Ela tratava a todos com atenção e um sorriso luminoso nos lábios; parecia
também ser solícita e boa ouvinte. Logo nos primeiros amén ficou evidente a relação entre seu leve estado de espírito e a
religião que lhe suportava e alimentava. Meu incômodo foi imediato. Estávamos
numa festa de aniversário de alguém (não me lembro de quem), mas me recordo
dela porque acidentalmente engatamos conversa e eu sempre desconfio da alegria
de quem nega a tristeza. Pode parecer dicotômico demais, mas não acho que se
conhece o ying sem o yang.
Eu estava pesquisando num dicionário online
um substituto para o verbo “fazer”, que serve para tudo sem explicar nada, quando
o assunto me veio à mente. Então consultei a palavra “ateu”, mas o resultado
não satisfez. A definição é a de alguém que não acredita em deus – com letra
maiúscula. Não era isso. Minha memória logo me acudiu com a palavra
“agnóstico”, e enfim eu cheguei à doutrina filosófica que declara as questões
metafísicas como inacessíveis ao espírito humano, por não serem passíveis de
análise pela razão. Aí respirei aliviado; meu descrédito já havia sido batizado.
Alguns religiosos têm uma paciência sem-par para a discussão metafísica –
os testemunhas de jeová são bons exemplos, e parecia ser também o caso daquela
menina (a que eu abandonei para poder falar do dicionário). Conversamos muito e
abordamos o tema da crença por vários enfoques. Recordo-me agora que ela confrontou
minha falta de fé principalmente em três aspectos, que didaticamente podemos
chamar de natureza, transcendência e fraternidade.
Sobre a natureza, defendeu que eu, gostando tanto do mar, falando
apaixonado sobre o mergulho autônomo e a vida marinha, como negaria a perfeição
do engenheiro silencioso por trás de tudo? “Ponto de vista”, respondi sem
humildade. O mergulho é uma das experiências mais bonitas que se pode ter, mas é
também um ambiente muitíssimo violento, onde a dinâmica presa-predador se
embrenha em cada grão de areia, cada corrente ou recife. Será que a presa se comove
com a perfeição das múltiplas arcadas dentárias de um tubarão que vem em sua
direção? Com a velocidade do ataque de uma barracuda? “Sistema bem imperfeito”,
diriam se pudessem.
Quanto à transcendência, perguntou-me sobre o sentimento de solidão que
traria o reconhecimento de que o mundo é feito só pelo que se vê e toca; sobre
as coisas serem somente coisas. Não seria desolador? Seria, mas não me via
parte desse grupo avoado e apegado ao mundo físico. A introspecção da meditação,
ou mesmo a contemplação de uma obra de arte que mereça esse nome; são experiências
muito maiores do que se presume – e acolhem quem se dispuser à experiência,
independentemente de fé. Enfim, a transcendência é essencial. Os olhos se
fecham serenamente e os pensamentos, que antes atravessavam a mente como carros
numa autoestrada, não são somente descartados, mas dissolvidos. Com o tempo,
reconhece-se afinal o significado da paz – uma nova tranquilidade que descansa
o corpo de fatigas que ele próprio desconhecia. E o mero vislumbre de obras como
“A Ascensão”, de Salvador Dalí – de inspiração religiosa, diga-se – comprova a
impossibilidade de resumi-la um quadro e moldura. Ela transcende, e isso,
podemos todos.
Por fim, a fraternidade. O que seria da humanidade, ela dizia, sem os
atos de bondade inspirados pelos textos sagrados? Sem a doação com que os
crentes abençoaram e abençoam o mundo há séculos? Temi ser desrespeitoso, mas
respondi que estaríamos melhor, e fui sincero. A ajuda ao próximo é indiferente
a qualquer doutrina religiosa; é o cerne da vida em sociedade desde a que ela
tem esse nome: é o altruísmo. Sempre fomos capazes das maiores atrocidades, mas
também sempre tivemos uma mão oferecida ao próximo em momento de necessidade.
Acredito que o ímpeto de ajudar o semelhante viria com o incentivo religioso ou
sem ele. O que não sei é se as desgraças patrocinadas pela religião teriam
arrumado outro veículo – o fanatismo parece ser fruto seu.
A discussão foi minguando e tomando outros rumos. Sempre me sinto
intimamente envergonhado pela prepotência que ganho nessas conversas. Acabo
acreditando que tenho todas as respostas e me inflo; e se depois corro para
atenuar essa sensação, nem assim deixo de reconhecê-la. A festa acabou, a
amizade ad hoc também. Não a vi mais
por anos, até que, voltando para casa do trabalho num começo de noite, apertado
num vagão de metrô, reconheci seu rosto que em nada havia mudado, no meio dos
paulistanos. Demorei duas paradas para recordar seu nome e poder cumprimentá-la;
como descemos no mesmo ponto, a conversa pôde seguir mais um pouco.
Era outra pessoa. Nossa conversa na festa não havia sido o ponto de
partida, mas tinha dado mais combustível a algumas inquietações que já
germinavam nela. Então, a sensação de dúvida de fé foi ainda mais alimentada
com a convivência de um novo namorado (que já era ex-namorado àquela altura).
Disse-me que foi se distanciando de suas crenças, voltando-se mais para o
trabalho e outras atividades, tornando-se também mais questionadora e racional.
Estaria tudo bem se eu não estivesse lendo nas entrelinhas. Ela falava com demasiado
sarcasmo sobre quem era antes – a moça sorridente e ingênua. Sua falta de fé originou
falta de perspectiva, de propósito. “A morte que nos aguarda não justifica
velório desde já!”, pensei assustado com a transformação que via.
Então lhe falei sobre uma entrevista que havia lido, onde a entrevistada,
que era religiosa, falava que a fé sempre teria seu lugar no mundo porque,
enquanto o papel da ciência se restringia a evitar a morte, a religião ensinava
a morrer em paz. Ela estranhou que eu estivesse defendendo o que ela chamou de
alienação, novamente em tom mordaz. Perguntei-lhe então o que lhe dava prazer
naqueles dias, pois a religião, antigamente, parecia ter papel certo em suas
alegrias. Disse-me que gostava de cinema, de beber com amigos, essas coisas. Eu
também gostava daquilo tudo, mas sua resposta foi descolorida, burocrática.
A moça da entrevista estava certa: nós, que não temos fé, provavelmente
enfrentaremos a morte com mais medo e impotência, pois nada há que amenize o
fim abrupto, que não se abre na forma de transição para qualquer outra forma de
existir. Mas, se não sabemos morrer direito, é melhor que aprendamos a viver
bem o quanto antes.
Nossa caminhada juntos terminava; seguiríamos o restante do caminho para casa
por caminhos diversos.
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