quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Jazz Jazz Jazz



O corredor era mal iluminado com umas poucas lâmpadas incandescentes à mostra, sem lustre ou cobertura qualquer que lhes amenizasse o brilho incômodo que, por sua vez, refletia nas poças do chão de cimento irregular alertando quem se aventurasse por aqueles caminhos para que cuidasse de se desviar. Poucos passos bastavam para que a clientela já começasse a ouvir a música que a acompanharia pela feia passarela que se abria num ambiente escuro de bar com um pequeno palco. Tudo permanentemente improvisado, termo hoje substituído por “descolado” ou “alternativo” para que o dono do lugar não gaste tanto dinheiro, mas cobre a contento.
A música vinha de um afiado trio de jazz, que criava instantâneas e ótimas variações de Night Away, da versão de Pat Metheny e Brad Mehldau. Era a primeira vez que ela sairia sozinha; era também a primeira vez que escreveria um texto em público. Ultimamente havia reparado que as ideias mais promissoras lhe vinham quando estava correndo no parque ou ouvindo música em algum lugar (o padrão que reconheceu era que as ideias vinham quando não havia oportunidade para anotá-las). Isso mudaria.
Não que a solidão tivesse sido sua primeira opção para um sábado à noite, mas, coincidentemente, toda companhia que procurou tinha planos que não a incluíam, e, assim, quis a Providência que ela mudasse o modus operandi de sua tímida produção literária. Arrumou um bloquinho Moleskine – dada que estava às grifes naqueles dias – e foi-se para todo aquele jazz, esperando que a inspiração viesse porque talvez gostasse da música.
Sentou-se e pediu um Jack Lemonade, bebida à base de vodca com Cointreau, somados a alguns cítricos. Ali ficou ouvindo as variações do trio e compartilhando o silêncio interessado do resto da plateia. Isso até que viu uma cópia de si mesma, ou melhor, uma cópia de suas intenções. Um rapaz sentado também sozinho, em uma mesa próxima à sua, que rabiscava agitado as páginas de um Moleskine da mesma cor e modelo. Seria escritor e procurava estímulo em novos ambientes? Seria disponível? Suas dúvidas se embaralhavam e roubavam a atenção uma da outra.
Chegado o primeiro intervalo do bom trio, após três Jack Lemonades e sem escrever uma linha sequer, decidiu conhecer o rapaz, aproveitando também que ele tomava uma Margarita enquanto descansava a mão, provavelmente por estar mais acostumado com teclado de computador (como o resto de nós). Ela chegou perto de sua mesa e, sem falar palavra que fosse, apresentou seu Moleskine como se o caderninho fosse o crachá de identificação de um clube exclusivíssimo que só eles conheciam, fazendo-o com um sorriso honesto, tímido e cúmplice. Convidada a sentar, conversaram com ânimo crescente.
Suas suspeitas se materializaram, e realmente ele buscava o frescor da inspiração em lugar outro que não seu escritório. Diferentemente dela, não era sua primeira vez, e seu caderninho já acumulava alguns textos feitos na parceria de improvisações mirabolantes de trompetes e contrabaixos. A banda já se aprontava no palco para sua segunda entrada quando ela pediu para ler algum daqueles textos – ele poderia escolher qual seria, caso isso trouxesse algum alívio frente àquela imprevista indiscrição. Concordou enfim, mesmo que secretamente estivesse incomodado pela constatação de que não escreveria mais naquela noite. Passado o caderno de primeiras para segundas mãos, deu-se a leitura.
“Título – Texturas Minhas
Se eu gostasse de você, tiraria o peso dos seus ombros com olhos e ouvidos companheiros, por todo o tempo acompanhados de uma mão que lhe reiterasse que entendo e não repreendo.  Diria ‘não somos todos, afinal, fantoches de momentos em que nos prende o frio destino, os quais enfrentamos com nada além dos nosso valores? Você é boa pessoa! Desanuvie-se para remendar certo qualquer malfeito!...’
E eu fosse arrimo de qualquer ânimo seu, seria então alimentado para sempre. Teria em mim o amparo necessário para que, num mundo movido somente por comportamentos automáticos, não se apagassem olhos quem veem arte e compreensão onde pousam.
Se eu lhe desejasse, não veria o alvo da minha afeição com os cantos dos olhos enquanto, devorado por timidez, esperasse sinal que não viria – pois sequer me faria notar. Diria ‘venha comigo’ e, se cobrada uma razão, perguntaria se nunca viu pela rua pessoa que, distraída, sorri sem que se saiba a causa, mas cuja alegria secreta a separa dos demais e a devolve a um tempo em que a vida teve mais cor. Diria que, se me atendesse, seria para sempre meu sorriso secreto, meu deleite inconfesso. Eu diria essas verdades e outras ainda, mas nunca calaria.”
Terminado o texto, que soou inacabado, ela fechou o caderno e travou-o com seu peculiar elástico, para então voltar-se ao seu dono, entretido no confuso, barulhento e alegre solo de bateria que envolvia todo o bar, e provavelmente toda a vizinhança. O olhar dele parecia se dirigir à banda, mas na verdade a transpassava e fugia para sempre, inalcançável. Tal qual ele, ela começou por olhá-lo, mas logo também o transpôs, deixando-se perder em um lugar muito, muito perto.

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