A infância, mesmo em seu final, é uma época em que a relação de
custo-benefício é ignorada. Melhor assim, pois, se não fosse, eu teria me
arrependido por ter atazanado tanto meus pais para que me comprassem um Adidas
de cano alto que pareceria um calçado de astronauta se não fossem suas listras
bordô e verde, além de uma língua desproporcionalmente grande que quase a transformava
numa caneleira. Esse arrependimento viria do fato de que ninguém havia elogiado
(ou mesmo notado) aqueles gigantes coloridos no primeiro dia de aula da quinta
séria que se iniciava, mesmo que eu tivesse colocado aquela linguona por cima
da calça para destacá-la. Ao menos ele havia sido mais caro do que o tênis do
meu irmão mais velho e – suprema satisfação – ele sabia disso.
Não tardou para que a multidão efervescente de crianças
vestidas de azul e branco tivesse sua algazarra randômica interrompida pelo
único ruído capaz de sobrepujá-la: o alarme cujo espalhafato servia para
anunciar o começo e o final de tudo: de aulas a intervalos, de anúncios a
simulações de incêndio (nesse último caso, tão pertinente quanto placas de
trânsito que avisam onde estão os radares de autoestrada). Como bichinhos
treinados, todos deixaram o pátio e foram correndo rumo às muitas escadarias
como nuvens de gafanhotos, deixando para trás umas poucas vítimas procurando seus
sapatos arrancados no atropelo. Naqueles instantes, em que, como todos os
outros, eu lutava para manter meus poucos centímetros quadrados de escada para
poder avançar rumo à nova sala, tive meu primeiro contato com aquela que
dominaria meus raros momentos de concentração. Eu viria a saber que seu nome
era Lilliane e aquela turba frenética não me impediu de notar os cabelos longos
e castanhos mais brilhantes e perfumados de que meu nariz frequentemente
entupido já se aproximou.
Recordo que os últimos
anos da década de 1980 coincidiram com o final da minha masculinidade
pré-ereção, e não havia uma única festa de aniversário que não fosse planejada
como um bailinho (assim, sempre no diminutivo), onde meu objetivo era muito
claro: dançar música lenta com o meu rostinho imberbe colado ao de todas as
menininhas da festa que topassem. Nem me passava pela cabeça beijá-las, muito
menos ir além disso, e é essa constatação que torna essas memórias tão
especiais. Como não me apressavam necessidades biológicas menos românticas que
impusessem seu ritmo sobre mim, eu me deixava guiar somente pelas melodias pegajosas
do A-Ha e das trilhas sonoras internacionais das novelas "das oito” da
Globo. Meu limite era somente a chegada do meu pai em seu Del Rey “azul
Sabesp”, anunciando o final daquele bailinho e o começo da contagem dos dias
para o próximo. Nesse ambiente, muito antes de a minha atenção se tornar refém
de curvas e jeitos cujos nuances ainda me confundem, bastavam-me os rostinhos
bonitos e os cabelos perfumados das meninas.
Quis o destino que aquela menina subisse as mesmas escadas e
andasse pelos mesmos corredores austeros daquele antigo e tradicional colégio pintado
em tons de bege até que ambos entrássemos na mesma sala, onde me sentei duas
carteiras atrás dela, já que dois meninos chegaram primeiro do que eu e assim conseguiram
duas proezas: ficar mais perto da menina mais bonita que eu já tinha visto e arrumar
um inimigo dos mais inofensivos. Essa posição, ainda assim, seria estratégica
para apreciá-la em segredo, o que me levaria a perder boa parte do conteúdo das
aulas, resultando em quatro recuperações que beiraram a repetência – máximo
demônio da juventude que só me alcançaria no ano seguinte por razões diversas.
Já sentados, todos olhavam para todos os outros, procurando
rostos conhecidos e tentando prever quem seria seu melhor amigo numa época em
que melhores amigos são anuais. Lilliane investigava o novo ambiente e eu podia
assim ver melhor seu rosto, perdendo-me na dúvida intransponível sobre seus
olhos serem castanho-esverdeados ou somente castanhos. Foi com a chegada do
primeiro professor que a classe se pôs em relativa ordem para ouvi-lo. Ele se
apresentou e começou a usar a lousa para deixar mais gráficos alguns exemplos
do que dizia, fosse o que fosse. Parecia ser um bom professor, mas ele não
tinha chance mínima que fosse contra os feitiços daquela menininha que ainda
ignorava minha recente devoção.
-
Como é o seu nome? – disparou o professor voltado em minha direção, conforme me
disseram. Depois da terceira reiteração, eu respondi.
-
Maurício, você já conhece os rios navegáveis da região norte do Brasil?
Mesmo aos doze anos, eu sabia o que era uma pergunta retórica
e fiquei calado. Todos me olhavam, inclusive minha pequena musa.
-
Então não seria melhor tirar os olhos da sua coleguinha e prestar atenção no
mapa que estou tentando desenhar?
Claro que não era melhor. Namorar platonicamente a Lilliane
era infinitamente mais prazeroso do que dominar a navegabilidade do Tapajós.
Não faz diferença enfim, pois eu não tive coregem de desafiar o professor e ele
talvez se magoasse com essa honestidade injusta. Se eu disser que cheguei a
pensar nisso tudo já estaria mentindo porque as crianças estouraram numa risada
unânime e eu fiquei muito envergonhado, sem reação. (Não ficar sem reação
frente a perguntas embaraçosas ainda é, décadas depois, uma das minhas metas).
A Lilliane que eu conheci não deu bola para aquele episódio,
tornou-se minha amiga por todo aquele ano e, mesmo certa do que eu sentia –
inevitável frente a tanta contemplação inerte da minha parte –, só me deixou
sem reação uma vez, quando me perguntou se eu gostava dela. Meu pânico se disfarçou
tão bem de certeza de não ser correspondido que eu respondi que não gostava
dela e o assunto acabou por ali. Mesmo assim, essas lembranças são doces. E ela
não deve ter acreditado; eu não acredito até hoje.
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