quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Silêncios bons

De onde se ouviam dissabores, agora nem seus ecos. Melodias dissonantes que, se aspiravam ser belas, antes pretendiam-se descanso de si mesmas, alívio indômito de quem se sabe triste mas repisa cada sorriso breve procurando nele uma verdade qualquer.

A tempestade feita em verso queria ser sol de calmaria, honesta porque incerta, perdida em seus significados. E sua vontade de beleza (que seduz ainda mais quando não há) bastava-me: o brilho com pesar, reerguido, que não esconde cicatrizes.

Assim surgiu-me a moça com olhos de âmbar: nesse mar incerto entre embalar-me à brisa ou naufragar-me indiferente. Perdi-me neles e dessarte já não há porto ou águas; só o silêncio de quem tudo via com dureza e furtada essa busca no que aflige (ou sobre o que apiedar-se), calou o que me sussurrava cada letra, fazendo repousar a pena. Como cantar um amor que não dói?...

Sarou o que doía, doeu o que não sentia, e amou o que há muito queria amar, tudo a um só tempo cujos instantes me são infinitos, destinados que estão a serem fotografias das mais doces. Até receio tornar-me repetidor de um só cante e assim aborrecer a ventura de quem se disponha a saber destas linhas, mas já não sei de um caminhar longe do dela. Assim é que minha quietude confessa não haver o que redimir, nenhuma reflexão sobre ao que a dor talvez trouxesse luz. Basta de amor em teoria.

Essa história é feita de dias aos milhares, como moinho que gira em prece ao gosto do vento. Beijos de corpo inteiro, olhos cúmplices que asseguram não haver lugar ou tempo além de si, mãos que agarram para não mais livrar. Sobretudo, silêncios bons.


Moça com olhos de âmbar, não tenho interesse em outra vida.


Para Sheila Ferreira

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