Se só
me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que
perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.
Fico às voltas com esse trecho
de Dom Casmurro com frequência, então
acredito que o entenda muito bem, mesmo que ainda não tenha aprendido com ele. Eu
reconhecia a falta das minhas próprias convicções, e o quanto esse silêncio que
deixava vulnerável às apreciações alheias – se sou feito por uma coleção de
outros, sequer existo. Machado de Assis estava revisitando, ao menos quanto às
intenções que sinto me atingirem, a expressão conhece-te a ti mesmo, inscrita na entrada do Oráculo de Delfos,
templo de Apolo, que alertava sobre a busca do conhecimento como sinônimo de
felicidade. Essa busca começaria com a perturbadora visita a si mesmo, embate
necessário para que nos abríssemos depois a conhecimentos outros. Então, se
deixo que minha visão seja um apanhado de impressões alheias, impeço também outras
percepções e a própria felicidade.
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- É bonitinha; não é feia não...
- Jura que você não achou a moça bonita? – Eu
buscava me certificar de que era essa mesmo a opinião do amigo próximo com quem
eu nunca havia visto moça nenhuma, bonita ou feia.
- É bonitinha, já disse.
Murchava meu interesse pela
moça sobre a qual ainda pouco sabia, com a confirmação de que sua presença não impressionaria.
O mesmo tipo de inveja que, se abordado abertamente em uma conversa qualquer,
seria combatido com tudo o que todo mundo diz sobre tudo que sente sem querer
sentir.
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- Escuta só isso!... – Disse a mulher
interessante ou o amigo inteligente, feliz por compartilhar alguma música que,
acreditava, também iria me interessar, e aguardando minha opinião.
- Legal, hein! Pode tocar o álbum inteiro. – Eu
respondia depois de já ter confirmado que não me interessava.
Eu demorei bastante para
chegar ao meu próprio gosto musical, já que o gosto por agradar era maior,
mesmo que eu não desse conta de toda a tranqueira que me empurravam
amistosamente.
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- Eu preciso entender o papel que eu ocupo em
sua vida, entende? – Eu ouvia com um gelo no estômago.
- Eu te amo? – eu respondia em algum ponto,
testando e afirmando medrosamente.
As palavras certas, ditas com
a entonação mais equivocada,acabam servindo para aquecer o coração de quem está
disposta a não prestar atenção em detalhes, dando espaço para mais um
relacionamento com sólidas bases sobre o nada.
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Já que hoje as influências
externas sobram, em contexto relacionado parece ter se queixado Sartre quando
disse que o inferno são os outros. Se
entendi bem, sem os outros não chegamos a nos conhecer de fato, pois é a partir
das impressões das pessoas sobre nós é que verdadeiramente nos enxergamos. De
outro lado, as pessoas são, muitas vezes, os obstáculos aos nossos propósitos, especialmente
quando os nossos vão de encontro aos delas próprias. Enfim, precisamos das
pessoas mas elas nos atrapalham: daí, o inferno. Isso é mais complicado. A vida
inteira me martelaram na cabeça que eu não deveria me incomodar com a opinião
alheia. Não que eu tenha dado ouvidos (muito pelo contrário!), mas agora vinha
o Sr. Jean-Paul dizendo que as opiniões dos outros é que me darão a lucidez
necessária para que eu me enxergue.
Não era isso que eu via ou
permitia que os outros fizessem, de qualquer forma. Muito mais do que ouvir
suas percepções sobre mim, eu permitia (pedia) que me definissem. Que me
recheassem com seus pontos de vista, paixões e desabafos até que eu conseguisse
enxergar um pouco de cada pessoa em mim; até que eu fosse cada uma delas.
Não foram episódios em
particular que me fizeram desistir de criar em mim essa coleção de gente, e
essa desistência não chega a ser total. Acredito, contudo, que, mais do que
qualquer acontecimento isolado, foi um cansaço generalizado que venceu. É
necessária uma quantidade enorme de energia para emular tanta gente, e aos
poucos se vai perdendo a paciência com o projeto. Isso não aconteceu
rapidamente e nem eu me dei desse cansaço enquanto ele me vencia, dando
abertura para que alguma coisa genuinamente minha nascesse, mas foi um trecho
de Santo Agostinho que me abriu os olhos para o processo já em andamento:
Tarde te amei, ó beleza tão
antiga e tão nova, tarde te amei! Estavas dentro e eu fora te procurava.
Precipitava-me eu disforme, sobre as coisas formosas que fizeste. Estavas
comigo, contigo em não estava.
Gosto de pensar que não foi somente
a fatiga com essas imitações, mas também a idade e a experiência que me fizeram
mudar o caminho do engano certo para a incerteza – caminho que não é
particularmente ruim, mas somente tão incômodo quanto o de todo mundo. Agora,
se a inscrição de Apolo estiver certa, depois de reconhecer a beleza que é
estar em paz com quem se é, outras epifanias estarão ao meu alcance. Quem sabe
até eu não comece a ler os livros inteiros ao invés de utilizar citações
perdidas?
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