quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Ensimesmado - Parte 1



Sou, definitivamente, um orador solitário, ou, como Lars Von Trier definiria com muito mais propriedade, um dancer in the dark. Se me ocupo de tarefas mecânicas, ou quando não me ocupo e pronto, é regra ver-me desfiando opiniões e teses na cabeça como se houvesse quem desse a mínima. Nunca há, mas eu sigo entusiasmado da mesma forma até o final (se eu me concentro bastante, até respondo algumas perguntas ao final e ouço aplausos). Acredito, contudo, que a situação atual escusa exercício tão improdutivo. O passar dessas minhas horas já foi ocupado com origami de papel higiênico, boliche de sabonete líquido e poesia com batom no espelho. Tudo para que eu não regresse ao entediante ponto de partida, onde minha cabeça batia repetidamente na parede enquanto, de olhos cerrados, eu repetia o mantra “fodeu”, que, saliente-se, guarda muito em temática com a poesia de batom onde se lê “não tem ninguém aqui; dessa vez eu me fodi”.

Explico-me. Hoje é sábado, começo da tarde, e estou trancado no lavabo da minha casa há seis horas, desde que, ao tentar sair dele após um inocente xixizinho, quebrei a chave no tambor da fechadura. O branco predominante de paredes e louças, um suporte de papel higiênico com umas poucas e muito bregas flores mal bordadas, uma janela tão emperrada que a apelidei de Excalibur: tudo isso forma a paisagem ilusoriamente serena do meu infortúnio. Moro com dois filhos, que, a essa altura, devem estar muito satisfeitos e entretidos no Hopi Hari, aquele parque de nenhuma diversão em Vinhedo, interior de São Paulo, de onde não voltarão com os avós até o começo da noite de amanhã. A ideia de esperar em filas que se perdem no horizonte debaixo de sol para depois ser sacolejado e arremessado em máquinas de um lado para o outro enquanto outras pessoas gritam desesperadas e tentam se convencer de que aquilo tudo é muito bacana não coincide com minha noção de diversão, então eu não fui junto. Claro que um final de semana em lavabo de segurança máxima é muito pior, mas conto com a atenuante da involuntariedade.

Daqui a pouco devo decidir entre o cisne e o barco, ambos de papel, pois um deles sucumbirá para que eu possa, nos dizeres eufemísticos do Mandrake de Ruben Fonseca, desonerar meus intestinos sem abrir mão de um mínimo de dignidade. Creio que será o barco; ele não fez amizade com o sapo de papel mesmo, então ninguém vai sentir sua falta. Além disso, o cisne foi feito com pouco papel e as alheiras que eu comi ontem à noite com cerveja de trigo assistindo “Laranja Mecânica” de novo não me caíram nada bem – e não devem se entregar sem luta. Honestamente, elas nunca caem bem, mas alguns desígnios são insondáveis; ainda comerei alheiras nas madrugada – e seu for na companhia do Stanley Kubrick, tanto melhor.

O chão está frio e não há posição neste banheirinho em que eu possa esticar as pernas (ah, a mensagem do espelho soa mais verdadeira a cada segundo...). Viver num amálgama de “Esqueceram de Mim” com “127 Horas” tem se mostrado uma experiência patética e cansativa. Manterei a calma, ao menos por hora, pois ainda faltam em torno de vinte e oito horas para que eles retornem e meus ombros ainda doem das vãs tentativas de arrombamento. Sejamos, pois, racionais: até lá, sede não será problema – há a pia –, e mesmo a falta de posição para o sono será contornável, bastando que eu deite no chão e coloque minhas pernas sobre o sanitário, numa posição com algo de ginecológico, mas terá de servir. Pior será usar uma toalha de rosto como cobertor.

Sobre a fome, acredito e espero que papel higiênico seja atóxico, deve trazer alguma saciedade e não vai causar mais estragos que as alheiras. Fome, sede e sono estão, assim, administrados. A solidão e o isolamento poderiam, estes sim, serem um problema para muita gente, mas não para mim. Assim como a lingerie, os filmes de terror e o preparo de acarajé, a solidão é também subestimada. Ensimesmar-se é tão bom que tem até verbo para isso, ainda que esteja em tanto desuso quanto sua prática. Hoje, quem se ensimesma não o faz honestamente, fica sempre ligado em algo, e não digo metaforicamente. São aparelhos de MP3, smartphones, tudo parece querer nos roubar de nós mesmos... o que as pessoas precisam hoje em dia é ficarem presas no lavabo.

Isso me lembra um filme do Buñuel, “O Anjo Exterminador”, em que uns burgueses chatos ficam presos sem motivo aparente numa sala de jantar e aos poucos sua polida urbanidade cede a uma humanidade embaraçosa e visceral. Péssimo exemplo para quem quer exaltar o “estar só”, mas ótimo filme de qualquer forma. Puxa, como eu gostaria de estar com o meu celular agora. Ele também passa filmes e tem uma cópia da “Bela da Tarde” nele. Não há dúvida de que a Catherine Deneuve seria uma companhia muito mais reconfortante que o meu sapo de papel, que nunca terá a chance de se prostituir por tédio, principalmente se ainda houver ainda algum traço de alheira revoltando-me as tripas, o que é provável. Pobre batráquio, não sabe o que o espera (ele estava de costas quando há pouco seu colega cisne involuiu ao patinho mais feio e amassado que a descarga já viu).

Por falar em Catherine Deneuve, talvez nessas vinte e tantas horas de cárcere haja oportunidade – e ânimo – para uma masturbadinha. O barco de origami servirá para arrumar eventual confusão, não esqueçamos, mas uma certa racionalização no uso do papel higiênico se faz necessária. Ele aqui também é comida, e talvez travesseiro. Enfim, terei eu perseverança o suficiente para erotizar episódio tão dramaticamente ridículo? Se me conheço, é quase certo que sim; a preguiça é ameaça mais séria à minha libido do que a autocrítica.

Queria saber meditar para aproveitar melhor tanto ócio. Ou ter algo para ler, ao menos. Onde já se viu lavabo sem revista? Sou um péssimo anfitrião. Quantos convidados já devem ter feito seu cocozinho sem nada que os entretivesse que não fosse limo de rejunte. Definitivamente, algo a ser corrigido com Superinteressante, Maurício de Sousa e, só para fazer graça, um James Joyce – Ulisses, de preferência – em que ninguém vai encostar nunca. Talvez se torne o esconderijo de revista de mulher pelada do meu filho, quando crescer (quando eu era moleque, escondia revista de sacanagem no meio da Barsa e nunca fui descoberto).

Tudo por causa de uma chave quebrada na porta de lavabo. Nunca vi lavabo com chave; geralmente é aquele trinquinho que só se aciona por dentro. Comprar casa velha dá nisso, mas podia ser pior. Numa das casas que visitei durante a pesquisa de compra desta em cujo banheiro ora me confino, conheci uma que tinha lustre no lavabo. Sério, um lustre de pendurar com cristaizinhos e tudo. E acarpetado. De gosto incomensurável, mas aconchegante para quem fica preso, pois parecia um salinha. Estou divagando demais, tenho consciência, mas em nada mais posso empregar meu tempo. Se houvesse um pouco mais de espaço para tomar embalo, talvez pudesse botar essa maldita porta abaixo, mas aqui não há forma. E a janela Excalibur não viu em mim seu Rei Arthur, já fiz o que pude também. O espelho é que está certo, dessa vez foi aquilo mesmo. E você vá rezando sapinho, que estou começando com umas cólicas. Melhor dormir.

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