quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Segredo Acre

O rádio estava ligado com volume tão baixo que deixava um sussurro pelo quarto, do tipo que ajuda a dormir mas incomoda pela manhã. Pijama pelo chão no caminho do banheiro, roupa escolhida na noite anterior, toddynho que cotidianamente vazava na hora de furar, uma frutinha e rua. Seu filho pequeno já estava na escolinha, o que era sempre fácil de presumir pelo silêncio (angelical ou sepulcral conforme o dia) que ocupava o apartamento de forma quase tátil. Escolhida em razão do preço e proximidade, aquela escola vendia a ideia de diversidade, promovendo a convivência com crianças portadoras de deficiência - seu filho tinha especial apego por um coleguinha com síndrome de Down cuja mãe era vizinha do prédio e revezava com ele a tarefa de leva-e-traz das crianças. “Ainda como essa mamãe”, ele divagava com o silêncio da manhã.

Deixava seu prédio com o bom humor habitual de quem vê no começo de cada dia uma espécie de pequeno réveillon, discreto renascimento, oportunidade de fazer tudo com mais paixão. Como todo mundo, claro que ficava só na promessa, mas era essa a sensação que enchia seus pulmões e o levaria até o metrô, onde uma revista comprada sempre na mesma banca por causa das formas da jornaleira teria sua atenção (“essas pernas parecem as curvas de uma Corvette”, ele dizia consigo). Enfim o frescor de seu início de dia seria temperado com um pouco de ironia na estação Consolação, onde o aglomerado de engravatados imediatamente o levaria a duas alegorias: homenzinhos de terno se afunilando para acessar a escada rolante como grãos coloridos de uma ampulheta que se esvazia e reafirma a inevitabilidade do tempo; e também a produção industrial de aspirantes a executivo sendo cuspidos pela saída do metrô como se existisse uma fábrica de gente bem adaptada à pujante vida corporativa.

Seu trabalho de contador o agradava (o que é curioso) e havia suficiente harmonia no escritório para que seu domingo não fosse a dolorosa véspera que é para muitos. Entre o doce equilíbrio matemático de balancetes sem fim, boas opções de almoço e colegas de trabalho divertidos, tudo o contentava. Às vezes seu chefe era falastrão, gostava de repetir a história do homem negro e pobre que se fez sozinho, mas nada que roubasse sua tranquilidade.

Depois de um dia de trabalho, sua rotina o levava até uma academia de ginástica “para relaxar a cuca”, como ele dizia, mas ia mesmo por vaidade, o que ninguém reconhece, mesmo não sendo problema algum. Sem dúvida era o horário mais lotado, mas ele não se incomodava em revezar a utilização de aparelhos com outros atletas de final de tarde. Naquele dia, um corpulento rapaz parecia ter o mesmo treino que ele pois seguiu-o obstinado por todos os aparelhos de sua rotina. Mesmo a necessidade de secar os apoios após a utilização do colega que suava em profusão não tirou o sossego do seu olhar.

Então passava na escola e caminhava com seu filho pequeno de volta ao igualmente pequeno apartamento. A memória recente de seu filho em fraldas e balbuciando sílabas perdidas e cheias de saliva o levava a uma sensação de genuína felicidade quando o comparava com aquele pequeno homenzinho que se formava dia a dia, cada vez mais explorador, crítico e falante. Era bom ver o sol descer por entre os prédios na companhia daquele guri, que talvez aprendesse a dançar ao som das músicas que ele ouviu sentado.

Bom pai, trabalhador medíocre, cumpridor anônimo de obrigações invisíveis. Tudo isso e também um hipócrita. Mas não como outros hipócritas, que têm medo de julgamentos outros e não bancam as decisões que tomam. Ele era um hipócrita dos melhores, pois pretendia-se o último.

             De tudo que ofereceria a seu filho, sua hipocrisia talvez fosse o presente mais amoroso. O menino jamais saberia que seu pai se incomodava com a mera presença do vizinho com Down, sequer desconfiaria do inconformismo paterno com um negro ocupando uma posição acima da sua no escritório de contabilidade, passaria longe de sua repulsa por gente obesa na academia.

              Tempos atrás, ele leu uma reportagem sobre a trágica vida dos pedófilos que se reconheciam doentes, nunca davam vazão ao seu desejos e assim levavam uma vida de eterna contensão. Ele leu, entendeu numa profundidade que quase ninguém ousa, e mudou. No instante seguinte, sem foto com legenda no Instagram, ele mudou. Seria alguém que reconhece seus vícios mas vai amordaçá-los, ainda que essa lucidez não baste para dissipá-los na própria alma. Sem melhor alternativa, ele ao menos silenciaria, silêncio hipócrita que pretende salvar os futuros silêncios de seu filho, para que eles possam ser só quietude.