terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Tempero Urbano




Gosto muito de cinema; de filmes para ser mais exato, já que também os assisto em casa. Apesar dos momentos de originalidade, não são raras as vezes em que vivo o que, num filme, seriam clichês: acordar batendo a mão no despertador e levantando numa mal humorada espreguiçada, vestir-me fazendo tipos em frente ao espelho... A sétima arte deveria, inclusive, ser alçada à segunda posição, perdendo somente para a música. Dança, pintura, escultura, teatro e literatura, ao menos em termos de popularidade, não gozam de tanto apreço.


Pois eu acordei dias atrás no meio da madrugada e olhei para o relógio, que marcava três e quinze da manhã. Fosse um filme de terror, eu estaria acordando de um pesadelo, suado e de olhos esbugalhados, ou por causa de algum barulho sinistro a ser investigado, onde minha curiosidade venceria o medo e me colocaria em situações arriscadas. Mas a mediocridade desses clichês foi sobrepujada pela honestidade da minha fome, verdadeira responsável pelo sono interrompido.


Indo até a cozinha, poderia comer uma frutinha ou tomar um copo de leite, e assim o episódio não faria nota. Isso se não houvesse em minha mente a figura indelével de um acarajé – douradinho e fumegante, com camarões e vatapá caindo pelos lados de tão bem servido. Além disso, recordava uma conversa recente com meu tio João, com quem então me solidarizei, que confessara, tal qual uma grávida, ter frequentes e inoportunos desejos por empadinha, vencendo qualquer calvário para poder mastigar realizado o petisco de palmito e azeitona.


Duas eram as perguntas que pediam resposta: eu sairia àquela hora em busca do gorduroso quitute baiano? Haveria lugares onde encontrá-lo? Teria seu preparo um mínimo de higiene? (Essa última não era bem uma pergunta; era só retórica). No mais, já estava decidido. Destemido como um jovem Clint Eastwood, coloquei uma roupa qualquer e fui para a rua. Anos atrás havia uma simpática senhora que servia acarajé e tapioca numa rua do Bexiga para atender os estômagos cheios de birita do público dos bares da região.


Cheguei ao endereço sem problemas e as luzes dos letreiros dos bares e casas noturnas não foram suficientes para ofuscar o brilho vulgar do quiosque de latão da então famosa “tia do acarajé”. Sorridente e caracterizada como uma autêntica baiana – exceção feita somente às sandálias “crocs” que agora todo mundo usa, permanecia sendo o porto seguro de boêmios famintos. Seria um perfeito e nostálgico desfecho para a história se não fosse o fato de que havia acabado o camarão. Acarajé ainda havia, mas fatalmente incompleto.


Teriam os Cavaleiros de Camelot, mesmo na versão do Monty Phyton, se contentado com uma canequinha, em substituição ao cálice do Messias? Dorothy desistiria do mágico de Oz em troca de uma passagem de avião para o Kansas, ainda que de classe executiva? Tampouco eu. Camarões eram imprescindíveis. Já eram quatro e meia da manhã, eu vestia calça de moletom surrada com havaianas, e meu ridículo merecia recompensa que o justificasse. Outros acarajés foram recordados, sem esperança de que seus cozinheiros estivessem acordados e dispostos. Num último esforço, lembrei-me de um restaurante nortista no Largo da Concórdia, que poderia estar aberto àquela hora. Sim, eu temia por meu patrimônio e integridade física, mas tinha um propósito; como diria o consagrado Capitão Nascimento, “missão dada e missão cumprida, parceiro”.


Parei meu carro num estacionamento ao lado de um forró, cujo ambiente me remeteu ao bar Titty Twister, de “Um Drink No Inferno”, clássico thrash de Robert Rodriguez, e também aos inferninhos do ótimo “Cidade Baixa”, de Sérgio Machado. Meus molambos misturaram-me perfeitamente ao ambiente, e após passar por ambulantes gritando as vantagens de seus sanduíches de pernil e carne seca, além de uma miríade de pastéis com incontáveis formatos e cheiro idêntico, encontrei meu destino: o restaurante que vendia acarajés para uma pequena multidão que se aglomerava em sua porta, peleja na qual me envolvi e saí vencedor. Depois de toda a busca, foram necessários dois acarajés, mas eu voltei para casa leve. Excepcionado meu estômago, que estava sobrecarregado, eu estava leve.


Dirigi para casa com a serenidade do dever cumprido, ouvindo um relaxante quarteto de cordas na Radio Cultura enquanto já começavam a baixar os letreiros da história que eu havia protagonizado. Chegando em casa ainda pude dormir umas poucas horas antes de ir para o trabalho e ainda diverti meus colegas no primeiro café da manhã com a narrativa das minhas peripécias. Noutra noite, após assistir “Simplesmente Complicado”, um dos filmes recentes da Merrill Streep, fiquei com a cabeça nos croissants de chocolate que sua personagem fez para a do Steve Martin, e lembrei de uma padaria em Higienópolis que poderia estar aberta. Mas voltei a dormir; não vejo filme repetido.

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