Não
sou o tipo de sujeito egoísta, que fica contando centavos em troco de
restaurante ou perguntando o que cada pessoa bebeu. Não sou mesmo; acho que
essas pequenas mesquinharias não justificam sequer o esforço de engendrá-las.
Observe-se que, se a arte imita a vida, desde O Avarento de Molière, passando pelo Conto de Natal de Dickens, até O
Mercador de Veneza de Shakespeare, não se encontra um único elogio ao
poupar desmedido. E eu concordo com tudo isso. Só não concordo que isso se
aplique ao caso das bolachinhas; nada mais!...
Naquele
episódio, um biscoitinho não era um biscoitinho; era, antes, um gesto calculado
de esperançosa diplomacia empresarial. Contextualizarei: sou contínuo,
exatamente como a personagem de Lima Duarte no Bonitinha Mas Ordinária, com quem já começo a me assemelhar também
em termos de penteado (ou de sua inviabilidade). O contínuo, ou ajudante geral,
não tem sua atividade movida pela nobreza da vocação, mas tão somente pela
necessidade pedestre de um ganha-pão. Eu já tentei mostrar para os meus colegas
de trabalho que há mais em mim do que trocas de lâmpada e reposição de copos
descartáveis, mas não adiantou. Seus olhares mal se desviaram de seus monitores
de computador enquanto eu desperdicei todo meu requintado humor e esmerada
erudição ao gosto da brisa criada pelo ventilador que eu mesmo consertei.
Se
minhas palavras não os alcançaria, talvez gentileza de outra natureza o
fizesse. Comprei então alguns pacotes de biscoitinhos – bem carinhos, admito –
e os coloquei em uma bombonière em minha mesa. Quem passasse receberia
um biscoitinho e, na melhor hipótese, passaria a ter uma opinião melhor
esculpida sobre mim. Era o plano. Plano que o Severino da limpeza, com quem
divido a sala, desde o início tentou pôr a perder. Um dos gerentes, já no
primeiro dia da estratégia, entrou para pedir-me um serviço qualquer e,
gordinho como é, de imediato enamorou-se dos meus paparicos. Antes que eu o
convidasse para que se servisse, Severino lançou desgraçadamente “agora aqui
vai sê assim: chegou aqui leva bulacha!” enquanto ria-se todo, muito divertido
consigo mesmo. Eu me limitei a um tímido gesto com a mão para que o gerente se
servisse e ele agradeceu sem pegar nenhum. Severino tem a sofisticação de um
invertebrado e aos olhos da empresa somos iguais. É justo?
Pior
foi no dia seguinte: a bombinière estava vazia. O glutão deve até ter
inclinado a vasilha na boca pois sequer as migalhas podiam agora testemunhar
que ali houvera biscoitinho. Um vazio total. Quando Severino chegou,
questionei-o imediatamente, mas devolveu-me igualmente ligeiro. “Sei lá de
porra de biscoito!...”, respondeu-me com sua costumeira civilidade. Ele é um
grosseirão, mas um grosseirão de quase cento e dez quilos, então procurei
relativizar. No mais, ele não era afeito aos doces; não devia estar envolvido
no sumiço.
Comprei
outros pacotes, dessa vez um pouco mais baratos. Durante o dia, algumas pessoas
passaram pela sala e pegaram uma bolachinha. A notícia se espalharia, eu estava
certo disso. Manhã seguinte, mesmo crime covarde, bárbaro. Dentro da bombonière,
só minha revolta e desamparo. Comprei um novo pacote de biscoitos e colei um
recadinho com durex no pote “uma gentileza do Benê para TODOS do escritório” e
grifei o “todos”. Aviso dado, aviso ignorado. Já eram vários pacotes de bolacha
e eu ainda não era o contínuo cuja recém-descoberta generosidade já fazia supor
que ali moravam muitas outras e igualmente desejáveis virtudes. Eu era só o
“tio da manutenção”, ou infinitamente pior, o “colega do Severino”.
Já alcançávamos
um padrão: bombonière vazia. Decidi então guardar a bombonière em uma gaveta com chaves no final do expediente para
somente liberá-la no dia seguinte. A essa altura, o infeliz troglodita ao meu
lado já sabia das minhas inquietações e se divertia com elas. Eu, altivo,
ignorava sua risadas altas e entrecortadas com fungadas e outros sons que eu
torço para que tenham saído de sua boca. Eu estava entrando na sala, no dia
seguinte, quando Severino, que dela saía, afirmou “olha que deu resultado,
hein! Devolveram as bolacha tudinho!...”. Eu entrei e vi. Em cima da minha mesa
um pacote de bolachas mais caro do que a soma de todos os sumidos. O ogro
achava que aquilo era um pedido de desculpas, mas não eu. Ah, o ladrãozinho
sujo, além de vilipendiar minhas iniciativas em relações públicas, agora
procurava me humilhar com sua demonstração abjeta de poder. Joguei no lixo e
pisei forte até que tudo se transformasse na farofa mais amarga que já se viu.
Mas
não sou um detetive; não saberia nem por onde começar. Se saísse perguntando
por aí, ririam de mim na certa e só faria dar publicidade ao que eu quero que
se esqueça. Antes que um pote de biscoitos se transformasse em uma baleia
branca que me levasse com ela feito um Gregory Peck calvo e pobretão, era
melhor ser maduro e deixar de lado. Fui andar pelos corredores para
desassombrar a mente. Na minha condição, basta fazer isso com um balde na mão
ou segurando uma chave de fenda que qualquer pessoa pense que estou em plena
atividade. Dá para fazer isso por horas num condomínio de escritórios com
quatro torres de treze andares. Assim, cabisbaixo fui-me sem destino por
infindáveis corredores de lâmpadas fluorescentes e carpetes soltos nas emendas,
pelos quais, cedo ou tarde, eu ainda iria tomar um pito.
Chegando
ao térreo, passei pelas portarias para cumprimentar os rapazes antes de voltar
para o trabalho de verdade. Talvez como recompensa por ter escolhido o caminho
da maturidade, talvez por coisa alguma, descobri sem procurar o fim dos meus
bicoitos. Passando pela portaria do bloco três, o presidente da empresa
passeava com seu filho único, um gorduchinho de onze anos aproximados que
mastigava freneticamente enquanto migalhas iam caindo por seus dois queixos e
prendendo-se em sua blusa de lã como uma pequena avalanche de gordura
hidrogenada. Em uma das mãos um biscoito que não me era nada estranho; a outra
mão vazia e quase fechada num punho, não fosse o dedo médio voltado para mim, desafiador
e convenientemente ocultado das vistas do pai, ocupado em uma conversa de
celular.
Encerrava-se
a diplomacia dos biscoitinhos e saciava-se a sede de vingança sem que uma gota
de sangue fugisse de veia qualquer. Quem não enxerga direito deve preferir
comprar óculos a dirigir vinganças ao Deus que lhe negou visão livre de
ortopedia. Quanto a mim, vou pegar cola para os carpetes.
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