Gosto
muito de cinema; de filmes para ser mais exato, já que também os assisto em
casa. Apesar dos momentos de originalidade, não são raras as vezes em que vivo
o que, num filme, seriam clichês: acordar batendo a mão no despertador e
levantando numa mal humorada espreguiçada, vestir-me fazendo tipos em frente ao
espelho... A sétima arte deveria, inclusive, ser alçada à segunda posição,
perdendo somente para a música. Dança, pintura, escultura, teatro e literatura,
ao menos em termos de popularidade, não gozam de tanto apreço.
Pois
eu acordei dias atrás no meio da madrugada e olhei para o relógio, que marcava
três e quinze da manhã. Fosse um filme de terror, eu estaria acordando de um
pesadelo, suado e de olhos esbugalhados, ou por causa de algum barulho sinistro
a ser investigado, onde minha curiosidade venceria o medo e me colocaria em
situações arriscadas. Mas a mediocridade desses clichês foi sobrepujada pela
honestidade da minha fome, verdadeira responsável pelo sono interrompido.
Indo
até a cozinha, poderia comer uma frutinha ou tomar um copo de leite, e assim o
episódio não faria nota. Isso se não houvesse em minha mente a figura indelével
de um acarajé – douradinho e fumegante, com camarões e vatapá caindo pelos
lados de tão bem servido. Além disso, recordava uma conversa recente com meu
tio João, com quem então me solidarizei, que confessara, tal qual uma grávida,
ter frequentes e inoportunos desejos por empadinha, vencendo qualquer calvário
para poder mastigar realizado o petisco de palmito e azeitona.
Duas
eram as perguntas que pediam resposta: eu sairia àquela hora em busca do
gorduroso quitute baiano? Haveria lugares onde encontrá-lo? Teria seu preparo
um mínimo de higiene? (Essa última não era bem uma pergunta; era só retórica). No
mais, já estava decidido. Destemido como um jovem Clint Eastwood, coloquei uma
roupa qualquer e fui para a rua. Anos atrás havia uma simpática senhora que
servia acarajé e tapioca numa rua do Bexiga para atender os estômagos cheios de
birita do público dos bares da região.
Cheguei
ao endereço sem problemas e as luzes dos letreiros dos bares e casas noturnas
não foram suficientes para ofuscar o brilho vulgar do quiosque de latão da
então famosa “tia do acarajé”. Sorridente e caracterizada como uma autêntica
baiana – exceção feita somente às sandálias “crocs” que agora todo mundo usa,
permanecia sendo o porto seguro de boêmios famintos. Seria um perfeito e
nostálgico desfecho para a história se não fosse o fato de que havia acabado o
camarão. Acarajé ainda havia, mas fatalmente incompleto.
Teriam
os Cavaleiros de Camelot, mesmo na
versão do Monty Phyton, se contentado
com uma canequinha, em substituição ao cálice do Messias? Dorothy desistiria do mágico de Oz em troca de uma passagem de
avião para o Kansas, ainda que de classe executiva? Tampouco eu. Camarões eram
imprescindíveis. Já eram quatro e meia da manhã, eu vestia calça de moletom
surrada com havaianas, e meu ridículo merecia recompensa que o justificasse.
Outros acarajés foram recordados, sem esperança de que seus cozinheiros
estivessem acordados e dispostos. Num último esforço, lembrei-me de um
restaurante nortista no Largo da Concórdia, que poderia estar aberto àquela
hora. Sim, eu temia por meu patrimônio e integridade física, mas tinha um
propósito; como diria o consagrado Capitão Nascimento, “missão dada e missão
cumprida, parceiro”.
Parei
meu carro num estacionamento ao lado de um forró, cujo ambiente me remeteu ao
bar Titty Twister, de “Um Drink No
Inferno”, clássico thrash de Robert Rodriguez, e também aos inferninhos
do ótimo “Cidade Baixa”, de Sérgio Machado. Meus molambos misturaram-me
perfeitamente ao ambiente, e após passar por ambulantes gritando as vantagens
de seus sanduíches de pernil e carne seca, além de uma miríade de pastéis com
incontáveis formatos e cheiro idêntico, encontrei meu destino: o restaurante
que vendia acarajés para uma pequena multidão que se aglomerava em sua porta,
peleja na qual me envolvi e saí vencedor. Depois de toda a busca, foram
necessários dois acarajés, mas eu voltei para casa leve. Excepcionado meu
estômago, que estava sobrecarregado, eu estava leve.
Dirigi
para casa com a serenidade do dever cumprido, ouvindo um relaxante quarteto de
cordas na Radio Cultura enquanto já começavam a baixar os letreiros da história
que eu havia protagonizado. Chegando em casa ainda pude dormir umas poucas
horas antes de ir para o trabalho e ainda diverti meus colegas no primeiro café
da manhã com a narrativa das minhas peripécias. Noutra noite, após assistir
“Simplesmente Complicado”, um dos filmes recentes da Merrill Streep, fiquei com a cabeça nos croissants de
chocolate que sua personagem fez para a do Steve
Martin, e lembrei de uma padaria em Higienópolis que poderia estar aberta.
Mas voltei a dormir; não vejo filme repetido.
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