segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Surdez



Eu olhava o documento pronto e não reunia coragem para entregá-lo. Entenda-se: aquela porcaria não servia para nada. Pontos de vista incoerentes e mal costurados com a capacidade de convencimento do advogado do Hitler. Mas estava pronto e eu sabia que, aos olhos míopes do meu chefe, aquele trabalho estaria impecável; aos meus olhos, consolava-me que seria ele quem assinaria aquele aborto, e não eu.

O trabalho foi apresentado e, sem pausa, apedrejado pelos chefes do chefe, que se voltou contra mim como se eu não tivesse me resumido a obedecê-lo. Lição aprendida: os sorrisos seriam dele; as carrancas, minhas. Após receber suas críticas esquizofrênicas, pedi humildes desculpas pelo resultado e comecei a pensar em alguma forma de não voltar a ser seu escudo. Pedi então que suas ordens fossem passadas a mim por e-mail, e lhe disse que assim eu poderia me organizar melhor, além de me ajudar a não confundir novamente os parâmetros do que ele esperava. O que eu pretendia, deve estar claro, era guardar evidências de que o trabalho que eu fazia não representava meus pontos de vista, mas unicamente os dele, que era impermeável a sugestões e alertas. Como não é saudável a um empregado dizer “eu avisei” para o chefe, sob pena de deixar de ser empregado, parecia uma ideia esperta e diplomática. Que falhou. Ele era ainda mais esperto e diplomático, respondendo-me “Maurício!... Prefiro nossa relação assim: próxima e informal”. Ele não perderia seu escudo tão facilmente.

Fiz, então, o que todo mundo faz quando lhe falta o que fazer: chamei alguns amigos, avisei que precisava esbravejar um pouco (ou muito) e fomos tomar umas cervejas. Mal chegamos ao boteco e eu já havia me aliviado com um gritado resumo ainda mais resumido sobre o que acabei de resumir (mas temperado com bastante palavrão), e confesso que o litro de chopp aguado que eu sorvi feito garoa na caatinga ajudou bastante. Meus amigos fizeram comparações bastante específicas entre a mãe do meu chefe e as profissionais cuja vida não é nada fácil, depois resolveram que aquele bar era pouco para aliviar minhas dores de responder profissionalmente a um idiota mal preparado e covarde. Tínhamos todos que ir para um pub onde seguiríamos tomando tudo que líquido fosse, mas ao som de uma banda de hard rock.

Eu não queria ir. Estava com o sono atrasado, de pileque e sem nenhuma vontade de festejar. Queria ir para casa ver filme pornográfico – uns cinco minutos deveriam bastar –, para depois dormir. Era uma quinta-feira e eu não queria passar o dia seguinte como um zumbi, mexendo no mouse do computador para fingir trabalho toda vez que alguém se aproximasse, e tendo energia suficiente só para ir até o bebedouro com uma previsível sede dos diabos.

O que eu fiz então, já que estava resoluto em meus planos de singela masturbação? Fui para o pub. Chegando lá, cada long neck tentava inutilmente me alertar de que ela deveria ser a última, mas nenhuma foi eloquente o bastante. O pileque evoluiu para a bebedeira descarada, e por isso a banda conseguiu um fervoroso fã que cantava tudo junto com eles, mesmo sem conhecer as letras. Todo mundo já foi o bêbado a ser evitado (ao menos é o que eu gosto de acreditar toda vez que é a minha vez), só que nem todo mundo evita, e, naquela noite, foi o caso de uma moça chamada Berenice.

Berenice atuou como uma leoa que se mescla ao bege da vegetação das planícies africanas para pular sobre o pobre gnu que será devorado sob o olhar indiferente de seus iguais. A analogia não podia ser melhor: meus amigos assistiram a tudo sem mover uma palha em minha defesa! Só não foram indiferentes; pareciam se divertir bastante com o ataque da Berenice sobre mim. Ela veio dançando, sorrindo, cantarolando, e eu atribuí sua aproximação à osmose que parece unir os bêbados naturalmente, tanto que não percebi suas más intenções.

O termo “más intenções” merece um adendo. As intenções seriam boas se a Berenice não fosse tão Berenice, mas ela era a Berenice mais Berenice que eu já havia visto – tão ruim que mereceu esse neologismo. Odeio soar exagerado, mas a moça desagradava a todos os meus sentidos (até mesmo o tato e o paladar, como eu viria a descobrir).

Fato é que a Berenice veio se encostando. Não gosto de futebol, mas acredito que lhe passou pela cabeça agir como torcedores do mesmo time quando sai um gol. Dá pra chegar abraçando sem maiores introduções, não dá? Foi o que ela fez. Eu, mesmo contando com uma fração da minha lucidez, ainda assim me esquivei e sai furtivamente. Ela voltou e puxou papo, sempre com a boca perigosamente perto. Como essas memórias não são prazerosas, eu vou encurtar: tanto a Berenice fez que conseguiu de mim o que queria e ficamos nos atracando num canto do palco. O resquício de sobriedade que eu mantive não se conformou durante todo o processo, repetindo “francamente!...” o tempo todo. Em algum ponto em fui salvo por aqueles a quem já chamei de amigos, porque acordei em casa e em segurança. Após correr pelos cômodos da casa e confirmar aliviado que dormi sozinho, corri para o escritório.

Cheguei ao trabalho atrasado e meu chefe já me esperava para outro trabalho cuja metodologia não fazia sentido. Dessa vez eu não fiquei bravo. Se nem eu me ouço, por que ele deveria?

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Perda Real e Aparente



Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.

Fico às voltas com esse trecho de Dom Casmurro com frequência, então acredito que o entenda muito bem, mesmo que ainda não tenha aprendido com ele. Eu reconhecia a falta das minhas próprias convicções, e o quanto esse silêncio que deixava vulnerável às apreciações alheias – se sou feito por uma coleção de outros, sequer existo. Machado de Assis estava revisitando, ao menos quanto às intenções que sinto me atingirem, a expressão conhece-te a ti mesmo, inscrita na entrada do Oráculo de Delfos, templo de Apolo, que alertava sobre a busca do conhecimento como sinônimo de felicidade. Essa busca começaria com a perturbadora visita a si mesmo, embate necessário para que nos abríssemos depois a conhecimentos outros. Então, se deixo que minha visão seja um apanhado de impressões alheias, impeço também outras percepções e a própria felicidade.
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- É bonitinha; não é feia não...

- Jura que você não achou a moça bonita? – Eu buscava me certificar de que era essa mesmo a opinião do amigo próximo com quem eu nunca havia visto moça nenhuma, bonita ou feia.

- É bonitinha, já disse.

Murchava meu interesse pela moça sobre a qual ainda pouco sabia, com a confirmação de que sua presença não impressionaria. O mesmo tipo de inveja que, se abordado abertamente em uma conversa qualquer, seria combatido com tudo o que todo mundo diz sobre tudo que sente sem querer sentir.
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- Escuta só isso!... – Disse a mulher interessante ou o amigo inteligente, feliz por compartilhar alguma música que, acreditava, também iria me interessar, e aguardando minha opinião.

- Legal, hein! Pode tocar o álbum inteiro. – Eu respondia depois de já ter confirmado que não me interessava.

Eu demorei bastante para chegar ao meu próprio gosto musical, já que o gosto por agradar era maior, mesmo que eu não desse conta de toda a tranqueira que me empurravam amistosamente.
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- Eu preciso entender o papel que eu ocupo em sua vida, entende? – Eu ouvia com um gelo no estômago.

- Eu te amo? – eu respondia em algum ponto, testando e afirmando medrosamente.

As palavras certas, ditas com a entonação mais equivocada,acabam servindo para aquecer o coração de quem está disposta a não prestar atenção em detalhes, dando espaço para mais um relacionamento com sólidas bases sobre o nada.
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Já que hoje as influências externas sobram, em contexto relacionado parece ter se queixado Sartre quando disse que o inferno são os outros. Se entendi bem, sem os outros não chegamos a nos conhecer de fato, pois é a partir das impressões das pessoas sobre nós é que verdadeiramente nos enxergamos. De outro lado, as pessoas são, muitas vezes, os obstáculos aos nossos propósitos, especialmente quando os nossos vão de encontro aos delas próprias. Enfim, precisamos das pessoas mas elas nos atrapalham: daí, o inferno. Isso é mais complicado. A vida inteira me martelaram na cabeça que eu não deveria me incomodar com a opinião alheia. Não que eu tenha dado ouvidos (muito pelo contrário!), mas agora vinha o Sr. Jean-Paul dizendo que as opiniões dos outros é que me darão a lucidez necessária para que eu me enxergue.

Não era isso que eu via ou permitia que os outros fizessem, de qualquer forma. Muito mais do que ouvir suas percepções sobre mim, eu permitia (pedia) que me definissem. Que me recheassem com seus pontos de vista, paixões e desabafos até que eu conseguisse enxergar um pouco de cada pessoa em mim; até que eu fosse cada uma delas.

Não foram episódios em particular que me fizeram desistir de criar em mim essa coleção de gente, e essa desistência não chega a ser total. Acredito, contudo, que, mais do que qualquer acontecimento isolado, foi um cansaço generalizado que venceu. É necessária uma quantidade enorme de energia para emular tanta gente, e aos poucos se vai perdendo a paciência com o projeto. Isso não aconteceu rapidamente e nem eu me dei desse cansaço enquanto ele me vencia, dando abertura para que alguma coisa genuinamente minha nascesse, mas foi um trecho de Santo Agostinho que me abriu os olhos para o processo já em andamento:

Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Estavas dentro e eu fora te procurava. Precipitava-me eu disforme, sobre as coisas formosas que fizeste. Estavas comigo, contigo em não estava.

Gosto de pensar que não foi somente a fatiga com essas imitações, mas também a idade e a experiência que me fizeram mudar o caminho do engano certo para a incerteza – caminho que não é particularmente ruim, mas somente tão incômodo quanto o de todo mundo. Agora, se a inscrição de Apolo estiver certa, depois de reconhecer a beleza que é estar em paz com quem se é, outras epifanias estarão ao meu alcance. Quem sabe até eu não comece a ler os livros inteiros ao invés de utilizar citações perdidas?

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Ideias na Vitrine



Claro que ninguém sabe, então eu conto: O Excelentíssimo Senhor Deputado Estadual, Sr. Rogério Nogueira, autor da Lei nº 14.606/2011, instituiu o “dia estadual do ufólogo”. Pronto. Não preciso dizer mais nada. Nas mentes já pululam expressões de indignação. Como se pode admitir que um deputado gaste seu tempo com bobagem desse quilate, enquanto em São Paulo urgem soluções para problemas que são emergenciais há tanto tempo que sua menção soa como clichê? Transporte e violência nos grandes centros, saneamento no interior e periferias, saúde e educação em todo canto. O mais bobo dos paulistas pode abordar esses temas, ainda que desinformado na íntegra, para ter a simpatia de quem o ouça. E é verdade mesmo; todo mundo sabe, afinal.
Mas e o ufólogo? Seria tão desimportante assim? Ele trabalha com o improvável, com a perigosa proximidade da superstição, e não com a análise pragmática de problemas diários e suas soluções. Por isso mereceria o silêncio que lhe dispensamos? Talvez, não; talvez sua aspiração fale sobre todos nós. Os animais têm preocupações frugais: querem comer e se reproduzir; suas outras direções se relacionam com um desses objetivos. Os leões, por exemplo. Somente se preocupam em manter enormes territórios naquelas planícies infindáveis porque assim garantem que ninguém mais usufrua das gazelas, gnus, antílopes e zebras que ali residem em constante estado de atenção, bem como das fêmeas duramente angariadas. Comida e sexo, portanto.
É verdade que eu assisti um documentário onde se tentava explicar o comportamento homossexual das lulas, mas não vamos complicar demais!...
Nós não somos criaturas simples como os leões. Queremos mais do que comer e transar, mesmo que não pareça. No filme “9 e ½ Semanas de Amor”, a cena da geladeira dá a entender que também gostamos de transar comendo, ou comer transando, mas somos capazes de ir até mais longe do que isso. Refiro-me à beleza desvencilhada da sedução: a arte. Quando almejamos que o conteúdo transcenda a forma e nos levem ao contato com o maior e o indefinível. A euforia da beleza musical; a profundidade da beleza literária, ainda que melancólica, sobre a gratuidade da vida e morte; a beleza dos sabores que, muito além de saciar a fome, nos levam a texturas e nuances que ultrapassam necessidades e saciam vontades.
Somos infinitamente interessados em frivolidades. Esses detalhes desnecessários e improdutivos nos definem como espécie e nos separam dos bichos muito mais do que a tal da alma! E é aí que entram os ufólogos e seus discos voadores. Olhamos para o céu desde sempre e já fomos capazes de divinizar desde o sol, passando pela chuva e até os simplórios animais que tanto poderiam aprender com nossas futilidades. Depois que a astronomia atestou nossa solidão, era de se esperar que a negássemos, como fazemos com todas as outras verdades que amedrontam. Não negamos a morte de nossos pais com a criação de um pai celestial que nunca morre, para que possamos manter o esquisito conforto de ter alguém olhando por nós? Não faz nenhum sentido, mas a alternativa é aceitar a morte definitiva como cortinas que se fecham peremptórias ao final de uma última encenação – e isso não motiva.
Não são necessários discos voadores reais para justificar seus estudiosos. Eles são uma nova leitura de um comportamento antigo, estranho, injustificável e, na mesma medida, essencial. O Excelentíssimo Senhor Deputado acertou em sua iniciativa, mesmo que lhe escape a profundidade de seu acerto.
E o “Dia Estadual do Ufólogo” nos remeterá agora diretamente ao recente bafafá sobre a admissão dos embargos infringentes na famigerada ação penal batizada de “mensalão”. O que une discos que voem e homem que roubam é um fator que merece um pouco mais de palavrório da minha parte. Houve anos de trâmites e andamentos; milhares de data venia e verbi gratia. Enfim saiu a decisão e o Brasil endireitou a postura com uma nova dignidade após a condenação daqueles que comprovadamente fizeram o que comprovadamente sempre se fez: pagar por fora para convencer o Legislativo a trabalhar. Os mensaleiros foram condenados e a reflexão sobre a natureza humana volta. Assim como a arte nos eleva e redime das urgências da carne, igualmente precisamos esbravejar contra decisões que nos prejudicam. É nossa forma de expor nossa contrariedade, nosso inconformismo. Uma só decisão faria com que nos sentíssemos levianamente julgados: então um só homem tem o poder de resumir toda a angústia de um longo processo em um “defiro” ou “indefiro”? É preciso mais gente envolvida! Não esqueçamos que o próprio juiz de primeira instância seria também esmagado pelo peso de suas decisões se não houvesse o conforto emocional da revisão recursal para diluir sua responsabilidade. Assim, no Brasil, o recurso é tão certo quanto a fome do leão (se pensaram no leão da Fazenda, e não da planície, também serve).
Então chegamos. O que aqui uniu o estudo (ou culto) de um objeto voador não identificado e a defesa de uma via recursal confortavelmente interminável foi a vontade de defender causas que repudio. Olhar para o céu dá torcicolo; recorrer mais de uma vez é pernicioso e redundante. Ainda assim, defendi esses enganos com paixão. Poderia ser por amor à discussão, por exercício de retórica ou, como mais ocorre, para ganhar dinheiro. E a ganância é mais grave.
Vender um carro ou uma camisa buscando lucro é atividade mercantil honesta e corriqueira – nociva somente aos olhos de que jura que leu Marx, mas só passou os olhos em frases isoladas. A camisa na loja continua sendo camisa no guarda-roupa; a natureza das coisas não se perde. Agora, vender ponto de vista é muito mais grave. Dizer que o ufólogo merece as atenções de nossa maior Assembleia Legislativa; prestigiar a chicana que transforma o Judiciário em um mercado persa. A opinião pessoal que se degenera em outra, não por convencimento, mas em troca de dinheiro – forma suprema de prostituição, mas estamos acostumados a chamá-la de advocacia.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Posse e Propriedade



O poema não tinha título e prevalecia nele o tom de rebeldia generalizada que só se permite aos mais jovens, como eu era quando o escrevi. Era o tipo de texto para ser mantido íntimo; tocava-me por ser seu autor, remetendo-me de imediato aos sentimentos de sua elaboração. Fora desse subjetivismo, nada havia nele que pudesse atrair a atenção dos outros; eu mesmo não lhe atribuía nenhuma qualidade literária. Como um velho filme ruim assistido numa hora boa, cuja memória conforma pelo contexto, e não pelas intenções do diretor. Por isso seu arquivamento.
Tenho um pequeno círculo de amigos que se encontra com frequência. Seja para evitar gastos ou para fugir da agitação, às vezes deixamos de sair para nos reunirmos na casa de um de nós. Na última vez foi na minha casa, e como não são meros conhecidos cuja chegada peça cuidados especiais, não me dei ao trabalho de arrumar a casa para recebê-los, deixando alguns papeis em cima da mesa de jantar – dentre eles, o poema mencionado, retirado provisoriamente de seu arquivo para uma nostálgica repassada.
Foi assim que o texto deixou seu anonimato planejado. Lido em voz alta por um dos presentes, atraiu a atenção de um dos convivas, que trabalhava como relações públicas de um aspirante a vereador de São Paulo. Todos os amigos, de modo geral, elogiaram meus versos, mas essa reação mais me constrangeu do que lisonjeou – talvez pela pouca qualidade que eu lhe atribuía, talvez pela invasão de intimidade que sua leitura me passava. Esse assessor de político pediu que lhe entregasse o texto, caso não pretendesse fazer melhor uso dele. Como não encontrei desculpa boa o suficiente para deixar de fazê-lo, entreguei-lhe o poema com embaraço e o assunto foi abandonado, voltando a discussão para a recente orientação criativa de Woody Allen, que agora passou a filmar agradáveis cartões postais.
O assunto voltou algumas semanas mais tarde, quando esse mesmo assessor me encaminhou uma mensagem eletrônica com um modelo de panfleto. Era colorido pelos tons do partido de seu empregador, que posava de terno bem alinhado e rosto austero. Ao seu lado, no lugar das promessas vagas que tanto cativam elegíveis e eleitores, estava o meu poema, impresso em letras feias e chamativas:
Eu, que falo vazio e sem pausa, por que não canto?
Eu, que ando em tropeços sem rumo, por que não danço?
Eu, que sem rebeldia bato e mordo, por que não reivindico?
Eu, que morro quieto a dois passos do início, por que não aceito?
De forma imediata e irremediável, desapareceram os sentimentos que a leitura dessas quatro linhas me transmitiam sempre que as visitava. Agora era a mais incongruente tentativa de angariar votos em que eu já havia pousado a vista. O olhar austero do político agora já não passava seriedade e compromisso – era um desafio pessoal. Sabia que havia me tomado mais do que palavras, mas as memórias que a partir delas se desvendavam num sussurro que só a mim alcançava. Sequer o desabafo de rasgar aquele panfleto eu teria, pois apresentado numa tela indiferente que aceita tudo.
Não respondi àquela mensagem porque, confesso, tenho certa aversão a qualquer tipo de confronto, mesmo que o preço dessa inércia seja um gelo no estômago que só se dissolva após dias de incômodo. Meu amigo interpretou meu silêncio como quis e seguiu na esperança de cativar o eleitorado com um poema absolutamente desconectado de promessas, propostas ou qualquer outra coisa que pudesse valer a pena ser dita pelo aspirante a parlamentar. Imagine-se a falta de palavras que enfrentava, para concordar com essa tentativa de se fazer notar por um texto que não o representava de nenhuma forma! Pensei que talvez estivessem tentando vendê-lo como alguém letrado e sensível, mas abandonei essas reflexões. Encerrei o assunto.
Mais tempo passou e, com ele, as eleições. Dei-me ao trabalho de verificar se o candidato impulsionado por um desabafo adolescente havia alcançado seu objetivo e confirmei que não. Estranha sensação. Eu, que havia ficado tão incomodado pelo fato de ver minha pequena obra desvirtuada, agora estava novamente incomodado por seus versos não terem comovido o povo, ainda que isso não fizesse sentido. Começo a notar um padrão no qual estou sempre reclamando, e isso não deve ser produtivo...
Agora tomo um papel e uma caneta na mão. Não vou ao computador porque quero o alívio físico de rasgar tudo que me desagrade. O que eu sinto não se aproxima muito da antiga rebeldia genérica, mas a vontade de me queixar até cansar os ossos é quase palpável. Dessa vez, no entanto, ninguém irá pousar os olhos sobre ele. Ninguém. E, caso eu mude de ideia sobre essa falta de publicidade, todos saberão que é meu. Meu.