quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Amor em Teoria IV - Lampejo

Você me escapou por entre os dedos e isso me entristece, mas não porque eu vi em você algo que me falte. Não é por isso. Eu lhe quis pelo que eu vi – e isso, desde o primeiro momento –, mas não passei dessa querença, e é isso que me entristece.
O quanto poderíamos ser divertidos ou inspiradores; companheiros ternos e amantes infernais; o conselho bem dosado ou o silêncio confidente. Nada disso, tampouco o aconchego ao meu ombro ou seu cheiro na minha cama.
Nós nos vimos e nos testamos brevemente como roupa de vitrine que nos põe dúvida tão fugaz que não chegamos a levá-la ao provador. Você seguiu seu caminho; eu fiquei em exposição; ambos seguiremos em nossa oferta disfarçada de leveza.
Também não cheguei a sentir seus espinhos e calos, que seriam um bálsamo agora que você é lembrança. Sem saber o que há em você que pudesse me afastar, eu lhe cubro com um improvável manto de prazeres indefectíveis, e atesto, em meu silêncio, que qualquer tentativa de desconexão é despeito e saudade.
Ainda que a vida pareça uma busca obstinada pela peça de quebra-cabeça que, enfim, se encaixe e nos desvende a nós mesmos; ainda que tanta seleção possa mostrar, não a indiferença ao outro, mas o amor por si... apesar de todas essas verdades, nosso episódio, em particular, não se deixa misturar e me entristece.
Porque minha intuição me dizia que havia algo em você; algo sem nome, mas que eu preciso às margens da aflição; algo que eu insisto em acreditar que deixaria minha vida mais fácil, mesmo o contrário sendo muitíssimo mais provável. Agora você já vai longe e seus traços se dissipam; em breve você vai diminuir em mim, porque eu não me apaixonei, mas minha intuição teima: havia algo em você.

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