segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Simulações e Verdades



Ele voltou ao aplicativo perto da meia noite; não que estivesse sem sono, mas o reflexo de pegar o smartphone geralmente era mais forte, automático demais até para que outras urgências se manifestassem. Nada no Whatsapp; nada de interessante no Facebook. Então, após um velocíssimo correr de ícones pela tela, começou a verificar os recentemente adicionados aplicativos de paquera. Tinha feito perfil em todos os que constavam no Google Play, mesmo aqueles em que só havia reclamações dos usuários.

Estava realmente ansioso para começar uma conversa por ali. Pensava que sua timidez – até então, obstáculo máximo na sua vida afetiva – não seria mais problema, afinal ele responderia por texto, tendo mais tempo para lapidar seu humor refinado e deixar florescerem comentários perspicazes. Não era mais como nos primeiros anos de internet, onde se paquerava pelos chats da UOL para encontrar gente tímida, feia e/ou esquisita (o que não impediu ninguém de beber goles amargos e repetir a dose). Mas isso era passado. A internet já dominou todo o planeta e a solidão segue como a mais negligenciada epidemia mundial. Mesmo pessoas não problemáticas já tentam a sorte nos aplicativos.

Foram perto de duas semanas até que o aplicativo Tinder o informasse de que ele tinha uma “combinação”, ou seja, uma moça, do outro lado, também havia resumido seu gostar à apreciação instântanea de fotos tendenciosas, permitindo que ele começasse a primeira tentativa de sedução de sua vida. Ele jamais diria “oi, tudo bem?”, “o que vc está fazendo?” ou riria com o curioso “kkkkkk”. Não, ele estava aqui para seduzir – e seduzir principalmente a si próprio. Mostraria para si mesmo (seu mais sério oponente) que poderia conquistar uma mulher, ou mais de uma.

Apesar de aflito pela vontade de começar, esperou até a noite para mandar sua primeira mensagem, pois não queria passar uma imagem de afobação. Imaginava a moça do outro lado consultando repetida e inutilmente o celular em busca de um sinal seu, e essa fantasia o enchia de uma sensação dúbia: gostava do poder de decisão, envergonhava-se desse prazer, e também tinha medo de ser esnobado pela moça como castigado por sua arrogância. Mesmo assim aguentou firme até o horário que tinha em mente (dez da noite) e mandou a primeira mensagem.

“Isso não deveria ser uma conversa teclada. Você deveria estar andando distraidamente pela praia, com olhos perdidos entre o mar e a areia. Eu torceria para que você me notasse alguns passos antes da nossa aproximação, para que as minha palavras não soassem desprevenidas. Então eu diria que a noite pedia uma caminhada a dois, e que nossas reflexões poderiam esperar por uma noite menos bonita. Eu faria esse convite, e bastaria um sorriso seu para o meu não ir mais embora. O que você responderia?”

Mas a resposta foi “kkkkk como vc tecla bem.....”, e isso o colocou numa encruzilhada. Ele gostou mesmo das fotos que a moça havia colocado em sua apresentação pessoal. Por mais que esse texto já estivesse pronto antecipadamente, ele tinha intenção de encontrar aquela mulher. Mas a resposta dela, com pouco mais de quatro palavras improvisadas e desatentas, o desanimaram. Tentou seguir e viu que a moça bonita não corresponderia a parte de seus anseios – os literários.

Mas ela seria animada e disposta. Conversaram bastante, e ele viu frustrada cada tentativa sua de encontrar uma afinidade em comum. Ainda queria sexo, mas sabia o estado de espírito em que o sexo casual o deixava. Toda a falta de conexão desabaria sobre ele como uma pilha de tijolos, enquanto a mocinha mal informada sobre essa dissimulada decepção tentaria em vão se aconchegar nos ombros mais arredios que uma cama de casal já viu. No dia seguinte, nenhum dos dois seguiu conversa, e seu rápido encontro acabou como começou. Quase insensivelmente.

A segunda combinação não tardou a acontecer. E novamente o texto da praia como paisagem foi integralmente repetido. Um diálogo se iniciou.

- Que jeito bonito de começar uma conversa! Mas confesse: já estava pronto, não estava?

- Não, eu escrevi de improviso. Suas fotos foram minha inspiração.

- Sei... então me diga mais alguma coisa tão bonita quanto o texto. Aí eu acredito.

Ele foi até a cozinha beber água enquanto pensava. Havia demorado um bocado para chegar naquele texto introdutório; não seria fácil repetir rápido algo com a mesma qualidade... Mas não foi preciso. Quando voltou, a moça não estava mais lá. Deixou uma mensagem dizendo que estava com sono, e que eles poderiam conversar depois. Ao menos agora ele tinha tempo. Pensou um bocado e deixou uma continuação antes de também se deitar.

“Você está certa, era um texto pronto; desculpe-me pela mentira, que pretendeu nada além de lhe impressionar. Mas do meu lado também tem uma verdade: o texto preexistia, mas eu esperei que ele pudesse ser verdade para usá-lo. Como um poema escrito na solidão, mas que depois ganha um rosto. Nele eu não digo nada que realmente não gostasse que acontecesse. É um cenário mais romântico, com pessoas de verdade. Gosto mais dele do que desta tela de LED. Sigo nos imaginando nele. Aceite este convite.”

No dia seguinte, ele acordou tarde, e ela já havia respondido. Dizia que, mesmo sendo um texto pronto, ele acabou por fazer o que ela havia pedido: uma segunda mensagem atenciosa e gentil. Ela queria confirmar que aquele não era um texto copiado; não estava interessa na sua velocidade de escrita. Ele se sentiu apreciado e as conversas passaram a ocupar todo o tempo que podiam. Ele nunca mais perdeu aquele certo tom lírico ao falar com ela, que seguia a musa perfeita para suas incursões. Estavam se divertindo muito nessa relação cujo comprometimento era muito semelhante a um namoro, mesmo que o contato físico sequer fosse cogitado.

Perto do dia dos namorados, ele assistiu a uma das comédias românticas que já havia visto antes, mas que sempre o deixava melancólico por reconhecer-se sem ninguém com quem viver aquele tipo de aventura, como as do casal do filme. Agora, pela primeira vez, era revigorado pela sensação de compartilhar o sentimento que o filme açucarado passava. Olhou para dentro e reconheceu: “estou me apaixonando!”.

Suas mensagens ganharam, progressivamente, mais intensidade e vida, mas a reciprocidade não deve jamais ser presumida (embora todos o façamos). Ele se declarou timidamente por meio de metáforas e analogias, mas a moça entendeu e perguntou sobre seus sentimentos de forma inequívoca, então ele foi claro. Ela ficou em silêncio pelo resto do dia. Ele não dormiu bem.

Quando acordou, mais tarde do que ela, como era costume, havia uma mensagem.

“Eu achei que falássemos a mesma língua aqui. Era uma brincadeira gostosa, mas uma brincadeira ainda assim. Após mais de um mês em que nenhum de nós propôs um encontro real, eu supus que você, como eu, só queria um pouco de distração virtual. Eu sou casada; claro que não é um ótimo casamento, mas estou longe de querer encerrá-lo. Desculpe-me por não ter sido clara. Acho que é melhor não conversarmos mais.”

Ele leu, releu e por apagou todas as mensagens e rastros da moça em seu celular. Trabalhou de forma avoada por todo o dia e voltou para casa se sentindo ainda meio catatônico. Ao final do mesmo dia, já não estava tão abalado. Havia uma boa dose de verdade no que a moça dissera em sua despedida. Eles não se conheciam; cada lacuna sobre ela havia sido preenchida com expectativas otimistas, que poderiam (ou não) estar distantes da realidade. Ele amava um conjunto de pouca realidade e muita fantasia criado por ele mesmo. E, se muito daquilo era ele mesmo, não havia do que ter saudade. Essa engenhosa conclusão o acalentou e a noite não foi difícil.

Ele está trabalhando num texto introdutório novo.

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