terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Anestésicos



Eu estava em casa assistindo filme de terror com zumbi – uma respeitável versão de um clássico do George Romero – enquanto devorava uma verdadeira bacia de batatas fritas. Não as porcarias congeladas; batata de verdade mesmo, frente às quais aqueles palitos friamente padronizados são tristes arremedos. E isso tudo não me pôs para cima, então a coisa era séria. Difícil reconhecer que um relacionamento está definhando enquanto ainda persistem sentimentos, mas parecia de fato estar esgotado, e mesmo batatas fritas e adolescentes seminuas cobertas de sangue de mentira não contemporizavam a crescente sensação de que alcançáramos o ponto em que a desistência não é covardia, mas coragem.


Meses atrás, avisei-a sobre um show de jazz no Madeleine, um dos melhores bares de São Paulo para apreciar música de primeira num ambiente aconchegante e intimista. Após passar duas semanas cultivando uma barbicha e tendo descolado um bonezinho com jeito de boina, eu estava pronto para o jazz com o que considerei o equivalente a camiseta preta e jeans para um show de rock. Chegada a hora, coloquei Full House, de Wes Montgomery, no som capenga no meu carro capenga, e fui alegremente encontrar minha namorada para o que seria, aos meus olhos, um baita de um programa, enquanto batucava no volante do carro um acompanhamento alternativo para o guitarrista.

Já no caminho para o Madeleine, achei que certa frieza de sua parte ameaçava miseravelmente meu entusiasmo, e perguntei se estava tudo bem (por praxe somente, sabendo de antemão que a resposta verdadeira não viria tão facilmente). Não, senhor: se você quer saber se sua mulher está bem, há muitos caminhos, mas perguntar não é um deles. O sentido da vida e a antimatéria são enigmas menos desgastantes.


Após me responder “está tudo bem” sem ao menos tirar os olhos do celular, segui pela pantanosa liturgia por qual todos os homens passam para saber do que são acusados, já que somente então poderão pedir desculpas sem estarem arrependidos, deixando mais uma ponta solta num relacionamento que irá cobrar dessas displicências em algum momento. Ao menos agora eu sabia meu deslize: ela não queria jazz nenhum.


Por que não falou com clareza que não queria ir? E se escolheu o silêncio por todo aquele dia, por que não fazer a fineza de abraçar a ideia de vez e tentar se divertir? Bom, primeiro, ela disse, porque eu havia recebido muitas indiretas de onde se extrairia a falta de vontade, e, segundo, silenciou porque viu meu entusiasmo e resolveu deixar o barco correr, mas àquela altura a sensação de que eu não estava atento às suas vontades a incomodou demais e tudo foi como foi. (Pergunto-me se os gays passam por isso às vezes, já que não enfrentam a tormentosa psique feminina traduzindo tudo para o grego em tempo real. Espero que passem, pois eu já invejo sua saudável promiscuidade; não acho justo que também não discutam por bobagem).


Uma vez adiada minha noite musical, na volta para sua casa tentei contextualizar tudo da melhor forma: expliquei como pude e ela aceitou como quis. O importante é que eu reconhecia que essa havia sido uma discussão pontual e que não merecia que eu lhe despendesse mais atenção. Verdade? Mentira. Tínhamos discussões pontuais o tempo todo. Nada era sério e constante como ciúmes ou problemas com dinheiro, mas havia uma sequência interminável de rusgas, grãos de areia que, unidos, se acumulavam já como pedregulhos. Resolver o presente não precavia o futuro, cuja salutar imprevisão havia sido desfeita pela certeza de novas e bobas contendas.


Não vi alternativa que não dar meia volta com meu carro, prevendo as delícias de algum seriado acompanhado de sorvete e silêncio. Ao invés disso, chegando à sua casa, ela desceu do carro antes que eu pudesse dizer o que fosse, e saiu batendo porta (nem sorvetinho haveria...). Meu namoro havia montado residência em um terreno arenoso que não parecia lhe dar as bases sólidas nas quais eu pudesse gozar de alguma tranquilidade, com rede na varanda e tudo mais. Absolutamente nunca estava tudo bem mesmo, sem ressalvas, sem uma mençãozinha sobre o que poderia ter sido melhor, algum comportamento por lapidar.


A partir desse ponto, eu nunca mais fui um só: saudade e claustrofobia, afeto e apatia, tesão e desdém. Num panorama tão desconexo talvez o tempo se encarregasse de pôr algum peso em um dos lados da balança para que eu também pendesse em alguma direção. Meu lado racional queria ir embora, pois o passar dos meses me mostravam que essa era a dinâmica constante do casal; mas minha intuição me mandava consertar a situação e não abandonar o navio. Nenhuma das vozes gritava mais alto e o que sobrava era uma balbúrdia incompreensível entre a perseverança e o cansaço. Os dias em que eu não fui embora nem tentei consertar nada se seguiam arrastados.


Cada dia que passa me reitera que estou mais próximo de protagonizar a letra de “Trocando em Miúdos”; já conto inclusive com a “leve impressão de que já vou tarde”. O mais estranho é isso: sabemos viver num momento de decisão, e já tendo tantas e tantas vezes pesado e sopesado tudo que nos é caro, continuamos silentes e intocados. Unidos por duas alianças de compromisso e uma eventual cama de casal; separados por tudo que não foi dito ou feito. Decerto creditamos a responsabilidade por nosso futuro a uma atitude do outro, apesar de não nos escapar esse engano. Aqui a perseverança não conta com foco ou diligência; não é virtude ou defeito; existe num limbo indiferente a alegrias ou decepções e os dias se vão como já aprenderam a fazer.


Hoje eu voltei no Madeleine sozinho e, enquanto o talentoso trio esmerilha solos numa miríade de notas, olho para a cadeira vazia ao meu lado e me conforto por estar cheia de música.

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