quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Meu nome é Bond?



Escovo os dentes com uma daquelas escovinhas descartáveis enquanto olho o espelho, mas não para me solidarizar com a cara de sono que os espelhos geralmente me devolvem de manhã; dessa vez, ele faz as vezes de retrovisor e eu consigo limpar meus molares enquanto vejo sem acreditar a mulher que ainda dorme aconchegada naquela suíte de motel. Ela está de bruços, com parte do corpo nu coberto pelos lençóis que a abraçam como uma calma onda do mar que desistiu de voltar da areia, deixando de fora apenas parte do seu dorso e uma das coxas, que estava flexionada e plena em sua morenice. Eu poderia esperar a vida inteira por um momento como aquele, mas essa conquista carece de detalhes. Muitos.


Apesar de não estar de ressaca, lembro que, na noite anterior, havia ido assistir a um show de jazz numa casa noturna da Vila Madalena. Estava sozinho, o que não me incomoda quando vou ao cinema ou a um show, já que não são ambientes para conversa, na minha opinião. Também me recordo de ter tomado algumas Heineken. E só. Sem recordação de tê-la conhecido, fato é que estamos agora juntos num quarto de motel. Não é um quarto cafona como costumam ser; mais parece um quarto de hotel, discreto na decoração e pintado em tons claros.


Então eu não me lembro de mais nada, muito bem. Mas não é preciso muita sagacidade para concluir que não posso deixar essa lacuna estragar o que eu aparentemente conquistei, seja como seja. Ainda que não saiba o que fiz de certo para terminar minha noite de forma tão prodigiosa, eu estou aqui e agora tenho esperança de conseguir mais alguns capítulos desse livro que eu estou começando a ler pela metade. Ela ainda dorme profundamente, o que me dá algum tempo para refletir sobre a melhor forma de agir. Não saber o nome dela não é um bom começo, afinal eu não pretendo confessar minha amnésia. A bolsa dela está ao alcance e eu posso ver sua identidade, mas, se ela acordar e me vir fuçando em suas coisas, tudo está perdido.


Vou tentar; vale o risco. Afinal, qualquer movimento seu fará com que eu largue tudo antes que ela possa abrir os olhos (que devem ser lindos). Abro rapidamente a bolsa e começo a procurar sua carteira em meio à uma confusão digna de baú de sótão. Encontro um cartão de crédito solto e lá estava o nome: Allegra. Isso está ficando sensacional. Um mulherão desses com um nome desses... Fecho a bolsa e sento numa poltrona enquanto tento absorver o que está acontecendo e aprecio o sono de Allegra. Vez por outra, ela se move preguiçosamente, sem acordar, escondendo algumas partes e descobrindo outras. Não é um corpo malhado; é suave nas formas, naturalmente esplêndida. Não me lembro de sequer ter conversado com uma mulher tão bonita. (Se não acordei a moça até agora, é porque tenho receio de agir mal e colocar tudo a perder. As próximas memórias não seriam esquecidas, afinal).


Decido ligar para a recepção e pedir um café da manhã. “Começar o dia com uma gentileza”, pensei. Ela não acordou com o telefonema cochichado e eu agora estou esperando. Será que eu havia transado mesmo com ela? Tudo indica que sim, mas como ter certeza? O lixo do banheiro, é claro! Se tiver embalagem de camisinha lá, então é porque eu transei (e talvez possa repetir – mulher adora transar de manhã!). Não tem. Por um breve momento, minha saborosa ansiedade dá lugar ao medo. Ela é bonita demais pra mim; será uma garota de programa? E, se for, será que eu transei sem camisinha? Allegra ganha tons ameaçadores. E o café da manhã já está demorando.


Em poucos minutos, a campainha toca com um certo alarde, informando que o café havia chegado. Allegra acorda assustada e tem a reação automática de cobrir o corpo. Então, me olha, sorri e relaxa. Eu devolvo o sorriso e pergunto se ela dormiu bem. Então as coisas ficam mais confusas.


Ela começa a falar em italiano e, apressada, embora ainda sorridente, começa a ser vestir. Eu digo para que ela não tenha tanta pressa e aproveite o café da manhã ao menos, mas reconheço que estou falando sozinho; ela não entende uma palavra. Após se vestir, indiferente aos meus “por favore”, vem até mim e me dá um longo beijo na boca enquanto cola seu corpo no meu, o que me desarma e cala. Então vai embora. Eu fico sentado, entre atordoado e decepcionado, enquanto ouço um rugido do lado de fora e, rapidamente, confirmo pela janela que Allegra está indo embora em um Porsche Panamera prateado.


Eu desisto de comer, engasgado com o beijo, a despedida e o carro alemão, e desço até a garagem da suíte, que tem espaço para duas vagas, sendo que uma delas está ocupada pelo meu carro, que é nacional e eu comprei usado. Chegando ao guichê para pagar e também ir embora, sou informado que a moça já pagou pelas suítes – assim, no plural.


- Suítes?! – eu pergunto surpreso. – Mas eu só fiquei no nº 48!

- Sim, senhor, mas as duas outras moças decidiram dormir da suíte vizinha, de nº 46. Mas fique tranquilo; já estão todas pagas.


É domingo, e eu sei que passarei o restante do dia com a mente absolutamente vazia, em choque. Sequer sei dizer se está sendo um dia bom ou ruim. Haverá uma lição a ser aprendido com esse episódio? Vou até o parque do Ibirapuera e fico passeando a esmo. Depois de algumas voltas, decido me sentar um pouco. Não demora, uma moça se senta ao meu lado e, munido de uma confiança recém adquirida, comento que aquele é um belo dia para vir ao parque. Ela responde:


- Ai, jura que você vai vir pra cima de mim com esse papinho de gente desinteressante?...


Não fico bravo. Ela não sabe com quem está falando.

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