quarta-feira, 11 de abril de 2018

Olhos Surdos

Ela havia pedido que ele lhe escrevesse algo; “qualquer coisa”, disse ela, enquanto entrava no banheiro da suíte para tomar banho. Ele havia baixado o livro que lia distraído para ouvi-la e o pedido lhe soou estranho. Anos atrás, ele escrevia para ela com frequência (sempre uns poeminhas pretensamente românticos), mas o tempo e o ânimo já iam longe e a palavra escrita, entre eles, resumia-se a pequenos lembretes de Whatsapp.

Quando ela acordou, ele já havia saído para o trabalho. Ao lado de um copo de cappuccino gelado – um hábito dela adiantado por ele – um pedaço de papel dobrado onde ela leu:

Me desculpa
Mas não me diz culpa
Que eu sinto muito – e não pouco
Quando você fala, eu ouço

O papel foi amassado e jogado num canto do quarto em que não seria procurado, onde lhe fez companhia um brinco esquecido e já empoeirado, jogado longe sem cerimônia numa época em que eles ainda se procuravam afoitos.

Ela queria ser reconquistada e não um convite à reflexão; ele queria ser ouvido, antes do que não haveria flerte. Por tão distantes, seus ânimos não se tocaram. Mais tarde, ele estranhou ela não ter comentado nada sobre o texto, mas calou; ela esperava que ele cobrasse algum retorno quanto ao poema, mas também calou. E esses silêncios alimentaram muitos outros.

Nenhum comentário:

Postar um comentário