Se não
posso julgar um livro pela capa, também não pretendo ler todo o calhamaço para
somente então poder opinar. Assim, temperando minha leviandade com indolência,
atenho-me ao título do livro, o que não é pouco. Um título deve instigar-nos
com suas metáforas, alusões e demais sutilezas. Deve aclimatar o leitor,
prepara seu ânimo; consegue, com seu poder de síntese, convencer ou repudiar.
Pensemos no “Sobre o Amor e Outros Demônios”, de Gabriel García Márquez, e “O
Caminho das Borboletas”, de Adriane Galisteu. Convence e repudia.
Toda
essa exposição pretende relacionar livros com pessoas. Se não devemos julgá-las
pela aparência, tampouco somos obrigados à convivência difícil por anos para
poder – daí, sim, legitimamente – apontar suas faltas. O livro tem seu título,
mas qual seria a medida justa para as pessoas? As mulheres bonitas, por
exemplo, são sobrecarregadas com investidas masculinas que lhes ensinam um
eficiente método de seleção e descarte, sob o qual, inclusive, já fui inúmeras
vezes submetido. Sua resposta é uma rápida e polivalente análise, que vai desde
higiene aparente e brancura dos dentes até subliminares expressões corporais e
refinamento do humor. Mas qual seria um bom método para o resto de nós?
Há
poucos dias, minha esposa me contou sobre a necessidade de irmos a um jantar na
casa de seu chefe, e como todos os outros convidados levariam acompanhante, eu
tinha de ir. Esse pessoal do ramo financeiro, além de falar em código, cheios
de índices, indexadores e estatísticas, relacionam a importância de tudo com
seu valor em pecúnia. Trabalham o ano todo como escravos, até tarde da noite,
para depois passarem férias de uns poucos dias em lugares elitistas e
exclusivos, com o celular do escritório sempre ligado. Esse é o título de um
livro que eu não pretendia ler.
Em
nome da minha paz de espírito e do amor por minha esposa (nessa ordem),
preparei-me adequadamente para o jantar. Camisa bem passada, sapatos combinando
com as meias e barba bem feita. Até havia decorado umas piadinhas elegantes
para preencher eventual silêncio constrangedor. Minha esposa estava ansiosa, quase
aflita, olhava-se muito no espelho e perguntava seguidas vezes se estava bem.
Não estava; aquele vestido a deixava um pouco gorducha, mas só um idiota
pós-graduado faria esse comentário. “Você está linda! Relaxe!...” era sempre a
resposta de indefectível honestidade.
“Se
não gosta das pessoas do setor financeiro, por que se casou com uma?” seria uma
pergunta razoável. A verdade é que, com relação à minha mulher, eu estou lendo
um livro sem ter ainda entendido o título; a história segue um tanto desconexa,
mas agora eu quero ver como vai terminar. Por fim ela apareceu já maquiada na
sala em que eu a aguardava, perguntou mais uma vez se estava bem, e saímos.
Seria uma noite besta e eu estava torcendo para que ao menos houvesse vinho
tinto, com sorte um carmenère chileno decente que anestesiaria meu
tédio.
Fomos
bem recebidos pelos anfitriões e levados até a sala onde os outros convidados
bebericavam uísque e cerveja, o que prontamente nos foi oferecido e aceito. As
piadas foram úteis em seu tempo devido, aprendi finalmente o que são commodities
e, quando fomos chamados para a sala de jantar, eu já estava convencido de que
deveria compra ações de indústrias de fibra ótica. A comida estava boa, não
serviram nenhuma gota sequer de vinho, e sendo eu um simples acompanhante, pude
me manter em relativo anonimato até o final da noite.
Bem,
continuei dividindo a mesa com aquelas pessoas e apesar de agora não saber
precisar o momento em que aconteceu, notei que a frágil espontaneidade da
conversa havia dado lugar a diálogos ensaiados, premeditados. Era quase como
uma coreografia falada, onde o passo seguinte de um depende do passo anterior
do outro. Não pude continuar vendo neles os sujeitos estreitos e monotemáticos
do início da noite porque claramente aquele era apenas um papel desempenhado,
além do qual eu não os conhecia. Ao meu ver, cada um deles se comportava como
entendia apropriado aos olhos dos demais, e assim todos agiam como acreditavam
soar bem, enquanto secretamente abandonavam o que, em verdade, todos eram. A
constatação dessa nova realidade não foi reconfortante, mas melancólica: um
teatro onde também o público é ator e ninguém sabe onde começa ou termina o
palco.
Divagava
nesses pensamentos enquanto montava uma instável pilha de ervilhas em meu
prato, quando acidentalmente cruzei olhar com minha esposa. Ela já estava me
observando, também alheia às conversas, sorriu ternamente e me mandou uma
piscadela. Não disse nada, mas salvou minha noite. Ela definitivamente não era
um deles.
Muito,muito bom mesmo!!
ResponderExcluirObrigado, Bia!
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