “Pompa e Circunstância”. A cerveja
geladinha, eu sabia, estava com suas irmãs, mas não foi então a dona dos meus
suspiros. Se me perguntassem até um tempo atrás qual seria minha fuga para
relaxar dos desgastes do dia, a resposta seria a hoje negligenciada cerveja,
mas isso foi antes de me trazerem às mãos o que estava escondido no congelador
atrás de uma apagada vasilha com feijão. Ele atende por Häagen- Dazs,
especificamente no sabor “dulce de leche”, e basta saber que ele está no freezer me esperando para que o dia todo
se ilumine e todos os problemas sejam relativizados.
Não sei como um simples
sorvetinho guarda em si tanta satisfação, só sei que guarda e pronto. Pelo
preço dele, aliás, eu diria que é seu dever. Mas, convenhamos, no meu caso é
até fácil. A maioria dos meus problemas são meros incômodos, mosquitinhos a
serem eliminados com um peteleco. Feliz de mim que só se aporrinha com
algazarra de criança, lembretes de namorada e tagarelice de amigo. Desconfio
até que passaria pior sem tudo isso.
Pois eu já o tinha em mãos e
levava comigo para me fazer companhia enquanto eu assistiria algum filme que
ninguém mais quis ver quando, assim que eu me fiz confortável no sofá, ouvi
passos em minha direção. Surge a namorada e a sobrinha, já rindo da minha
furtividade e com colheres em riste como foices, baionetas, bazucas. Acabava
ali meu cuidadoso planejamento e a prometida paz budista. Como a tranquilidade
foi trocada por um lindo sorriso de criança com sorvete até no nariz, não me
importei muito, dividindo o maná numa competição de gemidos de contentamento. É
verdade que o fato de ter outros doces escondidos pela casa também ajudou – e
sempre ajudará –, mas gosto de acreditar que aquilo fui eu amadurecendo.
Muito bom! Sempre me delicio com sua digressões e elucubrações! E o pior....rsrsrsrs....como eu conheço o "reduto" de vocês, fico vendo a cena se desenrolando em minha mente. Vi a aproximação à geladeira, a descida até o salão com a TV, a "sentada" no confortável sofá...juro que vi a Gabi e a Julia chegando, colheres em riste...suspiros...risadas! Bom demais!
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