quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Jazz Jazz Jazz



O corredor era mal iluminado com umas poucas lâmpadas incandescentes à mostra, sem lustre ou cobertura qualquer que lhes amenizasse o brilho incômodo que, por sua vez, refletia nas poças do chão de cimento irregular alertando quem se aventurasse por aqueles caminhos para que cuidasse de se desviar. Poucos passos bastavam para que a clientela já começasse a ouvir a música que a acompanharia pela feia passarela que se abria num ambiente escuro de bar com um pequeno palco. Tudo permanentemente improvisado, termo hoje substituído por “descolado” ou “alternativo” para que o dono do lugar não gaste tanto dinheiro, mas cobre a contento.
A música vinha de um afiado trio de jazz, que criava instantâneas e ótimas variações de Night Away, da versão de Pat Metheny e Brad Mehldau. Era a primeira vez que ela sairia sozinha; era também a primeira vez que escreveria um texto em público. Ultimamente havia reparado que as ideias mais promissoras lhe vinham quando estava correndo no parque ou ouvindo música em algum lugar (o padrão que reconheceu era que as ideias vinham quando não havia oportunidade para anotá-las). Isso mudaria.
Não que a solidão tivesse sido sua primeira opção para um sábado à noite, mas, coincidentemente, toda companhia que procurou tinha planos que não a incluíam, e, assim, quis a Providência que ela mudasse o modus operandi de sua tímida produção literária. Arrumou um bloquinho Moleskine – dada que estava às grifes naqueles dias – e foi-se para todo aquele jazz, esperando que a inspiração viesse porque talvez gostasse da música.
Sentou-se e pediu um Jack Lemonade, bebida à base de vodca com Cointreau, somados a alguns cítricos. Ali ficou ouvindo as variações do trio e compartilhando o silêncio interessado do resto da plateia. Isso até que viu uma cópia de si mesma, ou melhor, uma cópia de suas intenções. Um rapaz sentado também sozinho, em uma mesa próxima à sua, que rabiscava agitado as páginas de um Moleskine da mesma cor e modelo. Seria escritor e procurava estímulo em novos ambientes? Seria disponível? Suas dúvidas se embaralhavam e roubavam a atenção uma da outra.
Chegado o primeiro intervalo do bom trio, após três Jack Lemonades e sem escrever uma linha sequer, decidiu conhecer o rapaz, aproveitando também que ele tomava uma Margarita enquanto descansava a mão, provavelmente por estar mais acostumado com teclado de computador (como o resto de nós). Ela chegou perto de sua mesa e, sem falar palavra que fosse, apresentou seu Moleskine como se o caderninho fosse o crachá de identificação de um clube exclusivíssimo que só eles conheciam, fazendo-o com um sorriso honesto, tímido e cúmplice. Convidada a sentar, conversaram com ânimo crescente.
Suas suspeitas se materializaram, e realmente ele buscava o frescor da inspiração em lugar outro que não seu escritório. Diferentemente dela, não era sua primeira vez, e seu caderninho já acumulava alguns textos feitos na parceria de improvisações mirabolantes de trompetes e contrabaixos. A banda já se aprontava no palco para sua segunda entrada quando ela pediu para ler algum daqueles textos – ele poderia escolher qual seria, caso isso trouxesse algum alívio frente àquela imprevista indiscrição. Concordou enfim, mesmo que secretamente estivesse incomodado pela constatação de que não escreveria mais naquela noite. Passado o caderno de primeiras para segundas mãos, deu-se a leitura.
“Título – Texturas Minhas
Se eu gostasse de você, tiraria o peso dos seus ombros com olhos e ouvidos companheiros, por todo o tempo acompanhados de uma mão que lhe reiterasse que entendo e não repreendo.  Diria ‘não somos todos, afinal, fantoches de momentos em que nos prende o frio destino, os quais enfrentamos com nada além dos nosso valores? Você é boa pessoa! Desanuvie-se para remendar certo qualquer malfeito!...’
E eu fosse arrimo de qualquer ânimo seu, seria então alimentado para sempre. Teria em mim o amparo necessário para que, num mundo movido somente por comportamentos automáticos, não se apagassem olhos quem veem arte e compreensão onde pousam.
Se eu lhe desejasse, não veria o alvo da minha afeição com os cantos dos olhos enquanto, devorado por timidez, esperasse sinal que não viria – pois sequer me faria notar. Diria ‘venha comigo’ e, se cobrada uma razão, perguntaria se nunca viu pela rua pessoa que, distraída, sorri sem que se saiba a causa, mas cuja alegria secreta a separa dos demais e a devolve a um tempo em que a vida teve mais cor. Diria que, se me atendesse, seria para sempre meu sorriso secreto, meu deleite inconfesso. Eu diria essas verdades e outras ainda, mas nunca calaria.”
Terminado o texto, que soou inacabado, ela fechou o caderno e travou-o com seu peculiar elástico, para então voltar-se ao seu dono, entretido no confuso, barulhento e alegre solo de bateria que envolvia todo o bar, e provavelmente toda a vizinhança. O olhar dele parecia se dirigir à banda, mas na verdade a transpassava e fugia para sempre, inalcançável. Tal qual ele, ela começou por olhá-lo, mas logo também o transpôs, deixando-se perder em um lugar muito, muito perto.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Ensimesmado - Parte 2



Quando acordei, não abri os olhos de imediato. Lembrei-me daqueles filmes, geralmente ruins, onde o sujeito pensa que acorda, passa assim uns minutos, para então ser jogado vertiginosamente em sua piorada mas verdadeira realidade, que, essa, sim, não lhe fugirá. Comigo já foram direto apresentando a verdade crua e azeda. Como previ, a única forma de dormir no lavabo foi apoiar as pernas por sobre o sanitário, o que inviabilizava qualquer posição que não fosse com a barriga para cima.


Não foi fria a noite, então a toalhinha de rosto, já programada para as vezes de lençol, cobertor, fronha e edredom, valeu-se de sua recém adquirida polivalência para ser somente travesseiro. Espreguiçar-me não pude, pois os braços batiam na porta teimosamente trancada muito antes de esticarem-se, impedindo assim meu feioso gemido matinal, famosamente parecido com um relincho. Ainda estava um pouco sonolento e pensei em cochilar um pouco mais para ganhar tempo (veja-se que expressão engraçada de se usar aqui, já que tempo era o que eu mais tinha). De qualquer forma, não dormi. 


Não mencionei até agora, mas uso óculos de grau com tanto grau que muita coisa se perde no meio do nevoeiro embaçado que é a minha vista natural. O que vi naquele relance foi um ponto escuro no teto que não me preocuparia em nada se tivesse a delicadeza de permanecer imóvel, o que não aconteceu. Sem deixar de mirar o curioso e já amedrontador ponto, tateei o chão até que encontrei meus óculos. Pois bem, era mesmo uma barata, e já aviso que, em circunstância normal, eu trataria do problema de forma tradicional: debaixo da sola de um sapato. Aconteceu que, da mesma forma que não trouxe meus óculos para essa história até que se fizeram relevantes, também olvidei-me de informar que entrei no lavabinho descalço.


Muito bem. Já viram que eu tenho algo de metódico, e essa frieza me vale para algo de tempos em tempos. Ainda deitado, espreitei rapidamente o restante do ambiente procurando pelo que pudesse ser feito em armamento contra o mais odiado dos insetos. Toalha, papel higiênico, potinho de sabonete líquido. Só. E isso tudo mantendo a minha visão periférica na barata, um talento oculto até então. Valia a pena tentar novamente a Excalibur. Mães levantam carros para livrar a perna de um filho, todo mundo já leu ou assistiu os feitos extraordinários que a só adrenalina nos permite (pois milagres não há, desculpe-me quem teima em se equivocar), e assim, de reles escudeiro fiz-me eu mesmo em Rei Arthur. A janela, feita de três vitrôs que abrem basculantes, cedeu aos poucos mas enfim abriu-se toda. Dei umas toalhadas próximas da barata, não para acertá-la, mas para afungentá-la para a agora solidária janela. Assim ocorreu. Não foi necessário muito engenho, concordo, mas senti-me bem com o desfecho.


Barata expulsa e, o que foi melhor, um acesso ao mundo exterior pelas frestas da janela, aqui resumido a um muro baixo que deixava ver boa parte do quintal e toda a janela da cozinha do meu vizinho, um senhor viúvo desde sempre, com andar vacilante e rosto sorridente, mas em quem nunca prestei muita atenção, supondo mesmo agora que o desinteresse é recíproco. Passei um bom tempo com os olhos por entre os vãos da janelinha esperando por ele. Nada.


Eu havia já preparado o espírito para o transcorrer do cárcere. Muita água e paciência eram, em suma, meus meios de vencer a irritação que constantemente assediava este pobre azarado. Como um mal filme visto em casa e não no cinema, façamos agora o uso do botão foward do controle remoto, aquele com as duas setas mirando a direita. Assim eu me privo do relato insosso do consumo reiterado de água de pia, inúmeras urinadas e a morte trágica – ainda que anunciada – de um sapo de origami.


Assim chegaremos ao que realmente importa, por não ter sido previsto. Nos intervalos das atividades acima sintetizadas, era regra debruçar-me na janela. Numa dessas vezes, o Seu Gilson, meu vizinho, apareceu na cozinha portando um telefone sem fio e falando nele gesticulante e animadamente. Eu não ouvia nada, e parei de tentar chamá-lo após o terceiro grito, pois aceitei resignado que ele não me ouvia. O que não pude deixar de notar, apesar de não entender o que se dizia, era a desenvoltura com que andava e movia os lábios. Muito mais seguro de si do que o caquético homenzinho que eu às vezes via pela rua, sempre em pouca distância de sua casa.


Estranhei, mas não dei tanta atenção. Então ele é mais seguro em casa que na rua; pois muito bem, eu continuo aqui trancado. Se a vida de um idoso pode ser entediante, imagine-se assisti-la. Mais tempo passou, já anoitecia e, se não me engano, foi logo depois de um breve velório para o sapo de papel que eu voltei à janela. Da cozinha do Seu Gilson havia sido retirada a mesa e havia naquele espaço amplo agora uma poltrona, provavelmente arrastada a duras penas desde a sala de estar, e, sentado nela com olhar estático e fascinado, o Seu Gilson. Devia estar tocando alguma música, pois, apesar de eu não ouvi-la, Seu Gilson dava leves gingados para os lados que assim me fizeram presumir. No início achei que ele me olhava, e dei o primeiro grito por auxílio, mas depois percebi que ele não olhava em minha direção, mas um pouco mais abaixo. Era bastante estranho, mas meu dia havia sido muito maçante; duvido que alguém me recrimine por um pouco de Big Brother.


Em instantes, surgiu na cozinha, de frente para o Seu Gilson e de costas para mim, o motivo de tanto encantamento. O idoso safado havia contratado uma dançarina exótica para se apresentar em sua cozinha, e vestida de empregadinha com umas dessas caprichadas fantasias de sex shop (uma vulgaridade de muito bom gosto, se me perguntarem). Ela dançava demoradamente, com movimentos bem estudados e hipnóticos, feitos com segurança e leveza ao mesmo tempo. Infinitamente sensual. Cabelos ondulados escorriam belos ombros e enfatizavam cada passo daquela insinuante coreografia; de sua pele dourada somente destoavam finos contornos de marcas de bronzeado (ah, penso no quanto somos fáceis de agradar... um corpo bem feito, uma dança sem-vergonha e acabou-se o romantismo, a elegância, as palavras não ditas e demais sutilezas e temperinhos, todos supervalorizados).


Vez por outra a garota dançava mais próxima do Seu Gilson, ao alcance de suas mãos agora nada trêmulas, e ainda assim ele mantinha uma compostura elogiável, de homem experiente que sabe que há hora para tudo, inclusive para a espera. Aos poucos foram caindo o aventalzinho, o macacãozinho, a tiarinha com renda, ficando somente a meia arrastão nas pernas maldosamente torneadas e o espanadorzinho na mão, provavelmente a pedido. Respeitava Seu Gilson mais a cada momento, confesso. A dança acabou enfim, a moça retirou-se da visão entre nós, deixando-me ver seu Gilson, que agora tinha o olhar perdido em direção ao teto, enquanto sua feição mesclava-se entre satisfação e melancolia. Em seguida, apesar de meu interesse ainda não ter voltado para a minha soltura, foi o próprio Seu Gilson quem me viu, mostrando surpresa e deixando a cozinha na mesma direção da dançarina sem se prestar aos meus novos acodes.


Sentei no sanitário ainda digerindo a situação, surpreso, mas muito mais alegre do que surpreso. Foi simplesmente bacana demais acompanhar aquele strip-tease para que eu me importasse com contextos. Meus pensamentos saíram da memória das tenras nádegas da mocinha e voltaram ao lavabo quando tocou minha campainha: era meu vizinho, obviamente. Gritei que estava trancado no lavabo e procurei direcioná-lo para a minha janela, havendo êxito após umas poucas tentativas. Uma sorte eu morar em uma casa onde ainda não se tem fobia por segurança, cheia de grades e portas. Seu Gilson alcançou-me sem maiores obstáculos.


-         É certo agora espiar o que os outros fazem? - lascou comigo logo que pôde.

-         Seu Gilson, eu estou preso aqui há quase dois dias! Estava tentando chamar sua atenção muito antes de ver que o senhor estava acompanhado, e o senhor nada: nem de ver e nem de ouvir.


Ele olhou para baixo, respirou pausadamente e voltou-se para mim com mais calma: “não gostaria que o pouco de distração que eu tenho virasse motivo de risada na vizinhança”. Ele parecia impotente e triste agora.


-         Seu Gilson, pelo amor de Deus, o que eu ganharia espalhando por aí o que acontece na vida dos outros? Não, pode ficar sossegado. E, se quer saber, achei fantástico o que o senhor fez. É sério, perdi o medo de envelhecer. Se é assim que eu poderei preencher meus domingos, acabou-se o problema. O senhor fez mais por mim do que meu analista.


Ele pareceu tranquilizar-se com a cumplicidade que eu oferecia e que era mesmo honesta. Pedi-lhe somente que voltasse com uma chave de fenda das grandes, para que eu pudesse forçar as dobradiças da porta, retirando-lhes os pinos que as mantém unidas à parede. Ele voltou rápido com a ferramenta, reiterou seu pedido de sigilo com muita humildade e eu voltei a tranquilizá-lo. Brinquei com ele, inclusive, que seu segredo estaria guardado somente se minha família também não descobrisse o tapado episódio do lavabo. Rimos juntos e nos despedimos.


Minha primeira atitude foi correr até a lanchonete mais próxima a pé mesmo, onde comi um sanduíche tão gorduroso que deve ter transformado meu sangue em graxa. Aliviado da fome e após um banho, a vida voltou a merecer esse nome. Quando minhas crianças chegaram, contei-lhes o acontecido, pois o cômico e o trágico são irmãos dos mais próximos e suas traquinagens não devem ser segredo. Só tirei da história a participação do vizinho, colocando a chave de fenda no anteparo da janela do lado de fora, para que eu pudesse me soltar sem ajuda. Palavra é palavra, lembremos sempre. Nunca mais vi nada que preste vindo da casa do Seu Gilson; acredito que ele espere que a gente viaje para dar vazão ao seu assanhamento sem que haja quem lhe estorve. Não acho que o episódio foi o suficiente para nos fazer amigos, afinal seguimos tendo tanto em comum quanto antes, mas, quando nos cumprimentamos na rua – somente nesses momentos rápidos – é assim que eu o vejo.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Ensimesmado - Parte 1



Sou, definitivamente, um orador solitário, ou, como Lars Von Trier definiria com muito mais propriedade, um dancer in the dark. Se me ocupo de tarefas mecânicas, ou quando não me ocupo e pronto, é regra ver-me desfiando opiniões e teses na cabeça como se houvesse quem desse a mínima. Nunca há, mas eu sigo entusiasmado da mesma forma até o final (se eu me concentro bastante, até respondo algumas perguntas ao final e ouço aplausos). Acredito, contudo, que a situação atual escusa exercício tão improdutivo. O passar dessas minhas horas já foi ocupado com origami de papel higiênico, boliche de sabonete líquido e poesia com batom no espelho. Tudo para que eu não regresse ao entediante ponto de partida, onde minha cabeça batia repetidamente na parede enquanto, de olhos cerrados, eu repetia o mantra “fodeu”, que, saliente-se, guarda muito em temática com a poesia de batom onde se lê “não tem ninguém aqui; dessa vez eu me fodi”.

Explico-me. Hoje é sábado, começo da tarde, e estou trancado no lavabo da minha casa há seis horas, desde que, ao tentar sair dele após um inocente xixizinho, quebrei a chave no tambor da fechadura. O branco predominante de paredes e louças, um suporte de papel higiênico com umas poucas e muito bregas flores mal bordadas, uma janela tão emperrada que a apelidei de Excalibur: tudo isso forma a paisagem ilusoriamente serena do meu infortúnio. Moro com dois filhos, que, a essa altura, devem estar muito satisfeitos e entretidos no Hopi Hari, aquele parque de nenhuma diversão em Vinhedo, interior de São Paulo, de onde não voltarão com os avós até o começo da noite de amanhã. A ideia de esperar em filas que se perdem no horizonte debaixo de sol para depois ser sacolejado e arremessado em máquinas de um lado para o outro enquanto outras pessoas gritam desesperadas e tentam se convencer de que aquilo tudo é muito bacana não coincide com minha noção de diversão, então eu não fui junto. Claro que um final de semana em lavabo de segurança máxima é muito pior, mas conto com a atenuante da involuntariedade.

Daqui a pouco devo decidir entre o cisne e o barco, ambos de papel, pois um deles sucumbirá para que eu possa, nos dizeres eufemísticos do Mandrake de Ruben Fonseca, desonerar meus intestinos sem abrir mão de um mínimo de dignidade. Creio que será o barco; ele não fez amizade com o sapo de papel mesmo, então ninguém vai sentir sua falta. Além disso, o cisne foi feito com pouco papel e as alheiras que eu comi ontem à noite com cerveja de trigo assistindo “Laranja Mecânica” de novo não me caíram nada bem – e não devem se entregar sem luta. Honestamente, elas nunca caem bem, mas alguns desígnios são insondáveis; ainda comerei alheiras nas madrugada – e seu for na companhia do Stanley Kubrick, tanto melhor.

O chão está frio e não há posição neste banheirinho em que eu possa esticar as pernas (ah, a mensagem do espelho soa mais verdadeira a cada segundo...). Viver num amálgama de “Esqueceram de Mim” com “127 Horas” tem se mostrado uma experiência patética e cansativa. Manterei a calma, ao menos por hora, pois ainda faltam em torno de vinte e oito horas para que eles retornem e meus ombros ainda doem das vãs tentativas de arrombamento. Sejamos, pois, racionais: até lá, sede não será problema – há a pia –, e mesmo a falta de posição para o sono será contornável, bastando que eu deite no chão e coloque minhas pernas sobre o sanitário, numa posição com algo de ginecológico, mas terá de servir. Pior será usar uma toalha de rosto como cobertor.

Sobre a fome, acredito e espero que papel higiênico seja atóxico, deve trazer alguma saciedade e não vai causar mais estragos que as alheiras. Fome, sede e sono estão, assim, administrados. A solidão e o isolamento poderiam, estes sim, serem um problema para muita gente, mas não para mim. Assim como a lingerie, os filmes de terror e o preparo de acarajé, a solidão é também subestimada. Ensimesmar-se é tão bom que tem até verbo para isso, ainda que esteja em tanto desuso quanto sua prática. Hoje, quem se ensimesma não o faz honestamente, fica sempre ligado em algo, e não digo metaforicamente. São aparelhos de MP3, smartphones, tudo parece querer nos roubar de nós mesmos... o que as pessoas precisam hoje em dia é ficarem presas no lavabo.

Isso me lembra um filme do Buñuel, “O Anjo Exterminador”, em que uns burgueses chatos ficam presos sem motivo aparente numa sala de jantar e aos poucos sua polida urbanidade cede a uma humanidade embaraçosa e visceral. Péssimo exemplo para quem quer exaltar o “estar só”, mas ótimo filme de qualquer forma. Puxa, como eu gostaria de estar com o meu celular agora. Ele também passa filmes e tem uma cópia da “Bela da Tarde” nele. Não há dúvida de que a Catherine Deneuve seria uma companhia muito mais reconfortante que o meu sapo de papel, que nunca terá a chance de se prostituir por tédio, principalmente se ainda houver ainda algum traço de alheira revoltando-me as tripas, o que é provável. Pobre batráquio, não sabe o que o espera (ele estava de costas quando há pouco seu colega cisne involuiu ao patinho mais feio e amassado que a descarga já viu).

Por falar em Catherine Deneuve, talvez nessas vinte e tantas horas de cárcere haja oportunidade – e ânimo – para uma masturbadinha. O barco de origami servirá para arrumar eventual confusão, não esqueçamos, mas uma certa racionalização no uso do papel higiênico se faz necessária. Ele aqui também é comida, e talvez travesseiro. Enfim, terei eu perseverança o suficiente para erotizar episódio tão dramaticamente ridículo? Se me conheço, é quase certo que sim; a preguiça é ameaça mais séria à minha libido do que a autocrítica.

Queria saber meditar para aproveitar melhor tanto ócio. Ou ter algo para ler, ao menos. Onde já se viu lavabo sem revista? Sou um péssimo anfitrião. Quantos convidados já devem ter feito seu cocozinho sem nada que os entretivesse que não fosse limo de rejunte. Definitivamente, algo a ser corrigido com Superinteressante, Maurício de Sousa e, só para fazer graça, um James Joyce – Ulisses, de preferência – em que ninguém vai encostar nunca. Talvez se torne o esconderijo de revista de mulher pelada do meu filho, quando crescer (quando eu era moleque, escondia revista de sacanagem no meio da Barsa e nunca fui descoberto).

Tudo por causa de uma chave quebrada na porta de lavabo. Nunca vi lavabo com chave; geralmente é aquele trinquinho que só se aciona por dentro. Comprar casa velha dá nisso, mas podia ser pior. Numa das casas que visitei durante a pesquisa de compra desta em cujo banheiro ora me confino, conheci uma que tinha lustre no lavabo. Sério, um lustre de pendurar com cristaizinhos e tudo. E acarpetado. De gosto incomensurável, mas aconchegante para quem fica preso, pois parecia um salinha. Estou divagando demais, tenho consciência, mas em nada mais posso empregar meu tempo. Se houvesse um pouco mais de espaço para tomar embalo, talvez pudesse botar essa maldita porta abaixo, mas aqui não há forma. E a janela Excalibur não viu em mim seu Rei Arthur, já fiz o que pude também. O espelho é que está certo, dessa vez foi aquilo mesmo. E você vá rezando sapinho, que estou começando com umas cólicas. Melhor dormir.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Contentação Insular



Em parte por falta de opção, em especial no início da adolescência, aprendi desde muito cedo a apreciar minha própria companhia. Sou capaz até de rir sozinho das minhas próprias galhofas, muitas vezes tendo a mim mesmo como alvo, já que minha consciência pesa demasiadamente quando acavalho com os defeitos alheios. O politicamente incorreto pode estar na moda, mas sigo detestando humor parasitário.


Essa introspecção já me rendeu, e ainda me rende, uma infinidade de bons momentos, especialmente na música e na leitura. Como dizia uma antiga professora de piano, a música, no mais das vezes, é uma contentação insular. Ficamos nós e aquela infinidade de acordes e ritmos, levando-nos a lugares que somente nós conheceremos, ainda que estejamos dançando de bochechas coladas ou balançando a cabeça em meio a uma turba de roqueiros desmiolados. Com o livro, então, é ainda mais fácil, pois um volume aberto à altura do rosto é semelhante a uma plaquinha de “não perturbe” na maçaneta; tornamo-nos ilhas autossuficientes de contentamento (especialmente se soubermos evitar essa enxurragada de trilogias oportunistas sobre vampiros emburradinhos ou moças pudicas que vão ao extase com o que daria sono na minha filha de cinco anos).


A expressão “contentação insular” é feliz também por remeter às praias pois, aprendidas as manhas de ler sem que a brisa oceânica lhe furte a página certa, tem-se um dos ambientes mais agradáveis para uma leitura. Veja-se como a felicidade pode ser alcançada com poucos recursos: uma cadeira confortável, um guarda-sol, um livrinho legal e o mundo que se exploda com suas urgências e vicissitudes. Não se tratando de alguma praia isolada e edênica – chega de chamar toda praia bonita de “paradisíaca”, certo? – o bom leitor deve estar com a capacidade de abstração bem treinada, pois não faltará quem queira roubar-lhe seu momento.


O estraga-prazeres das praias, tal qual um demônio bíblico, pode se apresentar nas formas mais variadas e dissimuladas, mas terá sempre um objetivo: reivindicá-lo da companhia das personagens e cenas para jogá-lo na indigesta realidade onde reinam pratinhos de milho cozinho com margarina, óculos escuros de plástico espetados em placas de isopor e imensos sacos de amendoim com casca carregados por vendedores cujas aspirações não encontram paralelo (exceto, talvez, pelo vendedor de algodão doce que se veste de Telletubbie – que deus o ilumine).


O chato pode ser um vendedor de CDs, atividade muito comum no nordeste. Trata-se de um excomungado que adapta um caminho de mão para que receba em seu interior um tocador, duas caixas acústicas e uma bateria de automóvel. Assim, pode vender seus CDs piratas para os poucos que os apreciam enquanto perturba os muitos que nada fizeram para merecer sua balbúrdia. Tente-se acompanhar a progressiva perda de ingenuidade dos personagens balzaquianos tendo um funk proibidão ao fundo!...


Como o vendedor de CDs, haverá também o porcão vendedor de milho cozido, já mencionado, mas que justifica novo destaque. Se merece aplauso pela continência sonora de suas panelas e temperos, por outro lado deixa um indesculpável rastro de sabugos e grãos amarelos, tão testemunhas de sua falta de aptidão com a faca quanto de higiene profissional. Longe de esgotar o assunto, registre-se o anacrônico hippie e seu sorriso de dentes testados nas condições mais adversas, que oferece suas missangas e, se deixar, senta na sua barraca, fuma seu cigarro, bebe sua cerveja e ainda discorda da sua opinião quanto à melhor formação do Deep Purple. E, sim, o sujeitinho vil vai te chamar de brother, mas isso se dará principalmente porque o disciplinado consumo de maconha por todos os anos que precederam seu encontro com ele o impedem de guardar qualquer nome. Recomendo fazer uma breve passagem por cada um dos possíveis estraga-prazeres para que seu aparecimento não choque. Mas são dissimulados, também já avisei, e não há mantra que abarque todos. Permitam-me exemplificar.


Eu estava lendo “A Luta Pela Alma dos Beatles”, o primeiro livro jornalístico que me propus a ler, e estava gostando bastante. O livro é grande e pesado; assim, para não forçar os ombros, apoiei os cotovelos nos braços articulados da cadeira e fiquei com o livro bem em frente ao rosto. Ficou cômodo e ainda quebrou o vento. Então ouvi um barulho estranho, meio molhado, e baixei o livro. Era uma criança (não a imaginem ainda, por favor, pois temos a mania de imaginá-las todas adoráveis, sorridentes e barrigudinhas). Era um menino de uns três anos, bem feinho, meio estrábico, magricelo e sisudo. Estava usando uma sunginha de super-heroi toda laceada e tinha nas mãos um sorvete moribundo de morango que já havia desistido de ser lambido e era vencido lentamente pelo sol inclemente, deixando lágrimas coloridas na areia. Eu sorri para ele como todos fazemos, mesmo quando a criança é feia, e voltei ao livro, que contava umas passagens sobre a gravação de Something.


Dali a pouco ouvi novo ruído, mas esse eu conhecia. Era uma fungada e, pelo volume, o guri era um profissional. Quando baixei o livro pela segunda vez, ele tinha algo saindo do nariz que se mesclava hediondamente com o sorvete babado em volta dos lábios finos e mal humorados, deixando pender em seu queixo uma estalactite de corantes, espessantes e muco que chegava quase à altura de seu umbigo, mas não se desprendia. Ficava lá, balançando com o vento.


Olhei para os lados para identificar a barraca dos seus pais, mas ninguém dava nenhuma dica de ser o proprietário do bichinho. Dei-me conta de que não havia lhe dirigido nenhuma palavra e perguntei, renovando o sorriso que já havia guardado, onde estariam seu papai e sua mamãe. Ele continuou me olhando com a mesma cara, como se nem me entendesse, e manteve a postura quando reiterei a pergunta outras vezes, ora com mais autoridade, ora com mais afeição.


Não estava pronto para aquele tipo de chato; confesso que me pegou desprevenido. Fechei meu livro com um baque de resignação e fiquei esperando o moleque enjoar de mim. Mas ele sentou e começou a encher a sunga de areia. Eu avisei sobre infecções urinárias, mas ele deu de ombros. Essa parte até que não foi não chata; fiquei surpreso com o tanto de areia que ele conseguiu colocar da sunguinha e entendi na hora porque estava tão laceada. O Homem de Ferro desenhado na frente, de tão esticado, estava irreconhecível.


Então uma moça veio caminhando em nossa direção. Ao menos era o que parecia. Era muito mais bonita do que o necessário para um homem fazer papel de bobo. Seus cabelos negros e pele dourada contrastavam dolorosamente bem com o tímido biquíni branco, e eu teria mais observações a seu respeito se me perguntassem.


- Ah, então foi para cá que você fugiu, Richard – falou para o menino. Pensei comigo sobre a improbabilidade de aquele ratinho se chamar Richard e sorri.

- Puxa, desculpe pelo meu filho. Ele vive fugindo... – dirigiu-se a mim.

- Bobagem!... Estamos aqui conversando, né, Richard? – Ele continuava quieto.

- Ah, que bom... Você se incomoda em ficar com ele só mais um pouquinho, enquanto eu dou um mergulhinho rápido? A gente já vai embora, tá bom, Richard?


Assenti com a cabeça e assisti a moça se distanciando. Ela também ia embora muito bem com seu biquíni. Fiquei olhando-a entrando no mar e se banhando no raso enquanto imagens automáticas envolvendo nós dois me apareciam na cabeça de forma automática: jantar romântico, serenata, a cena da geladeira do “9 e ½ Semanas de Amor”, e por aí vai. Ela voltou e eles se foram em seguida. Acabei até ajudando a limpar aquele pequeno leitão, de quem ninguém conseguiu tirar uma palavra que fosse. Meu livro voltou com um pouco de areia e meio grudento.


Enfim, são dissimulados os estraga-prazeres. Claro que passei a levar para a praia uma sacolinha para proteger o livro da vez de eventuais “Richards”, mas estou me enganando. Os chatos vencerão. Não sem alguma resistência, mas vencerão porque nós não somos chatos como eles. Nossa dignidade nos arruina.