quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Espelho Trincado



Os restaurantes japoneses não passam nem perto de nos preparar para a coisa. A apresentação quase artística de seus sashimis, cuja carne é somente permeada por finos veios brancos que mais parecem marcas de maré, me fizeram crer que o preparo de peixes, de forma geral, seria agradável. Contando com o auxílio de uma receita previamente impressa da internet, pensei de antemão que seria instrutivo e agradável cuidar do preparo do peixe comprado para o jantar desde sua limpeza – mas foi instrutivo, e só. 


Abrir o ventre de um peixe para dali extrair com as mãos nuas tripas e demais viscosidades foi algo perturbador; a evisceração é medieval. Ressalvo apenas o olhar austero do finado salmão, que trouxe alguma dignidade para o episódio. Tudo aquilo somado aos gastos desproporcionais com vinho branco formavam o mise-en-scène criado para deixar boa impressão em minha nova vizinha de formas irretocáveis, mais conhecida nas rodas masculinas do condomínio como “a inverossímil do 82”, que não precisou cozinhar nada para que todos a tivéssemos em boa conta.


Começos são excelentes. Ainda não fomos apresentados ao lado espinhoso do outro, ou, se já fomos, não damos pelotas. Agradamos e somos agradados a todo tempo, vestindo a pessoa com a mais doce das personalidades, mandando às favas a prudência e a temperança. Por excesso de tempo livre, comiseração ou outro motivo indecifrável, o importante era que a beldade aceitara o convite para jantar em meu apartamento e agora cabia a mim demonstrar toda a sofisticação e charme que nunca tive.


O peixe já temperado estava no forno e minuto a minuto aumentava sua semelhança com algo comestível. O perfume das especiarias e da carne se espalhavam pelo apartamento e me enchiam de um orgulho infantil. Sendo a música também peça-chave para qualquer ambientação romântica, separei alguns álbuns do Chet Baker para criar um clima íntimo. Cortei também alguns pedacinhos de queijos variados para acalentarem a conversa no aguardo do prato principal.


Próximo ao horário do encontro, abri uma garrafa de Chardonnay e fiquei curtindo meu queijo salgado e minha doce ansiedade, plena de prazerosas expectativas, na companhia de João Donato e seu piano inflamável. Eu estava sozinho e ainda assim já adorava a noite, viajando nas improvisações do teclado e nas cremosidades do gruyère.


A campainha tocou, devolvendo-me ao mundo que hoje estava distante do lugar aborrecido de geralmente é, e a porta cedeu passagem à “inverossímil do 82”. “Num mundo perfeito, toda mulher seria assim”, disse galante após medi-la rapidamente, com honestidade e desinibição mesclados pelo ótimo vinho, respondidos com um sorriso. Cumprimentamo-nos e ela entrou.


Após aceitar uma taça do vinho que eu estava bebendo, sorveu uns poucos golinhos que mal fizeram baixar o nível da bebida na taça e afirmou que o vinho não era ruim, mas que preferia os tintos suaves de mesa, bem docinhos. Como bom anfitrião, ofereci um licor de amêndoa e ela ficou satisfeita. Quanto a mim, um pouco contrariado. 


-         O que estamos ouvindo? - perguntou.

-         João Donato. Você gosta de MPB? - perguntei animado, identificando uma ótima linha de conversa nascendo.

-         Gosto, mas prefiro MPB mais animada, dançante.

-         Ah, como Tim Maia, Paula Lima?...

-         Não, como MC Buchecha, Chiclete com Banana...


Abandonei a linha da conversa resignado. Poderia a promessa de libidinagem suportar sozinha o peso de tão completa decepção? Surpreendentemente, a resposta era “sim”. Qualquer dúvida foi satisfatoriamente desfeita quando ela deu uma piscadela em minha direção, acompanhada de um olhar revigorantemente despudorado e da frase “é mais gostoso pra dançar”. “Em nome do prazer leviano da dança, a boa música tem sofrido um silencioso genocídio”, pensei.


A noite continuaria a ser palco de constante cabo-de-guerra entre as coisas que ela dizia e as partes do corpo que ela mostrava. A única recordação que o meu pobre salmão lhe trouxe foi das porções de porquinho que ela comia em um quiosque na Praia Grande enquanto dançava pagode. Via meus gostos como esquisitos, chegou a me chamar – ainda que carinhosamente – de nerd, e dizia que eu precisava relaxar mais. Ora, eu relaxo muito bem ouvindo “Quatro Estações” ou lendo “O Lobo da Estepe”, e não imagino que Vivaldi ou Hesse produziram tudo o que produziram para se tornarem arrogantes autores de aristocráticas rodinhas com brandy. Mais do que amar a arte, conseguiram o prodígio de produzi-la, e certamente almejaram o maior público possível para compartilhar sua paixão. Mas não defendi meus pontos, apenas dancei como acreditava estar tocando a música daquela noite, fazendo vista-grossa para tudo o que me desgostava para viabilizar desfrute maior.


Em meio a umas dessas conversas, já quando eu recolhia a louça e pensava em chamá-la para o sofá da sala onde reclamaria o prêmio por ter acompanhado conversa tão insípida, ela se fez apressada e inquieta. Disse que o jantar tinha sido ótimo, mas outro compromisso inadiável a esperava. Ficou combinado que voltaríamos a nos ver com o tom burocrático de quem somente quer se esquivar do constrangimento da despedida seca.


Aí a ficha caiu. Eu havia coisificado a moça, reduzindo-a num brinquedo perverso. Enquanto parte de mim repudiava o quanto nos separava, ela, sem que eu sequer tentasse perceber, também tinha vontades e agiria conforme suas direções. Suas expansividades, por mim vistas como flertes certos, eram somente simpatia cortês. Fiquei como o protagonista do romance Lobo da Estepe, achando-me estranho ao mundo, ridículo na posição de macho incompreendido que irá dormir após guardar o resto do peixe no freezer. Infinitamente ridículo.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Sépia



Quando terminei o poema, fiquei orgulhoso; vi poesia nele. Mas não foram necessárias muitas releituras para que esse sentimento bom começasse a ser contaminado pela impressão de que minhas expectativas não haviam sido satisfeitas. Reli de novo e de novo. Verso a verso, continuava me agradando, e isso me impedia de encontrar o incômodo, que parecia escondido e diluído no todo, e não em partes soltas. Em resumo, passei a acreditar que não havia escrito o que queria dizer. Como, às vezes, é aconselhável certo distanciamento de um problema para que a solução lhe surja, foi o que eu fiz. Deixei-o numa pasta do computador intitulada “em construção”, e lá ficou por um tempo, fermentando. Lá dentro, ele não mudaria; aqui fora, talvez eu mudasse.

Numa das visitas a essa pasta, resolvi copiá-lo num pendrive, pensando que poderia trabalhar nele na hora do almoço, no trabalho, enquanto tomaria um chá de gengibre. Abri seu arquivo e li o texto sem pressa. Fiz algumas correções e voltei ao trabalho. Ao final do expediente, após uma nova leitura, tive novamente a sensação de que eu apenas me aproximara das minhas intenções. Frustrado, culpei as mudanças que havia feito mais cedo, naquele mesmo dia, e apaguei de vez o arquivo do pendrive. Fui correr no final da tarde, e algumas ideias me surgiram, como costuma ocorrer durante o exercício. Isso me animou; talvez o poema ficasse pronto naquela noite ainda.

(Nada é mais íntimo que a poesia. Justamente porque esse estilo permite tanta arquitetura, posso expor o que eu sinto em detalhes pornográficos. Ainda assim, outro leitor pode sequer visitar meus desabafos, levado, não só por minhas linhas, mas por sua vivência também. Claro que isso vale para qualquer palavra escrita, mas com os poemas é mais forte basta munir-se de um pouco de hermetismo).

Quando a baderna da minha casa se aquietou, já tarde da noite, achei que era uma boa hora para fazer um capuccino e ligar o computador. Mas o arquivo não estava lá mais. Quando o arrastei para o pendrive, ele deve ter sido recortado, e não copiado; perdido, portanto. E não era pequeno o texto: cheio de estrofes e reviravoltas, eu não seria capaz de reproduzi-lo: uma nova criação me levaria a uma nova criatura. O poema que eu gostava – pela metade, é verdade – já não existia.

Então, meu sentimento por ele começou a se alterar. Eu não quis escrever um novo poema, e já nem conseguia lembrar dos motivos que tinha para corrigi-lo tanto. Agora, perdido e em retrospectiva, era perfeito. Eu preenchia com afeto cada parte não lembrada; era absolutamente brilhante em sua morte. O estranho é reconhecer que esse afeto atrasado é baseado numa fantasia: eu não o quis enquanto era meu. Perdido, cresceu e agora é minha melhor cria.

Hoje, eu fico triste quando lembro dele. Saber que, quando comigo, não o queria, não ameniza minha saudade, que me remete a um sentimento de ingratidão. Se é mentira a forma como me lembro dele, é verdadeira a falta que me dói.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Meu nome é Bond?



Escovo os dentes com uma daquelas escovinhas descartáveis enquanto olho o espelho, mas não para me solidarizar com a cara de sono que os espelhos geralmente me devolvem de manhã; dessa vez, ele faz as vezes de retrovisor e eu consigo limpar meus molares enquanto vejo sem acreditar a mulher que ainda dorme aconchegada naquela suíte de motel. Ela está de bruços, com parte do corpo nu coberto pelos lençóis que a abraçam como uma calma onda do mar que desistiu de voltar da areia, deixando de fora apenas parte do seu dorso e uma das coxas, que estava flexionada e plena em sua morenice. Eu poderia esperar a vida inteira por um momento como aquele, mas essa conquista carece de detalhes. Muitos.


Apesar de não estar de ressaca, lembro que, na noite anterior, havia ido assistir a um show de jazz numa casa noturna da Vila Madalena. Estava sozinho, o que não me incomoda quando vou ao cinema ou a um show, já que não são ambientes para conversa, na minha opinião. Também me recordo de ter tomado algumas Heineken. E só. Sem recordação de tê-la conhecido, fato é que estamos agora juntos num quarto de motel. Não é um quarto cafona como costumam ser; mais parece um quarto de hotel, discreto na decoração e pintado em tons claros.


Então eu não me lembro de mais nada, muito bem. Mas não é preciso muita sagacidade para concluir que não posso deixar essa lacuna estragar o que eu aparentemente conquistei, seja como seja. Ainda que não saiba o que fiz de certo para terminar minha noite de forma tão prodigiosa, eu estou aqui e agora tenho esperança de conseguir mais alguns capítulos desse livro que eu estou começando a ler pela metade. Ela ainda dorme profundamente, o que me dá algum tempo para refletir sobre a melhor forma de agir. Não saber o nome dela não é um bom começo, afinal eu não pretendo confessar minha amnésia. A bolsa dela está ao alcance e eu posso ver sua identidade, mas, se ela acordar e me vir fuçando em suas coisas, tudo está perdido.


Vou tentar; vale o risco. Afinal, qualquer movimento seu fará com que eu largue tudo antes que ela possa abrir os olhos (que devem ser lindos). Abro rapidamente a bolsa e começo a procurar sua carteira em meio à uma confusão digna de baú de sótão. Encontro um cartão de crédito solto e lá estava o nome: Allegra. Isso está ficando sensacional. Um mulherão desses com um nome desses... Fecho a bolsa e sento numa poltrona enquanto tento absorver o que está acontecendo e aprecio o sono de Allegra. Vez por outra, ela se move preguiçosamente, sem acordar, escondendo algumas partes e descobrindo outras. Não é um corpo malhado; é suave nas formas, naturalmente esplêndida. Não me lembro de sequer ter conversado com uma mulher tão bonita. (Se não acordei a moça até agora, é porque tenho receio de agir mal e colocar tudo a perder. As próximas memórias não seriam esquecidas, afinal).


Decido ligar para a recepção e pedir um café da manhã. “Começar o dia com uma gentileza”, pensei. Ela não acordou com o telefonema cochichado e eu agora estou esperando. Será que eu havia transado mesmo com ela? Tudo indica que sim, mas como ter certeza? O lixo do banheiro, é claro! Se tiver embalagem de camisinha lá, então é porque eu transei (e talvez possa repetir – mulher adora transar de manhã!). Não tem. Por um breve momento, minha saborosa ansiedade dá lugar ao medo. Ela é bonita demais pra mim; será uma garota de programa? E, se for, será que eu transei sem camisinha? Allegra ganha tons ameaçadores. E o café da manhã já está demorando.


Em poucos minutos, a campainha toca com um certo alarde, informando que o café havia chegado. Allegra acorda assustada e tem a reação automática de cobrir o corpo. Então, me olha, sorri e relaxa. Eu devolvo o sorriso e pergunto se ela dormiu bem. Então as coisas ficam mais confusas.


Ela começa a falar em italiano e, apressada, embora ainda sorridente, começa a ser vestir. Eu digo para que ela não tenha tanta pressa e aproveite o café da manhã ao menos, mas reconheço que estou falando sozinho; ela não entende uma palavra. Após se vestir, indiferente aos meus “por favore”, vem até mim e me dá um longo beijo na boca enquanto cola seu corpo no meu, o que me desarma e cala. Então vai embora. Eu fico sentado, entre atordoado e decepcionado, enquanto ouço um rugido do lado de fora e, rapidamente, confirmo pela janela que Allegra está indo embora em um Porsche Panamera prateado.


Eu desisto de comer, engasgado com o beijo, a despedida e o carro alemão, e desço até a garagem da suíte, que tem espaço para duas vagas, sendo que uma delas está ocupada pelo meu carro, que é nacional e eu comprei usado. Chegando ao guichê para pagar e também ir embora, sou informado que a moça já pagou pelas suítes – assim, no plural.


- Suítes?! – eu pergunto surpreso. – Mas eu só fiquei no nº 48!

- Sim, senhor, mas as duas outras moças decidiram dormir da suíte vizinha, de nº 46. Mas fique tranquilo; já estão todas pagas.


É domingo, e eu sei que passarei o restante do dia com a mente absolutamente vazia, em choque. Sequer sei dizer se está sendo um dia bom ou ruim. Haverá uma lição a ser aprendido com esse episódio? Vou até o parque do Ibirapuera e fico passeando a esmo. Depois de algumas voltas, decido me sentar um pouco. Não demora, uma moça se senta ao meu lado e, munido de uma confiança recém adquirida, comento que aquele é um belo dia para vir ao parque. Ela responde:


- Ai, jura que você vai vir pra cima de mim com esse papinho de gente desinteressante?...


Não fico bravo. Ela não sabe com quem está falando.

Desejo



Silhuetas vencidas
Sombras sem simetria
Feições lascivas

O suor cinge a tez com sinuosos desenhos

Semblantes disfarçados
Sorte obscena
Indecência assumida

Satisfações, às centenas, resumem-se em desejo