quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O Fardo ao Lado


É fácil pressupor que estávamos todos do mesmo barco, batizado de espanto dissimulado. Então o Aníbal era viado. Pensando bem, até que fazia sentido: se antes eu já o havia visto com mulher, eu também nunca o vi num relacionamento, ainda que curto (e sempre brinquei que homem mesmo não é quem come mulher, mas quem chora por elas, o que o excluía). É verdade que ele não tinha nenhum trejeito, nem modos afeminados, mas também não há uma cartilha obrigando os gays a soltar a franga, só para facilitar as aporrinhações alheias.
Assim que ele afirmou sem eufemismos (que seriam desejáveis) “eu sou gay”, nós cinco (ele incluído), pegamos nossas pesadas canecas de cerveja e as levamos às bocas que não puderam expressar  nada mais perspicaz, e ficamos nos olhando por cima da extremidade dos copos esperando quem iria optar por falar ao invés de transformar a cerveja em pretexto encurtado por angustiadas talagadas. O Rafael foi o primeiro a abandonar o copo vazio e lançar “quero minha vez de novo. Pode ser?”. É claro que podia, afinal todos ganharíamos mais tempo para digerir a maneira como o Aníbal estava lá na nossa frente, franzino e discreto como sempre, mas diferente como nunca.
- Eu sei que a gente combinou que cada um confessaria uma parada sexual e escolhi falar da noite em que eu gastei quinhentos paus para comer duas mulheres juntas, apoteose das fantasias masculinas, porque fiz quarenta anos sem conseguir isso de graça. Mas tem pior. Pessoal, eu broxei na minha noite de núpcias, com a Renata ainda vestindo uma boa parte do vestido de noiva, e comecei a chorar!... Do nada, é sério!... Eu não sei o porquê até hoje, mas comecei a chorar copiosamente e não parei até dormir cansado e abraçado no colo da noiva, que naquela noite perdeu o marido e ganhou uma criança de colo. É raro, graças a Deus, mas isso ainda acontece. Um sentimento esquisito me atropela e acaba com tudo.
Novo silêncio. Não devia ser nada fácil para o Rafael dizer aquilo. Com um pai e irmãos como os dele, era-lhe impossível ver a virilidade como uma parte sua tão involuntária quanto a cor dos cabelos; antes, era um baluarte a ser ostentado, uma virtude que, trêmula nos demais, seria imperturbável nele. O Aníbal dirigiu-lhe um sorriso e foi correspondido: “uma confissão difícil por outra”, pensei. É fato que eu achei um pouco desconexo comparar uma intimidade com um constrangimento, mas não era hora para ser detalhista. Todos os copos já haviam baixado, e talvez as guardas também o estivessem.
“Também exijo retificação!”, disparou bem-humorado o Olavo, olhando os demais como quem tem uma quadra de ases – seja lá o que isso signifique, porque eu não jogo pôquer.
- Teve uma vez que eu estava no carro, já bêbado, indo embora de um churrasco com a minha mulher, a Bruna, e demos carona para duas amigas dela, a Renata e a Paula. Como a Bruna e a Renata estavam engatadas numa conversa e eu devia estar chato, decidiram me mandar para o banco de trás com a Paula. O que elas não sabiam é que eu já estava pegando a Paula. No caminho, o papo das duas acabou, A Renata dormiu, e eu vi que o espelho retrovisor da minha mulher estava num ângulo que não via a gente lá atrás. Pessoal, eu fiquei mandando brasa e minha mulher nem notou!... – concluiu ele, feliz com sua mentira cafajeste.
- Cala a boca, Olavo!... – ouviu num quase uníssono de bocas impacientes por serem vizinhas de ouvidos mal tratados.
Se ele realmente não tinha entendido que a tônica da conversa havia mudado, ou se não conseguia evitar essas mentiras que não seriam salvas ainda que verdades, eu nunca vou saber. Depois de ter seus protestos aceitos para não seguirem ressoando, eu já sabia que minha vez chegaria, e não queria perdê-la em um comentário vazio. Eu sentia que o Aníbal havia nos colocado em um novo patamar de amizade, e eu me sentia na obrigação de igualá-lo. Já que eu me perdia nessa reflexão enquanto montava uma carinha com caroços de azeitona, o Manuel começou a falar sem introduções:
- Eu tenho uma amante há mais de um ano e meio. Mesmo quando está tudo bem em casa, eu nunca tive uma vida sexual legal com a Fabíola. É legal quando rola e tal, mas só uma vez por mês, na média. Falei com ela um monte de vezes, ora com jeito, ora bravo, mas a mudança, quando há, é pontual e tudo volta a ser como antes. Acho que é preguiça dela, não sei. Mas cansei que mendigar e não me sinto nem um pouco culpado.
Sobraram mãos compreensivas em seus ombros. Ainda não nasceu um homem incapaz de se solidarizar com um problema que afeta absolutamente todos os casados, embora nem todos deem a mesma vazão à energia que sobra. Fiquei surpreso pelo Aníbal, cujo semblante era idêntico ao nosso: pura cumplicidade. Sempre presumi que entre os gays (os homens, pelo menos) o sexo fosse uma questão mais simples. Sem os entraves femininos, imaginava que o tesão fosse menos burocrático. Mas o que eu sei disso, afinal? Estávamos unidos em nossa honestidade.
- Eu não sei, gente. – reconheci enfim, para fora e para dentro. – Vocês todos estão mostrando para o Aníbal que a gente está junto, e eu quero fazer o mesmo. Mas eu não tenho a clareza de vocês todos, com exceção do Olavo. Mesmo quando a gente era moleque, na maioria das vezes em que eu pegava mulher, seguia em frente unicamente porque a oportunidade surgia. Não tinha o menor tesão por boa parte daquelas meninas, nada em que me apegar, mas seguia em frente do mesmo jeito. Agora já abandonei esse piloto automático carente, mas hoje vejo o sexo como uma espécie de selo de qualidade: se o sexo está bem, a relação também deve estar. Aí, quando surge qualquer faísca de mal-estar, eu só penso em sacanagem, o que não ajuda nem a discussão, nem a trepada. Ainda estou esperando chegar o dia em que o sexo vai ser só sexo...
Também ganhei umas mãos nos ombros e uns tapinhas nas costas. O Olavo me olhou nos olhos e disse “eu sei como é... também me sinto fútil às vezes”. Não entendeu nada de novo, é claro, mas quanto à minha situação estávamos empatados. Um viado recém-saído do armário, um chorão, um adúltero resignado, uma anta e um ponto de e interrogação ambulante. Bonito grupo, aquele. Foi o Aníbal quem concluiu dizendo “nós precisamos muito uns dos outros”, enquanto alternava seu olhar para cada um de nós para se certificar de que era plenamente compreendido, e todos assentiram com a cabeça em movimento lentos, mas certos. “À amizade”, alguém deveria ter dito em sugestão de brinde enquanto ergueríamos as canecas reabastecidas de cerveja e companheirismo, mas teria sido redundante.

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