O rádio estava ligado com volume tão baixo que
deixava um sussurro pelo quarto, do tipo que ajuda a dormir mas incomoda pela
manhã. Pijama pelo chão no caminho do banheiro, roupa escolhida na noite
anterior, toddynho que cotidianamente vazava na hora de furar, uma frutinha e
rua. Seu filho pequeno já estava na escolinha, o que era sempre fácil de
presumir pelo silêncio (angelical ou sepulcral conforme o dia) que ocupava o
apartamento de forma quase tátil. Escolhida em razão do preço e proximidade,
aquela escola vendia a ideia de diversidade, promovendo a convivência com
crianças portadoras de deficiência - seu filho tinha especial apego por um
coleguinha com síndrome de Down cuja mãe era vizinha do prédio e revezava com
ele a tarefa de leva-e-traz das crianças. “Ainda como essa mamãe”, ele divagava
com o silêncio da manhã.
Deixava seu prédio com o bom humor habitual de quem
vê no começo de cada dia uma espécie de pequeno réveillon, discreto
renascimento, oportunidade de fazer tudo com mais paixão. Como todo mundo,
claro que ficava só na promessa, mas era essa a sensação que enchia seus
pulmões e o levaria até o metrô, onde uma revista comprada sempre na mesma
banca por causa das formas da jornaleira teria sua atenção (“essas pernas parecem
as curvas de uma Corvette”, ele dizia consigo). Enfim o frescor de seu início
de dia seria temperado com um pouco de ironia na estação Consolação, onde o
aglomerado de engravatados imediatamente o levaria a duas alegorias:
homenzinhos de terno se afunilando para acessar a escada rolante como grãos
coloridos de uma ampulheta que se esvazia e reafirma a inevitabilidade do
tempo; e também a produção industrial de aspirantes a executivo sendo cuspidos
pela saída do metrô como se existisse uma fábrica de gente bem adaptada à
pujante vida corporativa.
Seu trabalho de contador o agradava (o que é
curioso) e havia suficiente harmonia no escritório para que seu domingo não
fosse a dolorosa véspera que é para muitos. Entre o doce equilíbrio matemático
de balancetes sem fim, boas opções de almoço e colegas de trabalho divertidos,
tudo o contentava. Às vezes seu chefe era falastrão, gostava de repetir a
história do homem negro e pobre que se fez sozinho, mas nada que roubasse sua
tranquilidade.
Depois de um dia de trabalho, sua rotina o levava
até uma academia de ginástica “para relaxar a cuca”, como ele dizia, mas ia
mesmo por vaidade, o que ninguém reconhece, mesmo não sendo problema algum. Sem
dúvida era o horário mais lotado, mas ele não se incomodava em revezar a utilização
de aparelhos com outros atletas de final de tarde. Naquele dia, um corpulento
rapaz parecia ter o mesmo treino que ele pois seguiu-o obstinado por todos os
aparelhos de sua rotina. Mesmo a necessidade de secar os apoios após a
utilização do colega que suava em profusão não tirou o sossego do seu olhar.
Então passava na escola e caminhava com seu filho
pequeno de volta ao igualmente pequeno apartamento. A memória recente de seu
filho em fraldas e balbuciando sílabas perdidas e cheias de saliva o levava a
uma sensação de genuína felicidade quando o comparava com aquele pequeno
homenzinho que se formava dia a dia, cada vez mais explorador, crítico e
falante. Era bom ver o sol descer por entre os prédios na companhia daquele
guri, que talvez aprendesse a dançar ao som das músicas que ele ouviu sentado.
Bom pai, trabalhador medíocre, cumpridor anônimo de
obrigações invisíveis. Tudo isso e também um hipócrita. Mas não como outros
hipócritas, que têm medo de julgamentos outros e não bancam as decisões que tomam.
Ele era um hipócrita dos melhores, pois pretendia-se o último.
De tudo que ofereceria a seu filho, sua hipocrisia talvez fosse o presente mais amoroso. O menino jamais saberia que seu pai se incomodava com a mera presença do vizinho com Down, sequer desconfiaria do inconformismo paterno com um negro ocupando uma posição acima da sua no escritório de contabilidade, passaria longe de sua repulsa por gente obesa na academia.
Tempos atrás, ele leu uma reportagem sobre a trágica vida dos pedófilos que se reconheciam doentes, nunca davam vazão ao seu desejos e assim levavam uma vida de eterna contensão. Ele leu, entendeu numa profundidade que quase ninguém ousa, e mudou. No instante seguinte, sem foto com legenda no Instagram, ele mudou. Seria alguém que reconhece seus vícios mas vai amordaçá-los, ainda que essa lucidez não baste para dissipá-los na própria alma. Sem melhor alternativa, ele ao menos silenciaria, silêncio hipócrita que pretende salvar os futuros silêncios de seu filho, para que eles possam ser só quietude.