A criança estava quieta e divagava; seus olhos,
perdidos num ponto qualquer, não olhavam para frente, mas para dentro. A mãe
cuidava de afazeres da casa, notava a situação sem estranheza e com um sorriso
discreto, já ciente de que seu filho era dado à introspecções. Foi quando o
menino perguntou: “mãe, é isso que é pensar?”.
Ao menos em relação às introspecções, receio
não ter mudado muito. Não havendo o que – ou quem – me ocupe as ideias, entro
invariavelmente num estado de stand by. Não me restringi, contudo, no
pensar sobre o pensar, e logo mirei obstinado na felicidade, que só é procurada
por quem não a tem. Mas as situações eram de fato semelhantes: antes, eu não
atinava que já pensava enquanto desvendava o que viria a ser “o pensar”; tempos
depois, matutava sobre o “ser feliz” enquanto construía nebulosos paradigmas
que, na verdade, me roubavam a lucidez necessária para refletir direito.
Antes de procurar a felicidade, já que não se
investiga o que não se conhece, busquei sua definição e conclui que talvez fosse
uma vida sem percalços. Naqueles tempos mais simples, pareceu-me que bastaria
que não existissem provas escolares para que tudo ficasse bem. Mais tarde,
ainda pensando não tê-la encontrado, eu descobriria crédulo que, muito mais do
que passar sem a ansiedade dos estudos atropelados em véspera de prova, a
felicidade era estar apaixonado e ser correspondido – e acho que foi o mais
perto que eu cheguei de uma definição satisfatória. Mas bastaram alguns
episódios espinhosos para que eu visse o amor como um bem fugaz demais para
guardar em si toda a significância do que seria a felicidade – que poderia até
permanecer um mistério, mas haveria de ser mais estável do que o amor.
Foi a música, enfim, que confunde amor e
felicidade todo o tempo em menções torrenciais de esperança e contentamento, que
trouxe a palavra final. E foi justamente na direção contrária, numa mensagem
desoladora, que eu encontrei a felicidade definida por sua ausência, pelo
negativo da sua foto, pelo vazio lacerante e inconfessável de sua falta. Na canção
“Passarim”, lamenta Tom Jobim:
Passarim quis pousar, não deu, voou
Porque o tiro partiu mas não pegou
Passarinho me conta, então, me diz
Por que que eu também não fui feliz
É a última frase a que mais importa: “Por que
que eu também não fui feliz?”, com ênfase no “também”, sussura que quem sofre
vê a felicidade dos outros e isso só faz amargar ainda mais seu “não amar”.
“Por que é que eu também não fui feliz?”, sem um “ainda” que o salve, mostra a
resignação de quem já se sabe incompleto, mas não aceita; ainda pergunta
retórico sobre as razões de sua desventura. Só a felicidade para causar tanta
dor quando vai embora, ou, como nessa canção, quando sequer chega.
as concha quebradas na areia da praia me parecem como partes de " ainda's " , pedaços de felicidades definidas por sua ausência, curvas quebradas de desamores, desilusões, ali repousando no silêncio do mar, no aconhcego da areia .... transformando-se com sorte em pó.
ResponderExcluirBonito... já te falei para escrever mais. Obrigado pela visita.
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