Devia passar das
três horas da tarde e ainda não havia chegado ninguém; o suor já tingia minha
camisa com manchas escuras e a espera debaixo do sol a pino já tinha sido suficiente
para que eu pudesse ensaiar todas as grosserias que seriam despejadas sobre
quem viesse me encontrar. O calor era infernal e a única árvore próxima estava
empesteada por formigas bem territoriais, o que descobri na minha breve
tentativa de refúgio da fornalha que castigava aquela encruzilhada de estrada
do interior. O vermelho da terra empoeirada encontrava o azul do céu numa
fronteira inconciliável, separados também por uma quilométrica cerca de arame
farpado que parecia proteger uma cor da outra.
A promessa de um
emprego medíocre ter sido suficiente para me colocar naquela situação era um
sinal do quanto já havia dado errado em minha vida de filho sustentado pelos
pais, situação da qual só não saí sozinho porque fui expulso antes. Continuava ensaiando
diálogos mal-educados quando, ali no horizonte, onde a cerca dividia o céu da
terra, uma figura começou a se formar, pouco depois se distinguindo nela um
homem. Devia estar confortável debaixo da sombrinha vermelha que trazia
consigo, pois seu passo era calmo e estável, como o de uma carola de procissão.
Como se aproximava
devagar, poderia ao menos ter começado a falar assim que nossa distância
tornou-se pequena o bastante para que nos ouvíssemos, o que aliviaria minha
ansiedade, mas não pronunciou sílaba sequer até que estivéssemos próximos ao
seu gosto. Apelidarei o sujeito de Walmor, pois não nos apresentamos e também nunca
mais o vi, mas havia certa semelhança com o ator Walmor Chagas – o suficiente para
uma referência. Ao se aproximar, mediu-me como que confirmando as descrições
que lhe teriam passado, para enfim dizer algo.
- É
Maurício o seu nome?
- É. Estava
esperando desde antes do meio dia nesse calor do capeta. Belo atraso, hein? E
ainda vamos andar o resto a pé? Por que não combinaram o encontro direto na
cidade?
Ele
devolveu-me apático, como quem enumerava minhas frases: “sim, foi um belo atraso;
sim, o resto é a pé; sei lá o porquê”. Nos meus ensaios de diálogos mal
educados, meu interlocutor nunca era respondão porque sabia que a vítima era eu,
e não me negava o prazer singelo da descortesia unilateral. Fiquei embaraçado
com o contra-ataque e me resumi a segui-lo na caminhada em relativo silêncio,
maculado somente pelo meu amor próprio, que gemia e tossia agoniado.
Quando chegamos aos
primeiros quarteirões daquela acanhada cidade de interior, perguntei-lhe onde
encontraríamos o Sr. Sousa, com sorte meu futuro empregador no cintilante ramo
da contabilidade. Ele, que andava alguns passos na minha frente, não respondeu
nem deu sinal de ter ouvido, então eu tentei cutucá-lo no ombro para chamá-lo
com mais decisão. Foi quando me despedi de parte da minha sanidade. Minha mão
atravessou seu corpo sem freios, como se ele fosse feito de vento, o que me fez
gelar por dentro. Procurei me acalmar pensando no meu cansaço e possível
insolação; então, repeti o cutucão mas o resultado foi o mesmo, transformando
meu espanto duvidoso em pânico certo. Contive-me e segui andando sem demonstrar
alterações.
Ao chegarmos num bar
de esquina com um pesado letreiro de madeira escura onde se lia no entalhe “O
Vinho Nos Une”, o que podia ou não ser o nome do lugar, o etéreo Walmor fez
sinal para que eu me sentasse numa das mesas postas na calçada. Nem o medo do
próprio tinhoso me afastaria de uma mesa de bar naquele momento, ainda que o capeta
quisesse dividir comigo a primeira rodada. Trocar minha tarde de espantalho de
encruzilhada e companheiro de fantasma por uma cerveja, e sentado à sombra, era
o descanso no paraíso, com diabo ou sem. Sentei-me, dei uma longa espreguiçada
de olhos fechados e somente tive tempo de ver pela última vez o Walmor dobrando
a esquina. Após um breve descanso, ainda matutando sobre meu encontro com o
impossível, entrei no botequim que cheirava à madeira molhada e fui até o
balcão chamar alguém com um assobio. Um
senhor apareceu desejando boa tarde e perguntando o que eu desejava, enquanto
limpava as mãos em um pano que claramente não servia para o propósito. Levei
alguns segundos para me recompor e respondê-lo porque aquele homem tinha o mais
estranho par de olhos com que já cruzei. Impossível até onde eu sabia, seus
olhos não se moviam conjuntamente, mas independentes um do outro, como os de um
camaleão. Com tamanha excentricidade era impossível conversar naturalmente; ele
me olhava enquanto limpava um copo, dando igual atenção visual para ambos.
Enfim, concentrei-me e pedi uma cerveja, nada mais. Após informar que levaria a
bebida até a minha mesa, voltei ao meu posto de descanso para aguardá-la.
A ira da espera no
sol já tinha dado espaço a uma sensação que se alternava entre instigante e
amedrontadora. Eu vivia num episódio do extinto “Além da Imaginação”, e isso
pode ser perturbador quando não se sabe quem é o mocinho. Tomei a primeira
garrafa num piscar de olhos; a segunda, mais calmamente. Antes da terceira, já
precisei ir ao banheiro e vi que o Sr. Sousa havia chegado. Àquela altura era
mera presunção minha, pois havia um homem sentado na minha mesa – a única
ocupada do bar.
Cumprimentei-o com
cortesia e por ele fui também bem recebido. Pediu-me desculpas pelo atraso e o
justificou-se como pôde, contando com a benevolência de que quer ser empregado.
Falei sobre a minha experiência profissional, trocamos histórias de escritório
– umas engraçadas, outras nem tanto – e a conversa passou então para um típico
bate-papo de boteco. O Sousa parecia ser um sujeito de bom convívio e a ideia
de trabalhar para ele começava a soar promissora.
Enquanto falávamos
amenidades, uma moça muito bonita de rosto e corpo passou caminhando pela
calçada do bar, passando bem próxima na nossa mesa. Trocamos um longo olhar.
Assim que ela passou, em respeito ao mais recorrente cacoete masculino,
virei-me para apreciar nela o que pela frente não se vê, e descendo meus olhos por
suas bem torneadas pernas, vi o que mudou radicalmente o rumo dos meus
pensamentos, que então eram de inocente safadeza. Depois do homem sem
substância e do dono de bar com olhos desgovernados, era a vez da formosura que
voava, ainda que baixinho.
- Seu
Sousa, a mulher está flutuando! Olhe bem! Os pés não tocam o chão!
- Fala
baixo!... - respondeu-me consternado.
- O
cara do balcão tem olho de camaleão; a moça flutua; o Walmor é feito de
vento...!
- Walmor?!
- Esquece
o nome! Estou falando do velho que me encontrou no cruzamento da estrada e me
trouxe aqui. Minha mão atravessou o sujeito duas vezes. Que loucura é essa?
- Todo
mundo tem algo que não bate, moleque. E para
de falar tão alto porque se o Anselmo te ouve, acabou-se.
- Mas,
seu Sousa, eu vou ter que trabalhar num lugar desses?! (E quem é Anselmo?!...)
- Amigo,
não me leve a mal, mas você chega numa cidade para uma vaga de trabalho e toma
duas garrafas de cerveja antes da entrevista. Sinto muito, mas contador bêbado é
que incomoda de verdade.
E dizendo isso jogou
na mesa duas notas que bastavam para pagar toda a conta do bar e levantou-se,
deixando-me atônito. Sempre que alguém vai embora, sua figura vai diminuindo à
medida que se afasta, mas tive a impressão de que o Sousa diminuía muito mais
rápido do que a distância que suas passadas permitiriam, sumindo em poucos
segundos, apresentando-me assim a mais um episódio insólito.
Enquanto eu via meu quase
futuro empregador sumir diante dos meus olhos, ouvi a risada de um mendigo de quem
eu sequer havia notado a presença até então, mas que estava sentado no chão não
muito longe de nossa mesa, e que decerto havia ouvido a conversa. Sem ninguém a
quem recorrer, fui até ele, que se mantinha sentado e sorridente, e perguntei-lhe
se sabia o que acontecia naquele lugar abandonado por deus. Ele permaneceu
sentado no chão com as costas na parede e mãos fechadas junto ao abdômen.
Olhou-me e, com ares de confidência, disse-me: “na hora em que você souber, já
não é você”. Depois abriu as mãos fazendo dali surgir um pequeno redemoinho,
que cresceu rapidamente e me engoliu, enquanto eu ainda ouvia suas risadas em
crescente descontrole. Ainda não sei onde estou.
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