Quando terminei o poema, fiquei
orgulhoso; vi poesia nele. Mas não foram necessárias muitas releituras para que
esse sentimento bom começasse a ser contaminado pela impressão de que minhas
expectativas não haviam sido satisfeitas. Reli de novo e de novo. Verso a
verso, continuava me agradando, e isso me impedia de encontrar o incômodo, que
parecia escondido e diluído no todo, e não em partes soltas. Em resumo, passei
a acreditar que não havia escrito o que queria dizer. Como, às vezes, é
aconselhável certo distanciamento de um problema para que a solução lhe surja,
foi o que eu fiz. Deixei-o numa pasta do computador intitulada “em construção”,
e lá ficou por um tempo, fermentando. Lá dentro, ele não mudaria; aqui fora,
talvez eu mudasse.
Numa das visitas a essa pasta,
resolvi copiá-lo num pendrive, pensando que poderia trabalhar nele na hora do
almoço, no trabalho, enquanto tomaria um chá de gengibre. Abri seu arquivo e li
o texto sem pressa. Fiz algumas correções e voltei ao trabalho. Ao final do
expediente, após uma nova leitura, tive novamente a sensação de que eu apenas
me aproximara das minhas intenções. Frustrado, culpei as mudanças que havia
feito mais cedo, naquele mesmo dia, e apaguei de vez o arquivo do pendrive. Fui
correr no final da tarde, e algumas ideias me surgiram, como costuma ocorrer
durante o exercício. Isso me animou; talvez o poema ficasse pronto naquela
noite ainda.
(Nada é mais íntimo que a
poesia. Justamente porque esse estilo permite tanta arquitetura, posso expor o
que eu sinto em detalhes pornográficos. Ainda assim, outro leitor pode sequer visitar
meus desabafos, levado, não só por minhas linhas, mas por sua vivência também. Claro
que isso vale para qualquer palavra escrita, mas com os poemas é mais forte – basta munir-se de um pouco de hermetismo).
Quando a baderna da minha casa
se aquietou, já tarde da noite, achei que era uma boa hora para fazer um capuccino e ligar o computador. Mas o
arquivo não estava lá mais. Quando o arrastei para o pendrive, ele deve ter
sido recortado, e não copiado; perdido, portanto. E não era pequeno o texto:
cheio de estrofes e reviravoltas, eu não seria capaz de reproduzi-lo: uma nova criação
me levaria a uma nova criatura. O poema que eu gostava – pela metade, é verdade – já não
existia.
Então, meu sentimento por ele
começou a se alterar. Eu não quis escrever um novo poema, e já nem conseguia
lembrar dos motivos que tinha para corrigi-lo tanto. Agora, perdido e em
retrospectiva, era perfeito. Eu preenchia com afeto cada parte não lembrada;
era absolutamente brilhante em sua morte. O estranho é reconhecer que esse
afeto atrasado é baseado numa fantasia: eu não o quis enquanto era meu.
Perdido, cresceu e agora é minha melhor cria.
Hoje, eu fico triste quando
lembro dele. Saber que, quando comigo, não o queria, não ameniza minha saudade,
que me remete a um sentimento de ingratidão. Se é mentira a forma como me
lembro dele, é verdadeira a falta que me dói.
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