Escovo os dentes com uma
daquelas escovinhas descartáveis enquanto olho o espelho, mas não para me
solidarizar com a cara de sono que os espelhos geralmente me devolvem de manhã;
dessa vez, ele faz as vezes de retrovisor e eu consigo limpar meus molares
enquanto vejo sem acreditar a mulher que ainda dorme aconchegada naquela suíte
de motel. Ela está de bruços, com parte do corpo nu coberto pelos lençóis que a
abraçam como uma calma onda do mar que desistiu de voltar da areia, deixando de
fora apenas parte do seu dorso e uma das coxas, que estava flexionada e plena
em sua morenice. Eu poderia esperar a vida inteira por um momento como aquele,
mas essa conquista carece de detalhes. Muitos.
Apesar de não estar de
ressaca, lembro que, na noite anterior, havia ido assistir a um show de jazz
numa casa noturna da Vila Madalena. Estava sozinho, o que não me incomoda
quando vou ao cinema ou a um show, já que não são ambientes para conversa, na
minha opinião. Também me recordo de ter tomado algumas Heineken. E só. Sem
recordação de tê-la conhecido, fato é que estamos agora juntos num quarto de
motel. Não é um quarto cafona como costumam ser; mais parece um quarto de
hotel, discreto na decoração e pintado em tons claros.
Então eu não me lembro de mais
nada, muito bem. Mas não é preciso muita sagacidade para concluir que não posso
deixar essa lacuna estragar o que eu aparentemente conquistei, seja como seja.
Ainda que não saiba o que fiz de certo para terminar minha noite de forma tão prodigiosa,
eu estou aqui e agora tenho esperança de conseguir mais alguns capítulos desse
livro que eu estou começando a ler pela metade. Ela ainda dorme profundamente,
o que me dá algum tempo para refletir sobre a melhor forma de agir. Não saber o
nome dela não é um bom começo, afinal eu não pretendo confessar minha amnésia. A
bolsa dela está ao alcance e eu posso ver sua identidade, mas, se ela acordar e
me vir fuçando em suas coisas, tudo está perdido.
Vou tentar; vale o risco.
Afinal, qualquer movimento seu fará com que eu largue tudo antes que ela possa
abrir os olhos (que devem ser lindos). Abro rapidamente a bolsa e começo a
procurar sua carteira em meio à uma confusão digna de baú de sótão. Encontro um
cartão de crédito solto e lá estava o nome: Allegra. Isso está ficando sensacional.
Um mulherão desses com um nome desses... Fecho a bolsa e sento numa poltrona
enquanto tento absorver o que está acontecendo e aprecio o sono de Allegra. Vez
por outra, ela se move preguiçosamente, sem acordar, escondendo algumas partes
e descobrindo outras. Não é um corpo malhado; é suave nas formas, naturalmente esplêndida.
Não me lembro de sequer ter conversado com uma mulher tão bonita. (Se não acordei
a moça até agora, é porque tenho receio de agir mal e colocar tudo a perder. As
próximas memórias não seriam esquecidas, afinal).
Decido ligar para a recepção e
pedir um café da manhã. “Começar o dia com uma gentileza”, pensei. Ela não
acordou com o telefonema cochichado e eu agora estou esperando. Será que eu
havia transado mesmo com ela? Tudo indica que sim, mas como ter certeza? O lixo
do banheiro, é claro! Se tiver embalagem de camisinha lá, então é porque eu
transei (e talvez possa repetir – mulher adora transar de manhã!). Não tem. Por
um breve momento, minha saborosa ansiedade dá lugar ao medo. Ela é bonita
demais pra mim; será uma garota de programa? E, se for, será que eu transei sem
camisinha? Allegra ganha tons ameaçadores. E o café da manhã já está demorando.
Em poucos minutos, a campainha
toca com um certo alarde, informando que o café havia chegado. Allegra acorda
assustada e tem a reação automática de cobrir o corpo. Então, me olha, sorri e
relaxa. Eu devolvo o sorriso e pergunto se ela dormiu bem. Então as coisas
ficam mais confusas.
Ela começa a falar em italiano
e, apressada, embora ainda sorridente, começa a ser vestir. Eu digo para que
ela não tenha tanta pressa e aproveite o café da manhã ao menos, mas reconheço
que estou falando sozinho; ela não entende uma palavra. Após se vestir,
indiferente aos meus “por favore”, vem até mim e me dá um longo beijo na boca
enquanto cola seu corpo no meu, o que me desarma e cala. Então vai embora. Eu
fico sentado, entre atordoado e decepcionado, enquanto ouço um rugido do lado
de fora e, rapidamente, confirmo pela janela que Allegra está indo embora em um
Porsche Panamera prateado.
Eu desisto de comer, engasgado
com o beijo, a despedida e o carro alemão, e desço até a garagem da suíte, que tem
espaço para duas vagas, sendo que uma delas está ocupada pelo meu carro, que é
nacional e eu comprei usado. Chegando ao guichê para pagar e também ir embora,
sou informado que a moça já pagou pelas suítes – assim, no plural.
- Suítes?! – eu pergunto surpreso. – Mas eu só
fiquei no nº 48!
- Sim, senhor, mas as duas outras moças
decidiram dormir da suíte vizinha, de nº 46. Mas fique tranquilo; já estão
todas pagas.
É domingo, e eu sei que passarei
o restante do dia com a mente absolutamente vazia, em choque. Sequer sei dizer se
está sendo um dia bom ou ruim. Haverá uma lição a ser aprendido com esse episódio?
Vou até o parque do Ibirapuera e fico passeando a esmo. Depois de algumas
voltas, decido me sentar um pouco. Não demora, uma moça se senta ao meu lado e,
munido de uma confiança recém adquirida, comento que aquele é um belo dia para
vir ao parque. Ela responde:
- Ai, jura que você vai vir pra cima de mim com
esse papinho de gente desinteressante?...
Não fico bravo. Ela não sabe
com quem está falando.
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