Eu olhava o documento pronto e
não reunia coragem para entregá-lo. Entenda-se: aquela porcaria não servia para
nada. Pontos de vista incoerentes e mal costurados com a capacidade de
convencimento do advogado do Hitler. Mas estava pronto e eu sabia que, aos
olhos míopes do meu chefe, aquele trabalho estaria impecável; aos meus olhos, consolava-me
que seria ele quem assinaria aquele aborto, e não eu.
O trabalho foi apresentado e, sem
pausa, apedrejado pelos chefes do chefe, que se voltou contra mim como se eu
não tivesse me resumido a obedecê-lo. Lição aprendida: os sorrisos seriam dele;
as carrancas, minhas. Após receber suas críticas esquizofrênicas, pedi humildes
desculpas pelo resultado e comecei a pensar em alguma forma de não voltar a ser
seu escudo. Pedi então que suas ordens fossem passadas a mim por e-mail, e lhe
disse que assim eu poderia me organizar melhor, além de me ajudar a não
confundir novamente os parâmetros do que ele esperava. O que eu pretendia, deve
estar claro, era guardar evidências de que o trabalho que eu fazia não
representava meus pontos de vista, mas unicamente os dele, que era impermeável a
sugestões e alertas. Como não é saudável a um empregado dizer “eu avisei” para
o chefe, sob pena de deixar de ser empregado, parecia uma ideia esperta e
diplomática. Que falhou. Ele era ainda mais esperto e diplomático,
respondendo-me “Maurício!... Prefiro nossa relação assim: próxima e informal”.
Ele não perderia seu escudo tão facilmente.
Fiz, então, o que todo mundo
faz quando lhe falta o que fazer: chamei alguns amigos, avisei que precisava
esbravejar um pouco (ou muito) e fomos tomar umas cervejas. Mal chegamos ao
boteco e eu já havia me aliviado com um gritado resumo ainda mais resumido
sobre o que acabei de resumir (mas temperado com bastante palavrão), e confesso
que o litro de chopp aguado que eu sorvi feito garoa na caatinga ajudou
bastante. Meus amigos fizeram comparações bastante específicas entre a mãe do
meu chefe e as profissionais cuja vida não é nada fácil, depois resolveram que
aquele bar era pouco para aliviar minhas dores de responder profissionalmente a
um idiota mal preparado e covarde. Tínhamos todos que ir para um pub onde seguiríamos tomando tudo que
líquido fosse, mas ao som de uma banda de hard
rock.
Eu não queria ir. Estava com o
sono atrasado, de pileque e sem nenhuma vontade de festejar. Queria ir para
casa ver filme pornográfico – uns cinco minutos deveriam bastar –, para depois
dormir. Era uma quinta-feira e eu não queria passar o dia seguinte como um
zumbi, mexendo no mouse do computador
para fingir trabalho toda vez que alguém se aproximasse, e tendo energia suficiente
só para ir até o bebedouro com uma previsível sede dos diabos.
O que eu fiz então, já que
estava resoluto em meus planos de singela masturbação? Fui para o pub. Chegando
lá, cada long neck tentava inutilmente
me alertar de que ela deveria ser a última, mas nenhuma foi eloquente o
bastante. O pileque evoluiu para a bebedeira descarada, e por isso a banda
conseguiu um fervoroso fã que cantava tudo junto com eles, mesmo sem conhecer as
letras. Todo mundo já foi o bêbado a ser evitado (ao menos é o que eu gosto de
acreditar toda vez que é a minha vez), só que nem todo mundo evita, e, naquela
noite, foi o caso de uma moça chamada Berenice.
Berenice atuou como uma leoa
que se mescla ao bege da vegetação das planícies africanas para pular sobre o
pobre gnu que será devorado sob o olhar indiferente de seus iguais. A analogia
não podia ser melhor: meus amigos assistiram a tudo sem mover uma palha em
minha defesa! Só não foram indiferentes; pareciam se divertir bastante com o
ataque da Berenice sobre mim. Ela veio dançando, sorrindo, cantarolando, e eu
atribuí sua aproximação à osmose que parece unir os bêbados naturalmente, tanto
que não percebi suas más intenções.
O termo “más intenções” merece
um adendo. As intenções seriam boas se a Berenice não fosse tão Berenice, mas
ela era a Berenice mais Berenice que eu já havia visto – tão ruim que mereceu esse
neologismo. Odeio soar exagerado, mas a moça desagradava a todos os meus
sentidos (até mesmo o tato e o paladar, como eu viria a descobrir).
Fato é que a Berenice veio se
encostando. Não gosto de futebol, mas acredito que lhe passou pela cabeça agir
como torcedores do mesmo time quando sai um gol. Dá pra chegar abraçando sem
maiores introduções, não dá? Foi o que ela fez. Eu, mesmo contando com uma
fração da minha lucidez, ainda assim me esquivei e sai furtivamente. Ela voltou
e puxou papo, sempre com a boca perigosamente perto. Como essas memórias não
são prazerosas, eu vou encurtar: tanto a Berenice fez que conseguiu de mim o
que queria e ficamos nos atracando num canto do palco. O resquício de
sobriedade que eu mantive não se conformou durante todo o processo, repetindo “francamente!...”
o tempo todo. Em algum ponto em fui salvo por aqueles a quem já chamei de amigos,
porque acordei em casa e em segurança. Após correr pelos cômodos da casa e
confirmar aliviado que dormi sozinho, corri para o escritório.
Cheguei ao trabalho atrasado e
meu chefe já me esperava para outro trabalho cuja metodologia não fazia
sentido. Dessa vez eu não fiquei bravo. Se nem eu me ouço, por que ele deveria?
Texto bem consistente, gostei de ver! Analogias bem construídas! Maurício, gostei mesmo! :D Esse foi revisado?
ResponderExcluirObrigado! Foi relido. Revisado mesmo, não.
ExcluirTexto bem amarradinho... curti!
ResponderExcluirVolte sempre!
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