Eu estava em casa assistindo filme de terror com zumbi – uma respeitável
versão de um clássico do George Romero – enquanto devorava uma verdadeira bacia
de batatas fritas. Não as porcarias congeladas; batata de verdade mesmo, frente
às quais aqueles palitos friamente padronizados são tristes arremedos. E isso tudo
não me pôs para cima, então a coisa era séria. Difícil reconhecer que um
relacionamento está definhando enquanto ainda persistem sentimentos, mas
parecia de fato estar esgotado, e mesmo batatas fritas e adolescentes seminuas
cobertas de sangue de mentira não contemporizavam a crescente sensação de que
alcançáramos o ponto em que a desistência não é covardia, mas coragem.
Meses atrás, avisei-a sobre um show de jazz no Madeleine, um dos
melhores bares de São Paulo para apreciar música de primeira num ambiente
aconchegante e intimista. Após passar duas semanas cultivando uma barbicha e
tendo descolado um bonezinho com jeito de boina, eu estava pronto para o jazz
com o que considerei o equivalente a camiseta preta e jeans para um show de
rock. Chegada a hora, coloquei Full House,
de Wes Montgomery, no som capenga no meu carro capenga, e fui alegremente
encontrar minha namorada para o que seria, aos meus olhos, um baita de um
programa, enquanto batucava no volante do carro um acompanhamento alternativo
para o guitarrista.
Já no caminho para o Madeleine, achei que certa frieza de sua parte ameaçava
miseravelmente meu entusiasmo, e perguntei se estava tudo bem (por praxe
somente, sabendo de antemão que a resposta verdadeira não viria tão facilmente).
Não, senhor: se você quer saber se sua mulher está bem, há muitos caminhos, mas
perguntar não é um deles. O sentido da vida e a antimatéria são enigmas menos
desgastantes.
Após me responder “está tudo bem” sem ao menos tirar os olhos do
celular, segui pela pantanosa liturgia por qual todos os homens passam para
saber do que são acusados, já que somente então poderão pedir desculpas sem
estarem arrependidos, deixando mais uma ponta solta num relacionamento que irá
cobrar dessas displicências em algum momento. Ao menos agora eu sabia meu deslize:
ela não queria jazz nenhum.
Por que não falou com clareza que não queria ir? E se escolheu o
silêncio por todo aquele dia, por que não fazer a fineza de abraçar a ideia de
vez e tentar se divertir? Bom, primeiro, ela disse, porque eu havia recebido
muitas indiretas de onde se extrairia a falta de vontade, e, segundo, silenciou
porque viu meu entusiasmo e resolveu deixar o barco correr, mas àquela altura a
sensação de que eu não estava atento às suas vontades a incomodou demais e tudo
foi como foi. (Pergunto-me se os gays passam por isso às vezes, já que não
enfrentam a tormentosa psique feminina traduzindo tudo para o grego em tempo
real. Espero que passem, pois eu já invejo sua saudável promiscuidade; não acho
justo que também não discutam por bobagem).
Uma vez adiada minha noite musical, na volta para sua casa tentei
contextualizar tudo da melhor forma: expliquei como pude e ela aceitou como
quis. O importante é que eu reconhecia que essa havia sido uma discussão
pontual e que não merecia que eu lhe despendesse mais atenção. Verdade?
Mentira. Tínhamos discussões pontuais o tempo todo. Nada era sério e constante
como ciúmes ou problemas com dinheiro, mas havia uma sequência interminável de
rusgas, grãos de areia que, unidos, se acumulavam já como pedregulhos. Resolver
o presente não precavia o futuro, cuja salutar imprevisão havia sido desfeita
pela certeza de novas e bobas contendas.
Não vi alternativa que não dar meia volta com meu carro, prevendo as
delícias de algum seriado acompanhado de sorvete e silêncio. Ao invés disso,
chegando à sua casa, ela desceu do carro antes que eu pudesse dizer o que fosse,
e saiu batendo porta (nem sorvetinho haveria...). Meu namoro havia montado
residência em um terreno arenoso que não parecia lhe dar as bases sólidas nas
quais eu pudesse gozar de alguma tranquilidade, com rede na varanda e tudo mais.
Absolutamente nunca estava tudo bem mesmo, sem ressalvas, sem uma mençãozinha
sobre o que poderia ter sido melhor, algum comportamento por lapidar.
A partir desse ponto, eu nunca mais fui um só: saudade e claustrofobia,
afeto e apatia, tesão e desdém. Num panorama tão desconexo talvez o tempo se
encarregasse de pôr algum peso em um dos lados da balança para que eu também
pendesse em alguma direção. Meu lado racional queria ir embora, pois o passar
dos meses me mostravam que essa era a dinâmica constante do casal; mas minha
intuição me mandava consertar a situação e não abandonar o navio. Nenhuma das
vozes gritava mais alto e o que sobrava era uma balbúrdia incompreensível entre
a perseverança e o cansaço. Os dias em que eu não fui embora nem tentei
consertar nada se seguiam arrastados.
Cada dia que passa me reitera que estou mais próximo de protagonizar a
letra de “Trocando em Miúdos”; já conto inclusive com a “leve impressão de que
já vou tarde”. O mais estranho é isso: sabemos viver num momento de decisão, e
já tendo tantas e tantas vezes pesado e sopesado tudo que nos é caro, continuamos
silentes e intocados. Unidos por duas alianças de compromisso e uma eventual cama
de casal; separados por tudo que não foi dito ou feito. Decerto creditamos a
responsabilidade por nosso futuro a uma atitude do outro, apesar de não nos
escapar esse engano. Aqui a perseverança não conta com foco ou diligência; não
é virtude ou defeito; existe num limbo indiferente a alegrias ou decepções e os
dias se vão como já aprenderam a fazer.
Hoje eu voltei no Madeleine sozinho e, enquanto o talentoso trio esmerilha
solos numa miríade de notas, olho para a cadeira vazia ao meu lado e me
conforto por estar cheia de música.
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