O corredor
era mal iluminado com umas poucas lâmpadas incandescentes à mostra, sem lustre
ou cobertura qualquer que lhes amenizasse o brilho incômodo que, por sua vez,
refletia nas poças do chão de cimento irregular alertando quem se aventurasse por
aqueles caminhos para que cuidasse de se desviar. Poucos passos bastavam para
que a clientela já começasse a ouvir a música que a acompanharia pela feia
passarela que se abria num ambiente escuro de bar com um pequeno palco. Tudo
permanentemente improvisado, termo hoje substituído por “descolado” ou
“alternativo” para que o dono do lugar não gaste tanto dinheiro, mas cobre a
contento.
A
música vinha de um afiado trio de jazz, que criava instantâneas e ótimas
variações de Night Away, da versão de
Pat Metheny e Brad Mehldau. Era a primeira vez que ela sairia sozinha; era
também a primeira vez que escreveria um texto em público. Ultimamente havia
reparado que as ideias mais promissoras lhe vinham quando estava correndo no
parque ou ouvindo música em algum lugar (o padrão que reconheceu era que as
ideias vinham quando não havia oportunidade para anotá-las). Isso mudaria.
Não que
a solidão tivesse sido sua primeira opção para um sábado à noite, mas, coincidentemente,
toda companhia que procurou tinha planos que não a incluíam, e, assim, quis a
Providência que ela mudasse o modus
operandi de sua tímida produção literária. Arrumou um bloquinho Moleskine –
dada que estava às grifes naqueles dias – e foi-se para todo aquele jazz,
esperando que a inspiração viesse porque talvez gostasse da música.
Sentou-se
e pediu um Jack Lemonade, bebida à
base de vodca com Cointreau, somados a alguns cítricos. Ali ficou ouvindo as
variações do trio e compartilhando o silêncio interessado do resto da plateia.
Isso até que viu uma cópia de si mesma, ou melhor, uma cópia de suas intenções.
Um rapaz sentado também sozinho, em uma mesa próxima à sua, que rabiscava
agitado as páginas de um Moleskine da mesma cor e modelo. Seria escritor e
procurava estímulo em novos ambientes? Seria disponível? Suas dúvidas se
embaralhavam e roubavam a atenção uma da outra.
Chegado
o primeiro intervalo do bom trio, após três Jack
Lemonades e sem escrever uma linha sequer, decidiu conhecer o rapaz,
aproveitando também que ele tomava uma Margarita enquanto descansava a mão,
provavelmente por estar mais acostumado com teclado de computador (como o resto
de nós). Ela chegou perto de sua mesa e, sem falar palavra que fosse,
apresentou seu Moleskine como se o caderninho fosse o crachá de identificação
de um clube exclusivíssimo que só eles conheciam, fazendo-o com um sorriso
honesto, tímido e cúmplice. Convidada a sentar, conversaram com ânimo crescente.
Suas
suspeitas se materializaram, e realmente ele buscava o frescor da inspiração em
lugar outro que não seu escritório. Diferentemente dela, não era sua primeira
vez, e seu caderninho já acumulava alguns textos feitos na parceria de
improvisações mirabolantes de trompetes e contrabaixos. A banda já se aprontava
no palco para sua segunda entrada quando ela pediu para ler algum daqueles
textos – ele poderia escolher qual seria, caso isso trouxesse algum alívio
frente àquela imprevista indiscrição. Concordou enfim, mesmo que secretamente
estivesse incomodado pela constatação de que não escreveria mais naquela noite.
Passado o caderno de primeiras para segundas mãos, deu-se a leitura.
“Título – Texturas Minhas
Se eu gostasse de você, tiraria o
peso dos seus ombros com olhos e ouvidos companheiros, por todo o tempo
acompanhados de uma mão que lhe reiterasse que entendo e não repreendo. Diria ‘não somos todos, afinal, fantoches de
momentos em que nos prende o frio destino, os quais enfrentamos com nada além dos
nosso valores? Você é boa pessoa! Desanuvie-se para remendar certo qualquer
malfeito!...’
E eu fosse arrimo de qualquer ânimo
seu, seria então alimentado para sempre. Teria em mim o amparo necessário para
que, num mundo movido somente por comportamentos automáticos, não se apagassem
olhos quem veem arte e compreensão onde pousam.
Se eu lhe desejasse, não veria o alvo
da minha afeição com os cantos dos olhos enquanto, devorado por timidez, esperasse
sinal que não viria – pois sequer me faria notar. Diria ‘venha comigo’ e, se
cobrada uma razão, perguntaria se nunca viu pela rua pessoa que, distraída,
sorri sem que se saiba a causa, mas cuja alegria secreta a separa dos demais e
a devolve a um tempo em que a vida teve mais cor. Diria que, se me atendesse,
seria para sempre meu sorriso secreto, meu deleite inconfesso. Eu diria essas
verdades e outras ainda, mas nunca calaria.”
Terminado
o texto, que soou inacabado, ela fechou o caderno e travou-o com seu peculiar elástico,
para então voltar-se ao seu dono, entretido no confuso, barulhento e alegre
solo de bateria que envolvia todo o bar, e provavelmente toda a vizinhança. O
olhar dele parecia se dirigir à banda, mas na verdade a transpassava e fugia para
sempre, inalcançável. Tal qual ele, ela começou por olhá-lo, mas logo também o
transpôs, deixando-se perder em um lugar muito, muito perto.