Salvo uma única exceção
semanal – a missa na Igreja Presbiteriana comandada pelo não menos solitário
padre McKenzie –, era raro vê-la pela rua em outros afazeres. Não era feia, nem
particularmente bonita; não tinha um corpo escultural, tampouco malfeito a
ponto de afugentar os homens; não era desengonçada, nem seus traços eram
marcantes ou seu andar, sedutor. É bem verdade que eu não tinha idade nem
vivência para julgar boa parte do que acabei de destacar, mas ao menos da forma
como me lembro, tanto o menino de ontem quanto o homem de hoje concordam na
descrição.
Minha
atenção foi fisgada não por uma atitude sua, mas, ao contrário, talvez por seus
silêncios. Alguns silêncios falam até demais e não costumam ter muito tato. Já
vi casais que vão a restaurantes e se limitam a dividir a refeição calados,
muitas vezes sem se tocarem e com olhos voltados para a comida que aparentam
apreciar tanto quanto a companhia. Cansados demais até para brigar, casal que
não se aguenta é mais triste do que o sujeito que bebe sozinho, com seu copo de
cerveja reinando isolado no meio da mesa como verdadeiro baluarte de uma autossuficiência
pouco convincente.
No caso de Eleanor (assim ouvi alguém chamá-la na Igreja), seus silêncios eram preenchidos por minha dedução, minha imaginação, e, por vezes, até meu ócio. Desenhei-lhe a mais afiada e enigmática das personalidades e justificava seu jeito retraído como tédio inevitável causado pelas conversas provincianas das quais já havia se cansado. Não tendo quem lhe fizesse par, ficava ela com seus brilhantes pensamentos. Era também como eu via as bandas de rock estrangeiras antes de conhecer um mínimo de inglês: a empolgação com a melodia me fazia acreditar que as palavras ali cantadas seriam de um lirismo incomparável. Depois vi que não eram e foi como se um novo papai noel fosse desmascarado. Reconhecer a condição humana é sempre frustrante.
No domingo, enquanto eu comia meu desjejum em meio à fanfarra que minha família fazia logo de manhã, podia ver, do lugar onde me sentava, as janelas da sala e da cozinha daquela moça, pois era minha vizinha. Pelo pouco que suas janelas contavam, ela também tomava café no mesmo horário, mas de um jeito disciplinado e sempre séria, sempre sozinha; nada guardava de semelhante com a lambança criada por meus irmãos, sempre inconformados com a peremptória missa que se aproximava. Tentei dividir com eles meu interesse pela vizinha, mas deram de ombros. Aquela história seria só minha; não porque fosse especial, mas porque ninguém mais a quis.
Já na Igreja, com seu sóbrio e costumeiro vestido cinzento, participava ativamente das liturgias e, vez por outra, era possível vê-la sorrir, mesmo se tratando de um sorriso minguado e fugaz. Ela devia ter um gosto sofisticadíssimo, pois nada daquela rotina parecia ser capaz de fazer jus às altas expectativas com que eu lhe vestia, e como eu ainda não reconhecia a verdade simples que era a sua solidão, ficava me perguntando sobre os interesses inacessíveis que poderiam ocupar sua mente.
O final da infância e o começo da adolescência, que já têm seus próprios percalços, aos poucos fizeram escassear o interesse que eu tinha pela vizinha, tornando-me mais e mais parecido com todo o resto do mundo, até que, enfim, não sobrou ninguém que investisse algum tempo pensando em Eleanor. E mesmo no meu caso, meu interesse não lhe rendeu sequer uma conversa, pois sempre me restringi às minhas confabulações e não cheguei nunca a abordá-la. Indiferente, portanto, aos meus comportamentos de antes ou depois, nunca cheguei a fazer-lhe bem ou mal. Ela, que não era bonita nem feia, não teve comigo nada de bom ou ruim.
Soube dela por último enquanto ouvia minha mãe conversando com outra vizinha, que contava de sua morte prematura durante uma missa, por causa ainda desconhecida, e que havia causado o maior rebuliço. Foi a primeira vez que muita gente lhe dedicou uma fala, e foram tão curtas quanto “tadinha” ou “é a vida”. Morria a moça que ninguém conhecia; que gostava de cinza, vivia sozinha e rezou muito pedindo pelo que ninguém vai saber.
No caso de Eleanor (assim ouvi alguém chamá-la na Igreja), seus silêncios eram preenchidos por minha dedução, minha imaginação, e, por vezes, até meu ócio. Desenhei-lhe a mais afiada e enigmática das personalidades e justificava seu jeito retraído como tédio inevitável causado pelas conversas provincianas das quais já havia se cansado. Não tendo quem lhe fizesse par, ficava ela com seus brilhantes pensamentos. Era também como eu via as bandas de rock estrangeiras antes de conhecer um mínimo de inglês: a empolgação com a melodia me fazia acreditar que as palavras ali cantadas seriam de um lirismo incomparável. Depois vi que não eram e foi como se um novo papai noel fosse desmascarado. Reconhecer a condição humana é sempre frustrante.
No domingo, enquanto eu comia meu desjejum em meio à fanfarra que minha família fazia logo de manhã, podia ver, do lugar onde me sentava, as janelas da sala e da cozinha daquela moça, pois era minha vizinha. Pelo pouco que suas janelas contavam, ela também tomava café no mesmo horário, mas de um jeito disciplinado e sempre séria, sempre sozinha; nada guardava de semelhante com a lambança criada por meus irmãos, sempre inconformados com a peremptória missa que se aproximava. Tentei dividir com eles meu interesse pela vizinha, mas deram de ombros. Aquela história seria só minha; não porque fosse especial, mas porque ninguém mais a quis.
Já na Igreja, com seu sóbrio e costumeiro vestido cinzento, participava ativamente das liturgias e, vez por outra, era possível vê-la sorrir, mesmo se tratando de um sorriso minguado e fugaz. Ela devia ter um gosto sofisticadíssimo, pois nada daquela rotina parecia ser capaz de fazer jus às altas expectativas com que eu lhe vestia, e como eu ainda não reconhecia a verdade simples que era a sua solidão, ficava me perguntando sobre os interesses inacessíveis que poderiam ocupar sua mente.
O final da infância e o começo da adolescência, que já têm seus próprios percalços, aos poucos fizeram escassear o interesse que eu tinha pela vizinha, tornando-me mais e mais parecido com todo o resto do mundo, até que, enfim, não sobrou ninguém que investisse algum tempo pensando em Eleanor. E mesmo no meu caso, meu interesse não lhe rendeu sequer uma conversa, pois sempre me restringi às minhas confabulações e não cheguei nunca a abordá-la. Indiferente, portanto, aos meus comportamentos de antes ou depois, nunca cheguei a fazer-lhe bem ou mal. Ela, que não era bonita nem feia, não teve comigo nada de bom ou ruim.
Soube dela por último enquanto ouvia minha mãe conversando com outra vizinha, que contava de sua morte prematura durante uma missa, por causa ainda desconhecida, e que havia causado o maior rebuliço. Foi a primeira vez que muita gente lhe dedicou uma fala, e foram tão curtas quanto “tadinha” ou “é a vida”. Morria a moça que ninguém conhecia; que gostava de cinza, vivia sozinha e rezou muito pedindo pelo que ninguém vai saber.
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