Assim que acordou naquele sábado, novamente após
uma noite mal dormida e ainda de olhos fechados, foi preguiçosamente tateando o
criado-mudo até alcançar seu smartphone,
que ficou a noite toda ligado no carregador. Após desconectá-lo habilmente com
uma só mão, num movimento aprimorado pela repetição diária, tomou-o em frente
ao rosto e a luminosidade da touchscreen
foi a primeira a lhe alcançar a face e trazer as mensagens eletrônicas ainda
não lidas, além dos posts de seus
amigos virtuais. Mensagens filosóficas com fundos coloridos, denúncias vagas
sobre política e fotos de cachorro. Dificilmente se deixava tocar pelo que via nas
redes sociais, mas o ritual seguia imune a essa verdade.
Escovou os dentes e se vestiu quase indiferente
ao espelho; atenção voltada para a televisão cujo jornal matutino informava
sobre notícias políticas, trazendo uma sensação de indignação e mesmice
atenuadas pela suavidade inerente ao horário. Já na cozinha, preparou um enorme
cappuccino gelado ao som do radio,
revezando estações de música e notícia sempre que os comerciais ameaçavam roubar-lhe
a distração.
Sábado, como dia de descanso que é, geralmente
tem sua manhã ocupada pela leitura de um livro até a hora do almoço, cujo
preparo seria resumido ao trânsito de uma lasanha congelada do freezer para o
micro-ondas. Após uma pausa para refeição de sete minutos aproximados, e já sem
ânimo para ler, a vontade de sair de casa levou à ideia de ir ao cinema para um
filme no comecinho da tarde; não sem antes munir-se de um milk-shake suficiente para duas ou três pessoas.
Após comprar o ingresso de meia entrada com um
documento falsificado, um sanduíche desejado desde a propaganda televisiva lhe fez
companhia enquanto avisava seus amigos virtuais de que estava para entrar numa
sala de cinema daquele shopping, que, apesar de ser perto de seu apartamento,
justificou o uso do automóvel financiado. O filme dessa semana foi um ótimo
drama sobre relações familiares, o que permitiu que, já de volta ao lar,
alimentasse seu blog de cinema sobre suas impressões, minuciosamente apreciadas.
Cansou-se, então, de ter um teto sobre sua
cabeça o tempo todo e resolveu convidar um amigo para ir até o parque, atendendo
enfim ao convite que o sol lhe dirigia desde o início da manhã. O dia estava mesmo
bonito e o amigo topou, levando-os a passar um bom tempo conversando sobre assuntos
amenos e não tão amenos enquanto andaram pelas alamedas. Em dado momento
voltaram suas atenções para o planejamento da noite que não tardaria a chegar.
Mais alguns telefonemas e formaram um grupo de duas moças e três rapazes, que
escolheram uma danceteria da região da Rua Augusta para aplacar a vontade de
rir/dançar/beijar, mesmo reconhecendo que aquele tipo de diversão não brilharia
tanto sem o sólido alicerce de algumas pints
de cervejas variadas.
Já na pista de dança, ainda perto de seus
amigos, cruzou seu olhar com o de outra pessoa e imediatamente se desejaram. A
conversa que precedeu o primeiro beijo foi meramente protocolar e bastante
dificultada pelo volume da música eletrônica. Desse ponto em diante, as pints passaram a ser compatilhadas pelos
dois. Os beijos foram seguidos de explorações mais ávidas, cujo avançar tornava
a danceteria um local progressivamente inadequado. Eles não se lembrarão, mas
um deles fez o convite para que pudessem se ter de forma mais íntima, e assim foram-se
para um motel, contando novamente com aplicativos do smartphone para evitar qualquer blitz policial no caminho.
Desconhecidos em um motel podem passar da
euforia à catarse em velocidade surpreendente, confundindo a lembrança da noite
divertida que já se encerrava murcha, pois a flor d’água que, enfim, somos nós,
já estará repleta de sentimentos outros que já não darão vez ao desejo. Mãos
dadas se soltam e urbanidade e cortesia passam a ocupar o espaço há pouco
aquecido por corpos frenéticos – agora um passado improvável. Despedidas e a
volta ao apartamento.
Apesar de tanta aventura, nada de sono ou fome.
A opção pela cama e o silêncio é tomada para saciar um tipo incerto de cansaço,
mas cuja intensidade só faz crescer. Sequer saberia dizer se está feliz ou
triste, mas esse questionamento não chegará a ser feito; seus dias são tão
preenchidos justamente para que esse tipo de introspecção não ocorra. Manter-se
em ocupação o tempo todo, ainda que de forma rica e variada, não ensina a
desfrutar da quietude interna, e, dessa forma, o leito macio se torna incômodo
e desconsolativo. Suas pálpebras cobrem seus olhos, mas é como se não o
fizessem; uma profunda sensação de incompletude toma seu corpo e mente,
impedindo o sono que, heroico, impediria tanta reflexão.
Para essa e tantas outras aflições, a
farmacologia oferecerá alívio, que, engolido num gole d’água, corrigirá essa agitação
e forçará o descanso, amordaçando qualquer mensagem que seu inconsciente espere
ter ouvida.
Mas só até amanhã.
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