sexta-feira, 7 de março de 2014

Respostas Intempestivas



A infância, mesmo em seu final, é uma época em que a relação de custo-benefício é ignorada. Melhor assim, pois, se não fosse, eu teria me arrependido por ter atazanado tanto meus pais para que me comprassem um Adidas de cano alto que pareceria um calçado de astronauta se não fossem suas listras bordô e verde, além de uma língua desproporcionalmente grande que quase a transformava numa caneleira. Esse arrependimento viria do fato de que ninguém havia elogiado (ou mesmo notado) aqueles gigantes coloridos no primeiro dia de aula da quinta séria que se iniciava, mesmo que eu tivesse colocado aquela linguona por cima da calça para destacá-la. Ao menos ele havia sido mais caro do que o tênis do meu irmão mais velho e – suprema satisfação – ele sabia disso.

Não tardou para que a multidão efervescente de crianças vestidas de azul e branco tivesse sua algazarra randômica interrompida pelo único ruído capaz de sobrepujá-la: o alarme cujo espalhafato servia para anunciar o começo e o final de tudo: de aulas a intervalos, de anúncios a simulações de incêndio (nesse último caso, tão pertinente quanto placas de trânsito que avisam onde estão os radares de autoestrada). Como bichinhos treinados, todos deixaram o pátio e foram correndo rumo às muitas escadarias como nuvens de gafanhotos, deixando para trás umas poucas vítimas procurando seus sapatos arrancados no atropelo. Naqueles instantes, em que, como todos os outros, eu lutava para manter meus poucos centímetros quadrados de escada para poder avançar rumo à nova sala, tive meu primeiro contato com aquela que dominaria meus raros momentos de concentração. Eu viria a saber que seu nome era Lilliane e aquela turba frenética não me impediu de notar os cabelos longos e castanhos mais brilhantes e perfumados de que meu nariz frequentemente entupido já se aproximou.

 Recordo que os últimos anos da década de 1980 coincidiram com o final da minha masculinidade pré-ereção, e não havia uma única festa de aniversário que não fosse planejada como um bailinho (assim, sempre no diminutivo), onde meu objetivo era muito claro: dançar música lenta com o meu rostinho imberbe colado ao de todas as menininhas da festa que topassem. Nem me passava pela cabeça beijá-las, muito menos ir além disso, e é essa constatação que torna essas memórias tão especiais. Como não me apressavam necessidades biológicas menos românticas que impusessem seu ritmo sobre mim, eu me deixava guiar somente pelas melodias pegajosas do A-Ha e das trilhas sonoras internacionais das novelas "das oito” da Globo. Meu limite era somente a chegada do meu pai em seu Del Rey “azul Sabesp”, anunciando o final daquele bailinho e o começo da contagem dos dias para o próximo. Nesse ambiente, muito antes de a minha atenção se tornar refém de curvas e jeitos cujos nuances ainda me confundem, bastavam-me os rostinhos bonitos e os cabelos perfumados das meninas.

Quis o destino que aquela menina subisse as mesmas escadas e andasse pelos mesmos corredores austeros daquele antigo e tradicional colégio pintado em tons de bege até que ambos entrássemos na mesma sala, onde me sentei duas carteiras atrás dela, já que dois meninos chegaram primeiro do que eu e assim conseguiram duas proezas: ficar mais perto da menina mais bonita que eu já tinha visto e arrumar um inimigo dos mais inofensivos. Essa posição, ainda assim, seria estratégica para apreciá-la em segredo, o que me levaria a perder boa parte do conteúdo das aulas, resultando em quatro recuperações que beiraram a repetência – máximo demônio da juventude que só me alcançaria no ano seguinte por razões diversas.

Já sentados, todos olhavam para todos os outros, procurando rostos conhecidos e tentando prever quem seria seu melhor amigo numa época em que melhores amigos são anuais. Lilliane investigava o novo ambiente e eu podia assim ver melhor seu rosto, perdendo-me na dúvida intransponível sobre seus olhos serem castanho-esverdeados ou somente castanhos. Foi com a chegada do primeiro professor que a classe se pôs em relativa ordem para ouvi-lo. Ele se apresentou e começou a usar a lousa para deixar mais gráficos alguns exemplos do que dizia, fosse o que fosse. Parecia ser um bom professor, mas ele não tinha chance mínima que fosse contra os feitiços daquela menininha que ainda ignorava minha recente devoção.

- Como é o seu nome? – disparou o professor voltado em minha direção, conforme me disseram. Depois da terceira reiteração, eu respondi.
- Maurício, você já conhece os rios navegáveis da região norte do Brasil?
Mesmo aos doze anos, eu sabia o que era uma pergunta retórica e fiquei calado. Todos me olhavam, inclusive minha pequena musa.
- Então não seria melhor tirar os olhos da sua coleguinha e prestar atenção no mapa que estou tentando desenhar?

Claro que não era melhor. Namorar platonicamente a Lilliane era infinitamente mais prazeroso do que dominar a navegabilidade do Tapajós. Não faz diferença enfim, pois eu não tive coregem de desafiar o professor e ele talvez se magoasse com essa honestidade injusta. Se eu disser que cheguei a pensar nisso tudo já estaria mentindo porque as crianças estouraram numa risada unânime e eu fiquei muito envergonhado, sem reação. (Não ficar sem reação frente a perguntas embaraçosas ainda é, décadas depois, uma das minhas metas).

A Lilliane que eu conheci não deu bola para aquele episódio, tornou-se minha amiga por todo aquele ano e, mesmo certa do que eu sentia – inevitável frente a tanta contemplação inerte da minha parte –, só me deixou sem reação uma vez, quando me perguntou se eu gostava dela. Meu pânico se disfarçou tão bem de certeza de não ser correspondido que eu respondi que não gostava dela e o assunto acabou por ali. Mesmo assim, essas lembranças são doces. E ela não deve ter acreditado; eu não acredito até hoje.

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