terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Contentação Insular



Em parte por falta de opção, em especial no início da adolescência, aprendi desde muito cedo a apreciar minha própria companhia. Sou capaz até de rir sozinho das minhas próprias galhofas, muitas vezes tendo a mim mesmo como alvo, já que minha consciência pesa demasiadamente quando acavalho com os defeitos alheios. O politicamente incorreto pode estar na moda, mas sigo detestando humor parasitário.


Essa introspecção já me rendeu, e ainda me rende, uma infinidade de bons momentos, especialmente na música e na leitura. Como dizia uma antiga professora de piano, a música, no mais das vezes, é uma contentação insular. Ficamos nós e aquela infinidade de acordes e ritmos, levando-nos a lugares que somente nós conheceremos, ainda que estejamos dançando de bochechas coladas ou balançando a cabeça em meio a uma turba de roqueiros desmiolados. Com o livro, então, é ainda mais fácil, pois um volume aberto à altura do rosto é semelhante a uma plaquinha de “não perturbe” na maçaneta; tornamo-nos ilhas autossuficientes de contentamento (especialmente se soubermos evitar essa enxurragada de trilogias oportunistas sobre vampiros emburradinhos ou moças pudicas que vão ao extase com o que daria sono na minha filha de cinco anos).


A expressão “contentação insular” é feliz também por remeter às praias pois, aprendidas as manhas de ler sem que a brisa oceânica lhe furte a página certa, tem-se um dos ambientes mais agradáveis para uma leitura. Veja-se como a felicidade pode ser alcançada com poucos recursos: uma cadeira confortável, um guarda-sol, um livrinho legal e o mundo que se exploda com suas urgências e vicissitudes. Não se tratando de alguma praia isolada e edênica – chega de chamar toda praia bonita de “paradisíaca”, certo? – o bom leitor deve estar com a capacidade de abstração bem treinada, pois não faltará quem queira roubar-lhe seu momento.


O estraga-prazeres das praias, tal qual um demônio bíblico, pode se apresentar nas formas mais variadas e dissimuladas, mas terá sempre um objetivo: reivindicá-lo da companhia das personagens e cenas para jogá-lo na indigesta realidade onde reinam pratinhos de milho cozinho com margarina, óculos escuros de plástico espetados em placas de isopor e imensos sacos de amendoim com casca carregados por vendedores cujas aspirações não encontram paralelo (exceto, talvez, pelo vendedor de algodão doce que se veste de Telletubbie – que deus o ilumine).


O chato pode ser um vendedor de CDs, atividade muito comum no nordeste. Trata-se de um excomungado que adapta um caminho de mão para que receba em seu interior um tocador, duas caixas acústicas e uma bateria de automóvel. Assim, pode vender seus CDs piratas para os poucos que os apreciam enquanto perturba os muitos que nada fizeram para merecer sua balbúrdia. Tente-se acompanhar a progressiva perda de ingenuidade dos personagens balzaquianos tendo um funk proibidão ao fundo!...


Como o vendedor de CDs, haverá também o porcão vendedor de milho cozido, já mencionado, mas que justifica novo destaque. Se merece aplauso pela continência sonora de suas panelas e temperos, por outro lado deixa um indesculpável rastro de sabugos e grãos amarelos, tão testemunhas de sua falta de aptidão com a faca quanto de higiene profissional. Longe de esgotar o assunto, registre-se o anacrônico hippie e seu sorriso de dentes testados nas condições mais adversas, que oferece suas missangas e, se deixar, senta na sua barraca, fuma seu cigarro, bebe sua cerveja e ainda discorda da sua opinião quanto à melhor formação do Deep Purple. E, sim, o sujeitinho vil vai te chamar de brother, mas isso se dará principalmente porque o disciplinado consumo de maconha por todos os anos que precederam seu encontro com ele o impedem de guardar qualquer nome. Recomendo fazer uma breve passagem por cada um dos possíveis estraga-prazeres para que seu aparecimento não choque. Mas são dissimulados, também já avisei, e não há mantra que abarque todos. Permitam-me exemplificar.


Eu estava lendo “A Luta Pela Alma dos Beatles”, o primeiro livro jornalístico que me propus a ler, e estava gostando bastante. O livro é grande e pesado; assim, para não forçar os ombros, apoiei os cotovelos nos braços articulados da cadeira e fiquei com o livro bem em frente ao rosto. Ficou cômodo e ainda quebrou o vento. Então ouvi um barulho estranho, meio molhado, e baixei o livro. Era uma criança (não a imaginem ainda, por favor, pois temos a mania de imaginá-las todas adoráveis, sorridentes e barrigudinhas). Era um menino de uns três anos, bem feinho, meio estrábico, magricelo e sisudo. Estava usando uma sunginha de super-heroi toda laceada e tinha nas mãos um sorvete moribundo de morango que já havia desistido de ser lambido e era vencido lentamente pelo sol inclemente, deixando lágrimas coloridas na areia. Eu sorri para ele como todos fazemos, mesmo quando a criança é feia, e voltei ao livro, que contava umas passagens sobre a gravação de Something.


Dali a pouco ouvi novo ruído, mas esse eu conhecia. Era uma fungada e, pelo volume, o guri era um profissional. Quando baixei o livro pela segunda vez, ele tinha algo saindo do nariz que se mesclava hediondamente com o sorvete babado em volta dos lábios finos e mal humorados, deixando pender em seu queixo uma estalactite de corantes, espessantes e muco que chegava quase à altura de seu umbigo, mas não se desprendia. Ficava lá, balançando com o vento.


Olhei para os lados para identificar a barraca dos seus pais, mas ninguém dava nenhuma dica de ser o proprietário do bichinho. Dei-me conta de que não havia lhe dirigido nenhuma palavra e perguntei, renovando o sorriso que já havia guardado, onde estariam seu papai e sua mamãe. Ele continuou me olhando com a mesma cara, como se nem me entendesse, e manteve a postura quando reiterei a pergunta outras vezes, ora com mais autoridade, ora com mais afeição.


Não estava pronto para aquele tipo de chato; confesso que me pegou desprevenido. Fechei meu livro com um baque de resignação e fiquei esperando o moleque enjoar de mim. Mas ele sentou e começou a encher a sunga de areia. Eu avisei sobre infecções urinárias, mas ele deu de ombros. Essa parte até que não foi não chata; fiquei surpreso com o tanto de areia que ele conseguiu colocar da sunguinha e entendi na hora porque estava tão laceada. O Homem de Ferro desenhado na frente, de tão esticado, estava irreconhecível.


Então uma moça veio caminhando em nossa direção. Ao menos era o que parecia. Era muito mais bonita do que o necessário para um homem fazer papel de bobo. Seus cabelos negros e pele dourada contrastavam dolorosamente bem com o tímido biquíni branco, e eu teria mais observações a seu respeito se me perguntassem.


- Ah, então foi para cá que você fugiu, Richard – falou para o menino. Pensei comigo sobre a improbabilidade de aquele ratinho se chamar Richard e sorri.

- Puxa, desculpe pelo meu filho. Ele vive fugindo... – dirigiu-se a mim.

- Bobagem!... Estamos aqui conversando, né, Richard? – Ele continuava quieto.

- Ah, que bom... Você se incomoda em ficar com ele só mais um pouquinho, enquanto eu dou um mergulhinho rápido? A gente já vai embora, tá bom, Richard?


Assenti com a cabeça e assisti a moça se distanciando. Ela também ia embora muito bem com seu biquíni. Fiquei olhando-a entrando no mar e se banhando no raso enquanto imagens automáticas envolvendo nós dois me apareciam na cabeça de forma automática: jantar romântico, serenata, a cena da geladeira do “9 e ½ Semanas de Amor”, e por aí vai. Ela voltou e eles se foram em seguida. Acabei até ajudando a limpar aquele pequeno leitão, de quem ninguém conseguiu tirar uma palavra que fosse. Meu livro voltou com um pouco de areia e meio grudento.


Enfim, são dissimulados os estraga-prazeres. Claro que passei a levar para a praia uma sacolinha para proteger o livro da vez de eventuais “Richards”, mas estou me enganando. Os chatos vencerão. Não sem alguma resistência, mas vencerão porque nós não somos chatos como eles. Nossa dignidade nos arruina.

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