Sou,
definitivamente, um orador solitário, ou, como Lars Von Trier definiria com
muito mais propriedade, um dancer in the dark. Se me ocupo de tarefas
mecânicas, ou quando não me ocupo e pronto, é regra ver-me desfiando opiniões e
teses na cabeça como se houvesse quem desse a mínima. Nunca há, mas eu sigo
entusiasmado da mesma forma até o final (se eu me concentro bastante, até
respondo algumas perguntas ao final e ouço aplausos). Acredito, contudo, que a
situação atual escusa exercício tão improdutivo. O passar dessas minhas horas
já foi ocupado com origami de papel higiênico, boliche de sabonete
líquido e poesia com batom no espelho. Tudo para que eu não regresse ao
entediante ponto de partida, onde minha cabeça batia repetidamente na parede
enquanto, de olhos cerrados, eu repetia o mantra “fodeu”, que, saliente-se,
guarda muito em temática com a poesia de batom onde se lê “não tem ninguém
aqui; dessa vez eu me fodi”.
Explico-me. Hoje
é sábado, começo da tarde, e estou trancado no lavabo da minha casa há seis
horas, desde que, ao tentar sair dele após um inocente xixizinho, quebrei a
chave no tambor da fechadura. O branco predominante de paredes e louças, um
suporte de papel higiênico com umas poucas e muito bregas flores mal bordadas,
uma janela tão emperrada que a apelidei de Excalibur: tudo isso forma a
paisagem ilusoriamente serena do meu infortúnio. Moro com dois filhos, que, a
essa altura, devem estar muito satisfeitos e entretidos no Hopi Hari, aquele
parque de nenhuma diversão em Vinhedo, interior de São Paulo, de onde não
voltarão com os avós até o começo da noite de amanhã. A ideia de esperar em
filas que se perdem no horizonte debaixo de sol para depois ser sacolejado e
arremessado em máquinas de um lado para o outro enquanto outras pessoas gritam
desesperadas e tentam se convencer de que aquilo tudo é muito bacana não
coincide com minha noção de diversão, então eu não fui junto. Claro que um
final de semana em lavabo de segurança máxima é muito pior, mas conto com a
atenuante da involuntariedade.
Daqui a pouco
devo decidir entre o cisne e o barco, ambos de papel, pois um deles sucumbirá
para que eu possa, nos dizeres eufemísticos do Mandrake de Ruben Fonseca,
desonerar meus intestinos sem abrir mão de um mínimo de dignidade. Creio que
será o barco; ele não fez amizade com o sapo de papel mesmo, então ninguém vai
sentir sua falta. Além disso, o cisne foi feito com pouco papel e as alheiras
que eu comi ontem à noite com cerveja de trigo assistindo “Laranja Mecânica” de
novo não me caíram nada bem – e não devem se entregar sem luta. Honestamente,
elas nunca caem bem, mas alguns desígnios são insondáveis; ainda comerei
alheiras nas madrugada – e seu for na companhia do Stanley Kubrick, tanto
melhor.
O chão está frio
e não há posição neste banheirinho em que eu possa esticar as pernas (ah, a
mensagem do espelho soa mais verdadeira a cada segundo...). Viver num amálgama
de “Esqueceram de Mim” com “127 Horas” tem se mostrado uma experiência patética
e cansativa. Manterei a calma, ao menos por hora, pois ainda faltam em torno de
vinte e oito horas para que eles retornem e meus ombros ainda doem das vãs
tentativas de arrombamento. Sejamos, pois, racionais: até lá, sede não será
problema – há a pia –, e mesmo a falta de posição para o sono será contornável,
bastando que eu deite no chão e coloque minhas pernas sobre o sanitário, numa
posição com algo de ginecológico, mas terá de servir. Pior será usar uma toalha
de rosto como cobertor.
Sobre a fome,
acredito e espero que papel higiênico seja atóxico, deve trazer alguma
saciedade e não vai causar mais estragos que as alheiras. Fome, sede e sono
estão, assim, administrados. A solidão e o isolamento poderiam, estes sim,
serem um problema para muita gente, mas não para mim. Assim como a lingerie,
os filmes de terror e o preparo de acarajé, a solidão é também subestimada.
Ensimesmar-se é tão bom que tem até verbo para isso, ainda que esteja em tanto
desuso quanto sua prática. Hoje, quem se ensimesma não o faz honestamente, fica
sempre ligado em algo, e não digo metaforicamente. São aparelhos de MP3, smartphones,
tudo parece querer nos roubar de nós mesmos... o que as pessoas precisam hoje
em dia é ficarem presas no lavabo.
Isso me lembra
um filme do Buñuel, “O Anjo Exterminador”, em que uns burgueses chatos ficam
presos sem motivo aparente numa sala de jantar e aos poucos sua polida
urbanidade cede a uma humanidade embaraçosa e visceral. Péssimo exemplo para
quem quer exaltar o “estar só”, mas ótimo filme de qualquer forma. Puxa, como
eu gostaria de estar com o meu celular agora. Ele também passa filmes e tem uma
cópia da “Bela da Tarde” nele. Não há dúvida de que a Catherine Deneuve seria
uma companhia muito mais reconfortante que o meu sapo de papel, que nunca terá
a chance de se prostituir por tédio, principalmente se ainda houver ainda algum
traço de alheira revoltando-me as tripas, o que é provável. Pobre batráquio,
não sabe o que o espera (ele estava de costas quando há pouco seu colega cisne
involuiu ao patinho mais feio e amassado que a descarga já viu).
Por falar em
Catherine Deneuve, talvez nessas vinte e tantas horas de cárcere haja
oportunidade – e ânimo – para uma masturbadinha. O barco de origami servirá
para arrumar eventual confusão, não esqueçamos, mas uma certa racionalização no
uso do papel higiênico se faz necessária. Ele aqui também é comida, e talvez
travesseiro. Enfim, terei eu perseverança o suficiente para erotizar episódio
tão dramaticamente ridículo? Se me conheço, é quase certo que sim; a preguiça é
ameaça mais séria à minha libido do que a autocrítica.
Queria saber
meditar para aproveitar melhor tanto ócio. Ou ter algo para ler, ao menos. Onde
já se viu lavabo sem revista? Sou um péssimo anfitrião. Quantos convidados já
devem ter feito seu cocozinho sem nada que os entretivesse que não fosse limo de
rejunte. Definitivamente, algo a ser corrigido com Superinteressante, Maurício
de Sousa e, só para fazer graça, um James Joyce – Ulisses, de preferência – em
que ninguém vai encostar nunca. Talvez se torne o esconderijo de revista de
mulher pelada do meu filho, quando crescer (quando eu era moleque, escondia
revista de sacanagem no meio da Barsa e nunca fui descoberto).
Tudo por causa
de uma chave quebrada na porta de lavabo. Nunca vi lavabo com chave; geralmente
é aquele trinquinho que só se aciona por dentro. Comprar casa velha dá nisso,
mas podia ser pior. Numa das casas que visitei durante a pesquisa de compra
desta em cujo banheiro ora me confino, conheci uma que tinha lustre no lavabo.
Sério, um lustre de pendurar com cristaizinhos e tudo. E acarpetado. De gosto
incomensurável, mas aconchegante para quem fica preso, pois parecia um salinha.
Estou divagando demais, tenho consciência, mas em nada mais posso empregar meu
tempo. Se houvesse um pouco mais de espaço para tomar embalo, talvez pudesse
botar essa maldita porta abaixo, mas aqui não há forma. E a janela Excalibur
não viu em mim seu Rei Arthur, já fiz o que pude também. O espelho é que está
certo, dessa vez foi aquilo mesmo. E você vá rezando sapinho, que estou
começando com umas cólicas. Melhor dormir.
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