segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Entre a Cova e o Patuá



Não podia evitar as crendices e minha falta de grana não me dava acesso a um psicólogo que talvez colocasse alguma luz na minha ignorância. Aliás, ignorância talvez não fosse o termo certo, pois não me escapava que talvez estivesse fazendo papel de bobo com minhas superstições; tanto que procurava esconder e controlar esses demônios particulares. Passar embaixo de escada, cruzar caminho de gato preto, espalhar copos de sal grosso e ramos de arruda pela casa, não tomar leite com manga, não descer da cama com o pé esquerdo. Havia bem mais do que dez mandamentos.
Por falar em Bíblia, eu a consultava com frequência, bem como o Torá, o Corão, o Evangelho Segundo o Espiritismo, e até o Livro de São Cipriano, extraindo deles as mais improváveis e contraditórias conclusões. Meu dia era enfardado com descabida liturgia simplesmente porque sempre havia sido assim, e minha intuição me dizia que era a única coisa entre mim e a danação. Sendo o próprio torneiro dos meus grilhões, assistia-os lacerarem minha pele ao mesmo tempo que me traziam uma incongruente forma de conforto. Uma verdade era incontestável: minha vida não se tornava mais simples com tanta regra.
Tempos atrás, deixei de escolher qualquer uma das muitas razões que tinha para dispensar um convite de amigos para uma reunião na casa de um deles. Lá estariam alguns sujeitos cujo humor parasita me tinha como alvo frequente, destacando e enfatizando minhas manias para diversão da maioria. Ainda assim eu fui ao encontro com o firme propósito de não oferecer oportunidades ao comediantes.
A noite transcorria excepcionalmente bem, com poucos e contornáveis episódios, quando um infeliz fez uma piadinha de humor negro envolvendo vida e morte de um dos presentes. Meus olhos procuraram instintivamente madeira qualquer em que eu pudesse bater três vezes para assim salvar a vida daquele desavisado. Esses mesmos olhos, contudo, contiveram-se ao notar que minha inquietação havia chamado a atenção do mais voraz dos predadores, um sujeito baixinho e careca que via em mim o veículo de desabafo para suportar o fato de a natureza tê-lo feito tão mal acabado.
Seu olhar procurava em mim indícios de fraqueza e fez com que eu freasse meus instintos supersticiosos. De mãos quase imóveis, resumidas a levar-me cerveja e amendoins à boca, mantive meu silêncio, mesmo colocando a vida de um amigo em risco. Mais tarde eu fui para casa caminhando e refletindo entre duas fortes sensações: a negligência em não ter batido na madeira e o disparate vergonhoso que era crer genuinamente na relação de causa e efeito entre não bater na madeira e concretizar uma desgraça. Por falar nisso, o nome desse amigo é João – não que faça diferença.
Vivi os dias seguintes com desconforto e tentava amenizar esse desalento repassando algumas conversas com minha mãe, figura infinitamente mais segura e centrada do que eu, invejavelmente cética. Sequer tem religião, símbolo máximo da superstição disfarçada em virtude. Sempre que podia, frisava a liberdade que as superstições me roubavam, e que Deus, caso existisse, não quereria entulhar a vida de seus filhos com tanta burocracia.
Pouco tempo depois, soube que João estava muito feliz com a recém-descoberta gravidez de sua esposa, algo que ambos vinham tentando há tempos. Não só ele não perdera a vida como forjara uma nova. Senti-me revigorado. Naquela mesma semana, fui promovido em meu emprego e soube também que Artur, o autor da piadinha e criador de toda a confusão, havia se divorciado, desvencilhando-se enfim de um casamento desgastado com uma mulher que nada fazia senão brigar e reclamar. Disseram-me que ele estava bem e reconhecia que o amor daquela união era uma memória distante, faltando apenas um estopim para que as mudanças – para melhor – se iniciassem.
Pergunto-me se está correta minha mãe, aquela incrédula. Não haveria afinal cordões invisíveis fazendo-nos dançar conforme um ritmo que ninguém ainda entendeu? Talvez ela esteja certa. Mas se assim for, negar o azar fará também negar a sorte, entregando tudo a uma gratuidade de infinita indiferença. Se não há cordões, então eles não flagelam, mas também não confortam. Seria forçado a reconhecer que o equilíbrio das coisas não é tão frágil que dependa de soquinhos em madeira ou folhinhas de arruda. Não somos marionetes; somos nossos únicos donos.
O inquietação que essa independência trouxe me fez bater na madeira da cadeira onde estava por puro instinto. Mas já não houve alívio.

4 comentários:

  1. Livre arbítrio x destino... acreditar em tudo ao mesmo tempo te faz ter menos fé? bom pra pensar...

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  2. Gostei mto dessa frase: negar o azar fará também negar a sorte, entregando tudo a uma gratuidade de infinita indiferença. Se não há cordões, então eles não flagelam, mas também não confortam.

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