terça-feira, 25 de março de 2014

InAtividade



Assim que acordou naquele sábado, novamente após uma noite mal dormida e ainda de olhos fechados, foi preguiçosamente tateando o criado-mudo até alcançar seu smartphone, que ficou a noite toda ligado no carregador. Após desconectá-lo habilmente com uma só mão, num movimento aprimorado pela repetição diária, tomou-o em frente ao rosto e a luminosidade da touchscreen foi a primeira a lhe alcançar a face e trazer as mensagens eletrônicas ainda não lidas, além dos posts de seus amigos virtuais. Mensagens filosóficas com fundos coloridos, denúncias vagas sobre política e fotos de cachorro. Dificilmente se deixava tocar pelo que via nas redes sociais, mas o ritual seguia imune a essa verdade.
Escovou os dentes e se vestiu quase indiferente ao espelho; atenção voltada para a televisão cujo jornal matutino informava sobre notícias políticas, trazendo uma sensação de indignação e mesmice atenuadas pela suavidade inerente ao horário. Já na cozinha, preparou um enorme cappuccino gelado ao som do radio, revezando estações de música e notícia sempre que os comerciais ameaçavam roubar-lhe a distração.
Sábado, como dia de descanso que é, geralmente tem sua manhã ocupada pela leitura de um livro até a hora do almoço, cujo preparo seria resumido ao trânsito de uma lasanha congelada do freezer para o micro-ondas. Após uma pausa para refeição de sete minutos aproximados, e já sem ânimo para ler, a vontade de sair de casa levou à ideia de ir ao cinema para um filme no comecinho da tarde; não sem antes munir-se de um milk-shake suficiente para duas ou três pessoas.
Após comprar o ingresso de meia entrada com um documento falsificado, um sanduíche desejado desde a propaganda televisiva lhe fez companhia enquanto avisava seus amigos virtuais de que estava para entrar numa sala de cinema daquele shopping, que, apesar de ser perto de seu apartamento, justificou o uso do automóvel financiado. O filme dessa semana foi um ótimo drama sobre relações familiares, o que permitiu que, já de volta ao lar, alimentasse seu blog de cinema sobre suas impressões, minuciosamente apreciadas.
Cansou-se, então, de ter um teto sobre sua cabeça o tempo todo e resolveu convidar um amigo para ir até o parque, atendendo enfim ao convite que o sol lhe dirigia desde o início da manhã. O dia estava mesmo bonito e o amigo topou, levando-os a passar um bom tempo conversando sobre assuntos amenos e não tão amenos enquanto andaram pelas alamedas. Em dado momento voltaram suas atenções para o planejamento da noite que não tardaria a chegar. Mais alguns telefonemas e formaram um grupo de duas moças e três rapazes, que escolheram uma danceteria da região da Rua Augusta para aplacar a vontade de rir/dançar/beijar, mesmo reconhecendo que aquele tipo de diversão não brilharia tanto sem o sólido alicerce de algumas pints de cervejas variadas.
Já na pista de dança, ainda perto de seus amigos, cruzou seu olhar com o de outra pessoa e imediatamente se desejaram. A conversa que precedeu o primeiro beijo foi meramente protocolar e bastante dificultada pelo volume da música eletrônica. Desse ponto em diante, as pints passaram a ser compatilhadas pelos dois. Os beijos foram seguidos de explorações mais ávidas, cujo avançar tornava a danceteria um local progressivamente inadequado. Eles não se lembrarão, mas um deles fez o convite para que pudessem se ter de forma mais íntima, e assim foram-se para um motel, contando novamente com aplicativos do smartphone para evitar qualquer blitz policial no caminho.
Desconhecidos em um motel podem passar da euforia à catarse em velocidade surpreendente, confundindo a lembrança da noite divertida que já se encerrava murcha, pois a flor d’água que, enfim, somos nós, já estará repleta de sentimentos outros que já não darão vez ao desejo. Mãos dadas se soltam e urbanidade e cortesia passam a ocupar o espaço há pouco aquecido por corpos frenéticos – agora um passado improvável. Despedidas e a volta ao apartamento.
Apesar de tanta aventura, nada de sono ou fome. A opção pela cama e o silêncio é tomada para saciar um tipo incerto de cansaço, mas cuja intensidade só faz crescer. Sequer saberia dizer se está feliz ou triste, mas esse questionamento não chegará a ser feito; seus dias são tão preenchidos justamente para que esse tipo de introspecção não ocorra. Manter-se em ocupação o tempo todo, ainda que de forma rica e variada, não ensina a desfrutar da quietude interna, e, dessa forma, o leito macio se torna incômodo e desconsolativo. Suas pálpebras cobrem seus olhos, mas é como se não o fizessem; uma profunda sensação de incompletude toma seu corpo e mente, impedindo o sono que, heroico, impediria tanta reflexão.
Para essa e tantas outras aflições, a farmacologia oferecerá alívio, que, engolido num gole d’água, corrigirá essa agitação e forçará o descanso, amordaçando qualquer mensagem que seu inconsciente espere ter ouvida.
Mas só até amanhã.

terça-feira, 18 de março de 2014

Tempos de Fé



Eu tinha cinco anos. Ensinaram-me que não devia correr no chão encerado; que precisava escovar os dentes antes de dormir; proibiram-me de rir dos defeitos ou particularidades das outras crianças na escola. Era tudo verdade. As corridas na sala encerada renderam-me galos e escoriações diversas; fui ao dentista vezes bastantes para dar por justificada a fobia do zunido da broca; fiquei, enfim, cabisbaixo como um ultrarromântico quando a menininha dona dos meus primeiros suspiros chamou-me de quatro olhos. Consolidava-se a certeza inconfessável de que meus pais eram sábios a serem seguidos, afinal já estavam neste mundo há uma eternidade e eu invariavelmente pagava o preço por desafiar suas asseverações. Foi nesse período, o da apresentação das verdades inabaláveis e dolorosamente empíricas, que me apresentaram a Deus, um homem, ao mesmo tempo austero e terno, que morava no céu, via tudo que eu fazia e me amava muito, apesar de nunca falar comigo.

Eu tinha quinze anos. Não só já havia concluído que fui precipitado quanto à sabedoria plena dos meus pais, como os tinha por pessoas sem tato cujas palavras soavam embaraçosas com frequência. No mais, gostava de “Che” Guevara porque pegava mal não gostar e, incongruente como nunca mais consegui ser, aceitava tudo com uma demão de questionamento e rebeldia por cima – e Deus não ficou de fora. A morte não me era mais estranha, já tendo abarcado desde animais domésticos queridos a parentes distantes. A primeira comunhão era uma memória relativamente recente e as poucas missas compulsoriamente assistidas cumpriam seu papel de me afastar ainda mais da religião.

Eu tinha vinte e dois anos. Apresentado aos botecos e conversas que somente lá se engendram, nunca mais fui embora. Não transei nem metade do que suplicavam meus hormônios e a iminência de um namoro sério me sussurrava que talvez fosse tarde demais para viabilizar essas urgências. Meu corpo era forte e eu não convivia com ninguém que não fosse da minha geração. A morte, talvez por isso, não era assunto e, sem medo dela, Deus resumiu-se numa única – porém sincera – oração antes de dormir.

Eu tinha vinte e oito anos. Já conseguia dizer que não era cristão sem receio de que um raio me acertasse a cabeça, aproveitando também para rachar o chão e me jogar no mais profundo círculo do inferno, onde Virgílio apontaria para mim e mostraria a Dante o que acontece com quem se mete a besta. Continuei acreditando em Deus (algum Deus) simplesmente porque não conseguia conceber uma criação sem criador, e o fato de dividir esse mistério com o resto do mundo tornava o insolúvel aceitável.

Eu tinha trinta anos. Quem diz que a natureza é perfeita só pode ser ingênuo ou desatento. Parando em um só exemplo, as salas de UTI pré-natal desmentem com eloquência essa fantasia. O mundo é um lugar onde o mal impune convive com o abnegado altruísmo, e muitas vezes convivem no mesmo agente; há quem pague preços altíssimos por faltas que desconhecem; há quem passeie incólume pelas torpezas a que dá causa. Somos, enfim, um barco perdido ao sabor de incerta corrente. A gratuidade parece ser o valor máximo no qual tudo se baseia, só nos restando torcer para não sermos apresentados a injustiças abissais como doenças neurológicas. Reconheci-me como ateu.

Tenho trinta e seis anos e ainda sou devoto da gratuidade. O livro “Quando Coisas Ruins Acontecem Com As Pessoas Boas” enche meu realismo (pessimismo?) de casos e alicerces, desde que eu omita a atraente conclusão do autor desse livro, um rabino bastante esclarecido para um sacerdote. Já não caibo, contudo, no ateísmo. A presença dos meus filhos esmagou a rigidez do meu ceticismo (conquanto persista), fazendo-me reconhecer um sentimento do qual não consigo – e já nem quero – desvencilhar-me. Uma profunda gratidão pelo que eu tenho, mesmo sem saber a quem devo ser grato, nem entender porque filhos perfeitos não são um sonho alcançável por qualquer um que os pretenda ter.

Para o raciocínio e segue a intuição. Se é assim, há alguém sobre quem não entendo nada, mas que existe. Sou grato a “sabe Deus quem”, mas sou grato.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Respostas Intempestivas



A infância, mesmo em seu final, é uma época em que a relação de custo-benefício é ignorada. Melhor assim, pois, se não fosse, eu teria me arrependido por ter atazanado tanto meus pais para que me comprassem um Adidas de cano alto que pareceria um calçado de astronauta se não fossem suas listras bordô e verde, além de uma língua desproporcionalmente grande que quase a transformava numa caneleira. Esse arrependimento viria do fato de que ninguém havia elogiado (ou mesmo notado) aqueles gigantes coloridos no primeiro dia de aula da quinta séria que se iniciava, mesmo que eu tivesse colocado aquela linguona por cima da calça para destacá-la. Ao menos ele havia sido mais caro do que o tênis do meu irmão mais velho e – suprema satisfação – ele sabia disso.

Não tardou para que a multidão efervescente de crianças vestidas de azul e branco tivesse sua algazarra randômica interrompida pelo único ruído capaz de sobrepujá-la: o alarme cujo espalhafato servia para anunciar o começo e o final de tudo: de aulas a intervalos, de anúncios a simulações de incêndio (nesse último caso, tão pertinente quanto placas de trânsito que avisam onde estão os radares de autoestrada). Como bichinhos treinados, todos deixaram o pátio e foram correndo rumo às muitas escadarias como nuvens de gafanhotos, deixando para trás umas poucas vítimas procurando seus sapatos arrancados no atropelo. Naqueles instantes, em que, como todos os outros, eu lutava para manter meus poucos centímetros quadrados de escada para poder avançar rumo à nova sala, tive meu primeiro contato com aquela que dominaria meus raros momentos de concentração. Eu viria a saber que seu nome era Lilliane e aquela turba frenética não me impediu de notar os cabelos longos e castanhos mais brilhantes e perfumados de que meu nariz frequentemente entupido já se aproximou.

 Recordo que os últimos anos da década de 1980 coincidiram com o final da minha masculinidade pré-ereção, e não havia uma única festa de aniversário que não fosse planejada como um bailinho (assim, sempre no diminutivo), onde meu objetivo era muito claro: dançar música lenta com o meu rostinho imberbe colado ao de todas as menininhas da festa que topassem. Nem me passava pela cabeça beijá-las, muito menos ir além disso, e é essa constatação que torna essas memórias tão especiais. Como não me apressavam necessidades biológicas menos românticas que impusessem seu ritmo sobre mim, eu me deixava guiar somente pelas melodias pegajosas do A-Ha e das trilhas sonoras internacionais das novelas "das oito” da Globo. Meu limite era somente a chegada do meu pai em seu Del Rey “azul Sabesp”, anunciando o final daquele bailinho e o começo da contagem dos dias para o próximo. Nesse ambiente, muito antes de a minha atenção se tornar refém de curvas e jeitos cujos nuances ainda me confundem, bastavam-me os rostinhos bonitos e os cabelos perfumados das meninas.

Quis o destino que aquela menina subisse as mesmas escadas e andasse pelos mesmos corredores austeros daquele antigo e tradicional colégio pintado em tons de bege até que ambos entrássemos na mesma sala, onde me sentei duas carteiras atrás dela, já que dois meninos chegaram primeiro do que eu e assim conseguiram duas proezas: ficar mais perto da menina mais bonita que eu já tinha visto e arrumar um inimigo dos mais inofensivos. Essa posição, ainda assim, seria estratégica para apreciá-la em segredo, o que me levaria a perder boa parte do conteúdo das aulas, resultando em quatro recuperações que beiraram a repetência – máximo demônio da juventude que só me alcançaria no ano seguinte por razões diversas.

Já sentados, todos olhavam para todos os outros, procurando rostos conhecidos e tentando prever quem seria seu melhor amigo numa época em que melhores amigos são anuais. Lilliane investigava o novo ambiente e eu podia assim ver melhor seu rosto, perdendo-me na dúvida intransponível sobre seus olhos serem castanho-esverdeados ou somente castanhos. Foi com a chegada do primeiro professor que a classe se pôs em relativa ordem para ouvi-lo. Ele se apresentou e começou a usar a lousa para deixar mais gráficos alguns exemplos do que dizia, fosse o que fosse. Parecia ser um bom professor, mas ele não tinha chance mínima que fosse contra os feitiços daquela menininha que ainda ignorava minha recente devoção.

- Como é o seu nome? – disparou o professor voltado em minha direção, conforme me disseram. Depois da terceira reiteração, eu respondi.
- Maurício, você já conhece os rios navegáveis da região norte do Brasil?
Mesmo aos doze anos, eu sabia o que era uma pergunta retórica e fiquei calado. Todos me olhavam, inclusive minha pequena musa.
- Então não seria melhor tirar os olhos da sua coleguinha e prestar atenção no mapa que estou tentando desenhar?

Claro que não era melhor. Namorar platonicamente a Lilliane era infinitamente mais prazeroso do que dominar a navegabilidade do Tapajós. Não faz diferença enfim, pois eu não tive coregem de desafiar o professor e ele talvez se magoasse com essa honestidade injusta. Se eu disser que cheguei a pensar nisso tudo já estaria mentindo porque as crianças estouraram numa risada unânime e eu fiquei muito envergonhado, sem reação. (Não ficar sem reação frente a perguntas embaraçosas ainda é, décadas depois, uma das minhas metas).

A Lilliane que eu conheci não deu bola para aquele episódio, tornou-se minha amiga por todo aquele ano e, mesmo certa do que eu sentia – inevitável frente a tanta contemplação inerte da minha parte –, só me deixou sem reação uma vez, quando me perguntou se eu gostava dela. Meu pânico se disfarçou tão bem de certeza de não ser correspondido que eu respondi que não gostava dela e o assunto acabou por ali. Mesmo assim, essas lembranças são doces. E ela não deve ter acreditado; eu não acredito até hoje.