quinta-feira, 29 de maio de 2014

Para a Moça do Tempero

Tem um mundo entre nós
Que teima em meter medo
Que sussurra logo cedo
O antes e o após

Assim rouba o presente
Único tempo que se sente
Mas o remédio vem ligeiro
Seu abraço, seu beijo

Lágrimas que escorrem não pingam

Às vezes não te reconheço ao meu lado
E eu te olho sem te ver de fato
Lugar frio, sem norte
Não fique
Volte


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Por que abraço?
Porque há braço.


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Minha presença
Sua falta
Minha crença
Sua volta


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Que o passado passe ao longe
Que o amanhã amanheça hoje

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Dialética Disléxica - II


-             Foi bom pra você?
-             O quê?
-             Ser mulher deve ser ótimo, não?
-             É...
-             O cavalheirismo, os galanteios...
-             Ah, é ótimo!...
-             Se bem que...
-             Sim?
-             Pensando melhor, quero voltar atrás. Não deve ser ótimo, não.
-             Não?
-             Bom, a gente está aqui na cama e me veio à cabeça: é com homem que vocês transam. “Homem”, entende?
-             ...
-             É sério!... Isso traz muitas implicações, repare o contexto: vocês, desde pequenas, cultivam valores como delicadeza e ternura, precursoras do que se tornará um dos melhores tipos de sensualidade, projetam príncipes encantados, já brincam com maquiagem, todo esse ensaio por mais de uma década e então deixam-se invadir pelo primeiro moleque inseguro e desengonçado que, num rompante de sorte, consegue articular um cortejinho de poucas frases sem soar como um idiota, e então bagunça tudo. Está tudo acabado em dois minutos ou menos, para arrematar.
-             É, não é fácil...
-             Tá brincando? E o hímen? Não bastasse o medo de engravidar, a preocupação sobre a depilação estar atrasada ou a ansiedade quanto ao escolhido pensar que você é fácil, a primeira vez ainda tem que envolver dor física? Tá louco!...
-             Depilação é chato mesmo...
-             Uma vez eu li, inclusive, que a origem do cavalheirismo está justamente no fato de o homem reconhecer, ainda que insconscientemente, que a mulher se diverte menos. Aí tenta equilibrar um pouco as coisas abrindo uma porta ou comprando uma florzinha.
-             Profundo isso...
-             É verdade que o homem se expõe ao abordar uma mulher que nunca viu antes, tem o lance da rejeição. Depois, a ansiedade da primeira transa, que, via de regra, também é decisão da mulher, e nós não conseguimos deixar de lado a preocupação de uma boa performance. Mas de resto, todo o resto, a decisão é nossa. É o homem quem decide se o flerte vira namoro, se o namoro vira casamento, se o casal vai ter filhos. Isso porque já existe na nossa cultura a certeza implícita de que a mulher quer essas coisas todas. Quer compromisso, quer ligação, quer relação séria e tal. Nós só vamos dando o “ok” conforme nos convêm.
-             Complicado, né?
-             Ah, demais até. Haja perseverança. E, olha, isso tudo para enfrentar uns bons setenta por cento de chance de ser corneada, porque os homens – isso em tese, não falo de mim – começam a olhar para o lado desde cedo. Não é para menos; difícil manter a linha com toda a oferta que tem por aí. Vocês sabem muito bem que a gente é visual, então capricham para chamar nossa atenção a todo momento. É uma competição ferina.
-             É...
-             Mas, escuta: por que você está respondendo tudo com essas frases vagas, meio que concordando, mas nem prestando atenção.
-             Estou te ouvindo, fique tranquilo, mas é que as mulheres conseguem fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo.
-             Ah, tá. Bom, e isso sem falar na competição entre vocês, que é um negócio de louco. Mesmo entre amigas, vocês registram tudo que as outras estão vestindo, com quem estão saindo, e comentam tudo com a maior malícia assim que a vítima sai de perto. Falam cada coisa que se a outra ouvisse iria querer morrer. Um veneno só! A amizade entre os homens não é assim. É tudo mais honesto, mais verdadeiro, mais limpo até!...
-             Não sei...
-             Acho que vocês, se pudessem, trocariam de sexo sem pestanejar. Imagine uma vida com força física para abrir qualquer vidro de palmito, sem depilação, sem hormônios, sem gravidez. Poder transar com quem quiser sem a preocupação de ficar mal vista. Ter a chance de tomar as grandes decisões, alcançar os melhores empregos. ...Mas, espere um pouco.
-             O quê?
-             Você disse há pouco que as mulheres conseguem fazer duas coisas ao mesmo tempo. Além de me ouvir, o que mais você está fazendo?
-             Ah, você começou a falar sobre as primeiras relações das mulheres, daí me veio à cabeça a minha. Lembro que eu escolhi um sujeito mais velho do que eu, que trabalhava perto da minha casa, um tipo que dava para sacar ser bom de cama só pelo jeito com que me olhava. Aí montei todo um esquema para ele achar que tinha tomado a iniciativa, acabamos saindo para dançar, a conversa também foi ótima, uma coisa foi levando à outra, e no final tive um ótimo começo, para dizer o mínimo. Tudo muito bem arquitetado, mas também não vou tirar o mérito do cara: ele olhava para mim – olho no olho mesmo, nada de ficar desviando – como se precisasse se controlar para não me agarrar ali mesmo, ao mesmo tempo em que se continha passando a mensagem de que sabia esperar pela hora certa quando valia a pena. Nossa, voltei para casa só quando o sol já estava alto. Só não ficamos juntos mais tempo porque cheguei à conclusão, depois de um tempo, que não iria me apaixonar. Sem motivos: não iria e pronto. Aí, a lembrança dessa noite trouxe a de outras noites ainda melhores, isso tudo foi me excitando, e como não deu nem tempo de gozar com a transadinha que a gente deu, eu me virei sozinha com os meus dedinhos enquanto você tagarelava sem nem olhar para o lado.
-             Ah... ...nem olhei?...
-             Foi. Mas não esquente a cabeça não, tá? Não é sempre que a química bate e você não tem motivo para ficar encafifado.
-             Não tenho?...
-             Claro que não, tem gente que demora um pouco mais para entender como as coisas funcionam. Mas toda panela tem sua tampa, não é o que dizem?
-             Dizem?...
-             É, relaxe. Ei, agora é você quem está respondendo com frases vagas. Vai me dizer que também faz duas coisas ao mesmo tempo?!
-             Não, eu não.