Claro que ninguém sabe, então
eu conto: O Excelentíssimo Senhor Deputado Estadual, Sr. Rogério Nogueira,
autor da Lei nº 14.606/2011, instituiu o “dia estadual do ufólogo”. Pronto. Não
preciso dizer mais nada. Nas mentes já pululam expressões de indignação. Como
se pode admitir que um deputado gaste seu tempo com bobagem desse quilate,
enquanto em São Paulo urgem soluções para problemas que são emergenciais há
tanto tempo que sua menção soa como clichê? Transporte e violência nos grandes
centros, saneamento no interior e periferias, saúde e educação em todo canto. O
mais bobo dos paulistas pode abordar esses temas, ainda que desinformado na
íntegra, para ter a simpatia de quem o ouça. E é verdade mesmo; todo mundo sabe,
afinal.
Mas e o ufólogo? Seria tão
desimportante assim? Ele trabalha com o improvável, com a perigosa proximidade
da superstição, e não com a análise pragmática de problemas diários e suas
soluções. Por isso mereceria o silêncio que lhe dispensamos? Talvez, não;
talvez sua aspiração fale sobre todos nós. Os animais têm preocupações frugais:
querem comer e se reproduzir; suas outras direções se relacionam com um desses
objetivos. Os leões, por exemplo. Somente se preocupam em manter enormes
territórios naquelas planícies infindáveis porque assim garantem que ninguém
mais usufrua das gazelas, gnus, antílopes e zebras que ali residem em constante
estado de atenção, bem como das fêmeas duramente angariadas. Comida e sexo,
portanto.
É verdade que eu assisti um
documentário onde se tentava explicar o comportamento homossexual das lulas,
mas não vamos complicar demais!...
Nós não somos criaturas
simples como os leões. Queremos mais do que comer e transar, mesmo que não
pareça. No filme “9 e ½ Semanas de Amor”, a cena da geladeira dá a entender que
também gostamos de transar comendo, ou comer transando, mas somos capazes de ir
até mais longe do que isso. Refiro-me à beleza desvencilhada da sedução: a
arte. Quando almejamos que o conteúdo transcenda a forma e nos levem ao contato
com o maior e o indefinível. A euforia da beleza musical; a profundidade da
beleza literária, ainda que melancólica, sobre a gratuidade da vida e morte; a
beleza dos sabores que, muito além de saciar a fome, nos levam a texturas e
nuances que ultrapassam necessidades e saciam vontades.
Somos infinitamente
interessados em frivolidades. Esses detalhes desnecessários e improdutivos nos
definem como espécie e nos separam dos bichos muito mais do que a tal da alma!
E é aí que entram os ufólogos e seus discos voadores. Olhamos para o céu desde
sempre e já fomos capazes de divinizar desde o sol, passando pela chuva e até os
simplórios animais que tanto poderiam aprender com nossas futilidades. Depois
que a astronomia atestou nossa solidão, era de se esperar que a negássemos,
como fazemos com todas as outras verdades que amedrontam. Não negamos a morte
de nossos pais com a criação de um pai celestial que nunca morre, para que
possamos manter o esquisito conforto de ter alguém olhando por nós? Não faz
nenhum sentido, mas a alternativa é aceitar a morte definitiva como cortinas que
se fecham peremptórias ao final de uma última encenação – e isso não motiva.
Não são necessários discos
voadores reais para justificar seus estudiosos. Eles são uma nova leitura de um
comportamento antigo, estranho, injustificável e, na mesma medida, essencial. O
Excelentíssimo Senhor Deputado acertou em sua iniciativa, mesmo que lhe escape
a profundidade de seu acerto.
E o “Dia Estadual do Ufólogo”
nos remeterá agora diretamente ao recente bafafá sobre a admissão dos embargos
infringentes na famigerada ação penal batizada de “mensalão”. O que une discos
que voem e homem que roubam é um fator que merece um pouco mais de palavrório
da minha parte. Houve anos de trâmites e andamentos; milhares de data venia e verbi gratia. Enfim saiu a decisão e o Brasil endireitou a postura
com uma nova dignidade após a condenação daqueles que comprovadamente fizeram o
que comprovadamente sempre se fez: pagar por fora para convencer o Legislativo
a trabalhar. Os mensaleiros foram condenados e a reflexão sobre a natureza
humana volta. Assim como a arte nos eleva e redime das urgências da carne, igualmente
precisamos esbravejar contra decisões que nos prejudicam. É nossa forma de
expor nossa contrariedade, nosso inconformismo. Uma só decisão faria com que
nos sentíssemos levianamente julgados: então um só homem tem o poder de resumir
toda a angústia de um longo processo em um “defiro” ou “indefiro”? É preciso
mais gente envolvida! Não esqueçamos que o próprio juiz de primeira instância
seria também esmagado pelo peso de suas decisões se não houvesse o conforto
emocional da revisão recursal para diluir sua responsabilidade. Assim, no
Brasil, o recurso é tão certo quanto a fome do leão (se pensaram no leão da
Fazenda, e não da planície, também serve).
Então chegamos. O que aqui
uniu o estudo (ou culto) de um objeto voador não identificado e a defesa de uma
via recursal confortavelmente interminável foi a vontade de defender causas que
repudio. Olhar para o céu dá torcicolo; recorrer mais de uma vez é pernicioso e
redundante. Ainda assim, defendi esses enganos com paixão. Poderia ser por amor
à discussão, por exercício de retórica ou, como mais ocorre, para ganhar
dinheiro. E a ganância é mais grave.
Vender um carro ou uma camisa buscando
lucro é atividade mercantil honesta e corriqueira – nociva somente aos olhos de
que jura que leu Marx, mas só passou os olhos em frases isoladas. A camisa na
loja continua sendo camisa no guarda-roupa; a natureza das coisas não se perde.
Agora, vender ponto de vista é muito mais grave. Dizer que o ufólogo merece as
atenções de nossa maior Assembleia Legislativa; prestigiar a chicana que
transforma o Judiciário em um mercado persa. A opinião pessoal que se degenera
em outra, não por convencimento, mas em troca de dinheiro – forma suprema de prostituição,
mas estamos acostumados a chamá-la de advocacia.
De tudo o que li, achei sensacional a passagem: "É verdade que eu assisti um documentário onde se tentava explicar o comportamento homossexual das lulas, mas não vamos complicar demais!..." ahahahahah
ResponderExcluirObrigado, amigo! Nunca haverá um texto meio sem, ao menos, uma bobagem. Apareça!
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