Em parte por falta de opção, em
especial no início da adolescência, aprendi desde muito cedo a apreciar minha
própria companhia. Sou capaz até de rir sozinho das minhas próprias galhofas,
muitas vezes tendo a mim mesmo como alvo, já que minha consciência pesa demasiadamente
quando acavalho com os defeitos alheios. O politicamente incorreto pode estar
na moda, mas sigo detestando humor parasitário.
Essa introspecção já me rendeu, e
ainda me rende, uma infinidade de bons momentos, especialmente na música e na
leitura. Como dizia uma antiga professora de piano, a música, no mais das
vezes, é uma contentação insular. Ficamos nós e aquela infinidade de acordes e
ritmos, levando-nos a lugares que somente nós conheceremos, ainda que estejamos
dançando de bochechas coladas ou balançando a cabeça em meio a uma turba de
roqueiros desmiolados. Com o livro, então, é ainda mais fácil, pois um volume
aberto à altura do rosto é semelhante a uma plaquinha de “não perturbe” na
maçaneta; tornamo-nos ilhas autossuficientes de contentamento (especialmente se
soubermos evitar essa enxurragada de trilogias oportunistas sobre vampiros
emburradinhos ou moças pudicas que vão ao extase com o que daria sono na minha
filha de cinco anos).
A expressão “contentação insular” é
feliz também por remeter às praias pois, aprendidas as manhas de ler sem que a
brisa oceânica lhe furte a página certa, tem-se um dos ambientes mais
agradáveis para uma leitura. Veja-se como a felicidade pode ser alcançada com
poucos recursos: uma cadeira confortável, um guarda-sol, um livrinho legal e o
mundo que se exploda com suas urgências e vicissitudes. Não se tratando de
alguma praia isolada e edênica – chega de chamar toda praia bonita de
“paradisíaca”, certo? – o bom leitor deve estar com a capacidade de abstração
bem treinada, pois não faltará quem queira roubar-lhe seu momento.
O estraga-prazeres das praias, tal
qual um demônio bíblico, pode se apresentar nas formas mais variadas e
dissimuladas, mas terá sempre um objetivo: reivindicá-lo da companhia das
personagens e cenas para jogá-lo na indigesta realidade onde reinam pratinhos
de milho cozinho com margarina, óculos escuros de plástico espetados em placas
de isopor e imensos sacos de amendoim com casca carregados por vendedores cujas
aspirações não encontram paralelo (exceto, talvez, pelo vendedor de algodão
doce que se veste de Telletubbie –
que deus o ilumine).
O chato pode ser um vendedor de CDs,
atividade muito comum no nordeste. Trata-se de um excomungado que adapta um
caminho de mão para que receba em seu interior um tocador, duas caixas
acústicas e uma bateria de automóvel. Assim, pode vender seus CDs piratas para
os poucos que os apreciam enquanto perturba os muitos que nada fizeram para
merecer sua balbúrdia. Tente-se acompanhar a progressiva perda de ingenuidade
dos personagens balzaquianos tendo um funk proibidão ao fundo!...
Como o vendedor de CDs, haverá também
o porcão vendedor de milho cozido, já mencionado, mas que justifica novo
destaque. Se merece aplauso pela continência sonora de suas panelas e temperos,
por outro lado deixa um indesculpável rastro de sabugos e grãos amarelos, tão
testemunhas de sua falta de aptidão com a faca quanto de higiene profissional.
Longe de esgotar o assunto, registre-se o anacrônico hippie e seu sorriso de dentes testados nas condições mais
adversas, que oferece suas missangas e, se deixar, senta na sua barraca, fuma
seu cigarro, bebe sua cerveja e ainda discorda da sua opinião quanto à melhor
formação do Deep Purple. E, sim, o sujeitinho vil vai te chamar de brother, mas isso se dará principalmente
porque o disciplinado consumo de maconha por todos os anos que precederam seu
encontro com ele o impedem de guardar qualquer nome. Recomendo fazer uma breve
passagem por cada um dos possíveis estraga-prazeres para que seu aparecimento
não choque. Mas são dissimulados, também já avisei, e não há mantra que abarque
todos. Permitam-me exemplificar.
Eu estava lendo “A Luta Pela Alma dos
Beatles”, o primeiro livro jornalístico que me propus a ler, e estava gostando
bastante. O livro é grande e pesado; assim, para não forçar os ombros, apoiei
os cotovelos nos braços articulados da cadeira e fiquei com o livro bem em
frente ao rosto. Ficou cômodo e ainda quebrou o vento. Então ouvi um barulho
estranho, meio molhado, e baixei o livro. Era uma criança (não a imaginem ainda,
por favor, pois temos a mania de imaginá-las todas adoráveis, sorridentes e
barrigudinhas). Era um menino de uns três anos, bem feinho, meio estrábico,
magricelo e sisudo. Estava usando uma sunginha de super-heroi toda laceada e tinha
nas mãos um sorvete moribundo de morango que já havia desistido de ser lambido
e era vencido lentamente pelo sol inclemente, deixando lágrimas coloridas na
areia. Eu sorri para ele como todos fazemos, mesmo quando a criança é feia, e
voltei ao livro, que contava umas passagens sobre a gravação de Something.
Dali a pouco ouvi novo ruído, mas
esse eu conhecia. Era uma fungada e, pelo volume, o guri era um profissional.
Quando baixei o livro pela segunda vez, ele tinha algo saindo do nariz que se
mesclava hediondamente com o sorvete babado em volta dos lábios finos e mal
humorados, deixando pender em seu queixo uma estalactite de corantes,
espessantes e muco que chegava quase à altura de seu umbigo, mas não se
desprendia. Ficava lá, balançando com o vento.
Olhei para os lados para identificar
a barraca dos seus pais, mas ninguém dava nenhuma dica de ser o proprietário do
bichinho. Dei-me conta de que não havia lhe dirigido nenhuma palavra e
perguntei, renovando o sorriso que já havia guardado, onde estariam seu papai e
sua mamãe. Ele continuou me olhando com a mesma cara, como se nem me
entendesse, e manteve a postura quando reiterei a pergunta outras vezes, ora com
mais autoridade, ora com mais afeição.
Não estava pronto para aquele tipo de
chato; confesso que me pegou desprevenido. Fechei meu livro com um baque de
resignação e fiquei esperando o moleque enjoar de mim. Mas ele sentou e começou
a encher a sunga de areia. Eu avisei sobre infecções urinárias, mas ele deu de
ombros. Essa parte até que não foi não chata; fiquei surpreso com o tanto de
areia que ele conseguiu colocar da sunguinha e entendi na hora porque estava
tão laceada. O Homem de Ferro desenhado na frente, de tão esticado, estava
irreconhecível.
Então uma moça veio caminhando em nossa
direção. Ao menos era o que parecia. Era muito mais bonita do que o necessário
para um homem fazer papel de bobo. Seus cabelos negros e pele dourada
contrastavam dolorosamente bem com o tímido biquíni branco, e eu teria mais
observações a seu respeito se me perguntassem.
- Ah, então foi para cá que você
fugiu, Richard – falou para o menino. Pensei comigo sobre a improbabilidade de
aquele ratinho se chamar Richard e sorri.
- Puxa, desculpe pelo meu filho. Ele
vive fugindo... – dirigiu-se a mim.
- Bobagem!... Estamos aqui
conversando, né, Richard? – Ele continuava quieto.
- Ah, que bom... Você se incomoda em
ficar com ele só mais um pouquinho, enquanto eu dou um mergulhinho rápido? A
gente já vai embora, tá bom, Richard?
Assenti com a cabeça e assisti a moça
se distanciando. Ela também ia embora muito bem com seu biquíni. Fiquei
olhando-a entrando no mar e se banhando no raso enquanto imagens automáticas
envolvendo nós dois me apareciam na cabeça de forma automática: jantar romântico,
serenata, a cena da geladeira do “9 e ½ Semanas de Amor”, e por aí vai. Ela
voltou e eles se foram em seguida. Acabei até ajudando a limpar aquele pequeno
leitão, de quem ninguém conseguiu tirar uma palavra que fosse. Meu livro voltou
com um pouco de areia e meio grudento.
Enfim, são dissimulados os
estraga-prazeres. Claro que passei a levar para a praia
uma sacolinha para proteger o livro da vez de eventuais “Richards”, mas estou
me enganando. Os chatos vencerão. Não sem alguma resistência, mas vencerão porque
nós não somos chatos como eles. Nossa dignidade nos arruina.
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