Quando acordei,
não abri os olhos de imediato. Lembrei-me daqueles filmes, geralmente ruins,
onde o sujeito pensa que acorda, passa assim uns minutos, para então ser jogado
vertiginosamente em sua piorada mas verdadeira realidade, que, essa, sim, não
lhe fugirá. Comigo já foram direto apresentando a verdade crua e azeda. Como
previ, a única forma de dormir no lavabo foi apoiar as pernas por sobre o
sanitário, o que inviabilizava qualquer posição que não fosse com a barriga
para cima.
Não foi fria a
noite, então a toalhinha de rosto, já programada para as vezes de lençol,
cobertor, fronha e edredom, valeu-se de sua recém adquirida polivalência para
ser somente travesseiro. Espreguiçar-me
não pude, pois os braços batiam na porta teimosamente trancada muito antes de
esticarem-se, impedindo assim meu feioso gemido matinal, famosamente parecido
com um relincho. Ainda estava um pouco sonolento e pensei em cochilar um pouco
mais para ganhar tempo (veja-se que expressão engraçada de se usar aqui, já que
tempo era o que eu mais tinha). De qualquer forma, não dormi.
Não mencionei
até agora, mas uso óculos de grau com tanto grau que muita coisa se perde no
meio do nevoeiro embaçado que é a minha vista natural. O que vi naquele relance
foi um ponto escuro no teto que não me preocuparia em nada se tivesse a
delicadeza de permanecer imóvel, o que não aconteceu. Sem deixar de mirar o
curioso e já amedrontador ponto, tateei o chão até que encontrei meus óculos.
Pois bem, era mesmo uma barata, e já aviso que, em circunstância normal, eu
trataria do problema de forma tradicional: debaixo da sola de um sapato.
Aconteceu que, da mesma forma que não trouxe meus óculos para essa história até
que se fizeram relevantes, também olvidei-me de informar que entrei no
lavabinho descalço.
Muito bem. Já
viram que eu tenho algo de metódico, e essa frieza me vale para algo de tempos
em tempos. Ainda deitado, espreitei rapidamente o restante do ambiente
procurando pelo que pudesse ser feito em armamento contra o mais odiado dos
insetos. Toalha, papel higiênico, potinho de sabonete líquido. Só. E isso tudo
mantendo a minha visão periférica na barata, um talento oculto até então. Valia
a pena tentar novamente a Excalibur. Mães levantam carros para livrar a perna
de um filho, todo mundo já leu ou assistiu os feitos extraordinários que a só
adrenalina nos permite (pois milagres não há, desculpe-me quem teima em se
equivocar), e assim, de reles escudeiro fiz-me eu mesmo em Rei Arthur. A
janela, feita de três vitrôs que abrem basculantes, cedeu aos poucos mas enfim
abriu-se toda. Dei umas toalhadas próximas da barata, não para acertá-la, mas
para afungentá-la para a agora solidária janela. Assim ocorreu. Não foi
necessário muito engenho, concordo, mas senti-me bem com o desfecho.
Barata expulsa
e, o que foi melhor, um acesso ao mundo exterior pelas frestas da janela, aqui
resumido a um muro baixo que deixava ver boa parte do quintal e toda a janela
da cozinha do meu vizinho, um senhor viúvo desde sempre, com andar vacilante e
rosto sorridente, mas em quem nunca prestei muita atenção, supondo mesmo agora
que o desinteresse é recíproco. Passei um bom tempo com os olhos por entre os
vãos da janelinha esperando por ele. Nada.
Eu havia já
preparado o espírito para o transcorrer do cárcere. Muita água e paciência
eram, em suma, meus meios de vencer a irritação que constantemente assediava
este pobre azarado. Como um mal filme visto em casa e não no cinema, façamos
agora o uso do botão foward do controle remoto, aquele com as duas setas
mirando a direita. Assim eu me privo do relato insosso do consumo reiterado de água
de pia, inúmeras urinadas e a morte trágica – ainda que anunciada – de um sapo
de origami.
Assim chegaremos
ao que realmente importa, por não ter sido previsto. Nos intervalos das
atividades acima sintetizadas, era regra debruçar-me na janela. Numa dessas
vezes, o Seu Gilson, meu vizinho, apareceu na cozinha portando um telefone sem
fio e falando nele gesticulante e animadamente. Eu não ouvia nada, e parei de
tentar chamá-lo após o terceiro grito, pois aceitei resignado que ele não me
ouvia. O que não pude deixar de notar, apesar de não entender o que se dizia,
era a desenvoltura com que andava e movia os lábios. Muito mais seguro de si do
que o caquético homenzinho que eu às vezes via pela rua, sempre em pouca
distância de sua casa.
Estranhei, mas
não dei tanta atenção. Então ele é mais seguro em casa que na rua; pois muito
bem, eu continuo aqui trancado. Se a vida de um idoso pode ser entediante,
imagine-se assisti-la. Mais tempo passou, já anoitecia e, se não me engano, foi
logo depois de um breve velório para o sapo de papel que eu voltei à janela. Da
cozinha do Seu Gilson havia sido retirada a mesa e havia naquele espaço amplo
agora uma poltrona, provavelmente arrastada a duras penas desde a sala de
estar, e, sentado nela com olhar estático e fascinado, o Seu Gilson. Devia
estar tocando alguma música, pois, apesar de eu não ouvi-la, Seu Gilson dava
leves gingados para os lados que assim me fizeram presumir. No início achei que
ele me olhava, e dei o primeiro grito por auxílio, mas depois percebi que ele
não olhava em minha direção, mas um pouco mais abaixo. Era bastante estranho, mas
meu dia havia sido muito maçante; duvido que alguém me recrimine por um pouco
de Big Brother.
Em instantes,
surgiu na cozinha, de frente para o Seu Gilson e de costas para mim, o motivo
de tanto encantamento. O idoso safado havia contratado uma dançarina exótica para
se apresentar em sua cozinha, e vestida de empregadinha com umas dessas
caprichadas fantasias de sex shop (uma vulgaridade de muito bom gosto, se me
perguntarem). Ela dançava demoradamente, com movimentos bem estudados e
hipnóticos, feitos com segurança e leveza ao mesmo tempo. Infinitamente
sensual. Cabelos ondulados escorriam belos ombros e enfatizavam cada passo
daquela insinuante coreografia; de sua pele dourada somente destoavam finos
contornos de marcas de bronzeado (ah, penso no quanto somos fáceis de agradar...
um corpo bem feito, uma dança sem-vergonha e acabou-se o romantismo, a
elegância, as palavras não ditas e demais sutilezas e temperinhos, todos
supervalorizados).
Vez por outra a garota dançava mais próxima do Seu Gilson, ao alcance de
suas mãos agora nada trêmulas, e ainda assim ele mantinha uma compostura
elogiável, de homem experiente que sabe que há hora para tudo, inclusive para a
espera. Aos poucos foram caindo o aventalzinho, o macacãozinho, a tiarinha com
renda, ficando somente a meia arrastão nas pernas maldosamente torneadas e o
espanadorzinho na mão, provavelmente a pedido. Respeitava Seu Gilson mais a cada
momento, confesso. A dança acabou enfim, a moça retirou-se da visão entre nós,
deixando-me ver seu Gilson, que agora tinha o olhar perdido em direção ao teto,
enquanto sua feição mesclava-se entre satisfação e melancolia. Em seguida,
apesar de meu interesse ainda não ter voltado para a minha soltura, foi o
próprio Seu Gilson quem me viu, mostrando surpresa e deixando a cozinha na
mesma direção da dançarina sem se prestar aos meus novos acodes.
Sentei no sanitário ainda digerindo a situação, surpreso, mas muito mais
alegre do que surpreso. Foi simplesmente bacana demais acompanhar aquele strip-tease
para que eu me importasse com contextos. Meus pensamentos saíram da memória das
tenras nádegas da mocinha e voltaram ao lavabo quando tocou minha campainha:
era meu vizinho, obviamente. Gritei que estava trancado no lavabo e procurei
direcioná-lo para a minha janela, havendo êxito após umas poucas tentativas.
Uma sorte eu morar em uma casa onde ainda não se tem fobia por segurança, cheia
de grades e portas. Seu Gilson alcançou-me sem maiores obstáculos.
-
É certo agora espiar o que os outros fazem? - lascou comigo
logo que pôde.
-
Seu Gilson, eu estou preso aqui há quase dois dias! Estava
tentando chamar sua atenção muito antes de ver que o senhor estava acompanhado,
e o senhor nada: nem de ver e nem de ouvir.
Ele olhou para
baixo, respirou pausadamente e voltou-se para mim com mais calma: “não gostaria
que o pouco de distração que eu tenho virasse motivo de risada na vizinhança”.
Ele parecia impotente e triste agora.
-
Seu Gilson, pelo amor de Deus, o que eu ganharia espalhando
por aí o que acontece na vida dos outros? Não, pode ficar sossegado. E, se quer
saber, achei fantástico o que o senhor fez. É sério, perdi o medo de
envelhecer. Se é assim que eu poderei preencher meus domingos, acabou-se o
problema. O senhor fez mais por mim do que meu analista.
Ele pareceu
tranquilizar-se com a cumplicidade que eu oferecia e que era mesmo honesta.
Pedi-lhe somente que voltasse com uma chave de fenda das grandes, para que eu
pudesse forçar as dobradiças da porta, retirando-lhes os pinos que as mantém
unidas à parede. Ele voltou rápido com a ferramenta, reiterou seu pedido de
sigilo com muita humildade e eu voltei a tranquilizá-lo. Brinquei com ele,
inclusive, que seu segredo estaria guardado somente se minha família também não
descobrisse o tapado episódio do lavabo. Rimos juntos e nos despedimos.
Minha primeira
atitude foi correr até a lanchonete mais próxima a pé mesmo, onde comi um
sanduíche tão gorduroso que deve ter transformado meu sangue em graxa. Aliviado
da fome e após um banho, a vida voltou a merecer esse nome. Quando minhas crianças
chegaram, contei-lhes o acontecido, pois o cômico e o trágico são irmãos dos
mais próximos e suas traquinagens não devem ser segredo. Só tirei da história a
participação do vizinho, colocando a chave de fenda no anteparo da janela do
lado de fora, para que eu pudesse me soltar sem ajuda. Palavra é palavra,
lembremos sempre. Nunca mais vi nada que preste vindo da casa do Seu Gilson;
acredito que ele espere que a gente viaje para dar vazão ao seu assanhamento
sem que haja quem lhe estorve. Não acho que o episódio foi o suficiente para
nos fazer amigos, afinal seguimos tendo tanto em comum quanto antes, mas,
quando nos cumprimentamos na rua – somente nesses momentos rápidos – é assim
que eu o vejo.
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