Ela
havia pedido que ele lhe escrevesse algo; “qualquer coisa”, disse ela, enquanto
entrava no banheiro da suíte para tomar banho. Ele havia baixado o livro que
lia distraído para ouvi-la e o pedido lhe soou estranho. Anos atrás, ele
escrevia para ela com frequência (sempre uns poeminhas pretensamente românticos),
mas o tempo e o ânimo já iam longe e a palavra escrita, entre eles, resumia-se
a pequenos lembretes de Whatsapp.
Quando
ela acordou, ele já havia saído para o trabalho. Ao lado de um copo de cappuccino
gelado – um hábito dela adiantado por ele – um pedaço de papel dobrado onde ela
leu:
Me
desculpa
Mas não me
diz culpa
Que eu
sinto muito – e não pouco
Quando
você fala, eu ouço
O
papel foi amassado e jogado num canto do quarto em que não seria procurado, onde
lhe fez companhia um brinco esquecido e já empoeirado, jogado longe sem
cerimônia numa época em que eles ainda se procuravam afoitos.
Ela
queria ser reconquistada e não um convite à reflexão; ele queria ser ouvido, antes
do que não haveria flerte. Por tão distantes, seus ânimos não se tocaram. Mais
tarde, ele estranhou ela não ter comentado nada sobre o texto, mas calou; ela esperava
que ele cobrasse algum retorno quanto ao poema, mas também calou. E esses silêncios
alimentaram muitos outros.