Você me escapou por entre os dedos e isso me entristece, mas não porque eu vi em você algo que
me falte. Não é por isso. Eu lhe quis pelo que eu vi – e isso, desde o primeiro
momento –, mas não passei dessa querença, e é isso que me entristece.
O
quanto poderíamos ser divertidos ou inspiradores; companheiros ternos e amantes
infernais; o conselho bem dosado ou o silêncio confidente. Nada disso, tampouco
o aconchego ao meu ombro ou seu cheiro na minha cama.
Nós
nos vimos e nos testamos brevemente como roupa de vitrine que nos põe dúvida tão
fugaz que não chegamos a levá-la ao provador. Você seguiu seu caminho; eu fiquei
em exposição; ambos seguiremos em nossa oferta disfarçada de leveza.
Também
não cheguei a sentir seus espinhos e calos, que seriam um bálsamo agora que
você é lembrança. Sem saber o que há em você que pudesse me afastar, eu lhe
cubro com um improvável manto de prazeres indefectíveis, e atesto, em meu
silêncio, que qualquer tentativa de desconexão é despeito e saudade.
Ainda
que a vida pareça uma busca obstinada pela peça de quebra-cabeça que, enfim, se
encaixe e nos desvende a nós mesmos; ainda que tanta seleção possa
mostrar, não a indiferença ao outro, mas o amor por si... apesar de todas essas
verdades, nosso episódio, em particular, não se deixa misturar e me entristece.
Porque
minha intuição me dizia que havia algo em você; algo sem nome, mas que eu
preciso às margens da aflição; algo que eu insisto em acreditar que deixaria
minha vida mais fácil, mesmo o contrário sendo muitíssimo mais provável. Agora
você já vai longe e seus traços se dissipam; em breve você vai diminuir em mim,
porque eu não me apaixonei, mas minha intuição teima: havia algo em você.
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